Aquele que se interessa pelos temas da cultura negra, seja no Brasil e África, seja em outras partes, há de encontrar, nas páginas que se seguem, farto alimento para suas reflexões e suas polêmicas.

            Sendo a dinâmica da cultura negra brasileira profundamente social em sua inspiração é-de se compreender sua constante reestruturação e sua crescente influência em escala mundial. A ascendência da cultura negra brasileira em ambas as margens do Atlântico é talvez o fato mais notável dos últimos vinte anos, em sua expressão social, no Ocidente. O fato, já percebido pelos especialistas, ainda vem sendo, contudo, subestimado, na literatura especializada e na mídia.

            Na verdade, considerável parte das críticas negativas levadas ao movimento da negritude expressam os interesses da cultura oficial. O significado histórico e contemporâneo da negritude, seu consistente conteúdo humano, evidenciam o fracasso das metodologias da cultural oficial, seja para criar seu universo próprio, seja para manter aqueles objetivos coisificadores que, até um passado bem recente, constituíram o fundamento de sua duração. A mais profunda pretensão da cultura oficial, qual seja, o desaparecimento da crítica social, fracassou rotundamente, em que pese os terríveis meios auxiliares que o Estado e as classes possuidoras puderam mobilizar contra os negros, os trabalhadores e os pobres, nos últimos quarenta anos.

            Daí o renascimento e o poder do movimento negro. Daí o poder da negritude. Poderíamos falar, ..., da sua  inextinguibilidade. Fênix pisada, ressurgirá de uma ou outra forma. A reinserção da ideologia científica na ideologia da negritude é, também, possível. Barbosa é um dos tribunos, oradores e escritores, que nos prova que tal vem ocorrendo.  Os falsos encartamentos paramétricos, diante destes fatos novos, não ousam subsistir. Barbosa é aqui o Gama, ali o Patrocínio. A exploração e a alienação são por ele expostas em todas as suas nuanças, contribuindo para implodir anos de silêncio e de ataraxia intelectual. A pseuda serenidade, na verdade, silêncio étnico, com que o meio oficial costuma tratar os problemas dos negros e da cultura negra nada mais é que um muro invisível, com que se protege as práticas  racistas.

            Este método não tem guarida n’O Caminho do Negro, ora divisado por Wilson Barbosa. É um texto apto a dialogar, a suscitar outras visões, livres da folclorização do outro. Ao expressar uma das visões de dentro da cultura negra, o livro se faz instrumento útil aos debates da comunidade, aos estudantes que melhor a querem conhecer e aos especialistas, por certo, acostumados à ortodoxia da leitura hegemônica.

           Em Acerca da Superestrutura, Barbosa exploração aspectos da teoria marxista da (base e) superestrutura, deixando de lado as superficialidades e pobrezas próprias do pensamento pré-dialético. Evidencia-se no texto que esta ferramenta de abordagem de história social será utilizada nas interpretações dos artigos que se seguem.

            Ao abordar O Problema do Negro na História do Brasil, o autor  desvencilha-se uma vez mais dos lugares comuns divulgados pelo racismo do sobrado e da academia, tratando o negro como sujeito histórico e, portanto, personagem consciente e criador na história do País.

            Em seguida, trata o autor n’A Identidade do Negro no Brasil o problema da formação da identidade histórica enquanto fato objetivo, que se desvincula fundamentalmente das meras situações individuais. Cumpre relatar a coragem do autor, ao evidenciar o caráter material da identidade, fato tão gostosamente ocultado pelos culturalistas.

            Na seqüência,  ao abordar O ‘NGanga, enfrenta os arraigados preconceitos que buscam negar o caráter de religião à  ideologia social tradicional dos negros. E fá-lo uma vez mais com habilidade, partindo dos segredos tão bem guardados por gerações de sacerdotes africanos e brasileiros para, com isso, desmascarar a insídia corrente do racismo em matéria religiosa.

            Por fim, em KaBwaru (Ka Hweru), Barbosa apresenta o tema da capoeira dura, o jogo praticamente extinto característico do Rio de Janeiro, de forma surpreendente, como desejar-se-ia esperar da “ginga”. Ao vincular a prática da capoeira com elementos profundos da cultura negra africana, o autor abala mitos, trazendo à tona o que há de verdadeiro naquele mitêutico. Qualquer que seja o enfoque com que se venha posteriormente a enfocar o assunto, já não será possível ignorar esta contribuição, de todo original.

            Desejo, portanto, a quantos encontrarem este livro, uma feliz leitura, fonte de muito aprendizado...

 

 

Wilson Gomes de Almeida

                                                                                                                               Africanista  

 

O Caminho do Negro no Brasil

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