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  • Klaus Scarmeloto

45 Anos da Libertação do Vietnã: o nome da revolução (Ho Chi Minh) e o Soldado Invencível (Giap)



Para comemorar os 45 anos do final da guerra do vietnã, lançamos,agora, o texto de abetura do livro ESCRITOS de HO CHI MINH, e da antiga publicação que será reeditada em futuro próximo, da obra de GIAP: ARMAMENTO DAS MASSAS REVOLUCIONÁRIAS EDIFICAÇÃO DO EXÉRCITO DO POVO, Lançada em 2016 pela editora RAÍZES DA AMÉRICA.


Por Apoena Cosenza e Wilson do Nascimento Barbosa



Ho Chi Minh - o nome de uma revolução

Tradicionalmente, o debate intelectual se faz em torno das grandes ideias, desenvolvidas por grandes nomes. Na esquerda marxista, isso não é diferente. As obras de Marx, Engels, Lenin, Gramsci, Lukács, entre tantos outros, são amplamente debatidas. Em alguns casos, como Stalin e Mao Tse Tung, suas obras foram alvo de larga difamação. O resultado é que entre a atual esquerda marxista, poucas pessoas leram Mao e Stalin. Aqueles que não as leram, em geral o fizeram por preconceito ou puro desprezo pelas figuras históricas que representaram. Mas, o pensamento de Stalin e de Mao Tse Tung formaram a base teórica por trás de importantes movimentos comunistas na América Latina. O resultado é que o pensamento marxista-leninista de Stalin, e o pensamento maoísta, jamais desaparecem por completo do debate. No entanto, quando se trata da discussão das contribuições teóricas e práticas ao marxismo, os nomes de Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap são injustificavelmente subestimados. Apesar de ser quase unânime que a guerra entre o povo vietnamita e os Estados Unidos da América marcou a história da humanidade, as contribuições daqueles revolucionários são pouco conhecidas. Em especial no Brasil. A vitória chocante do povo indochinês contra a maior potência imperialista muitas vezes é tratada como fruto do (a) esgotamento do próprio imperialismo (e, por-tanto, não teria sido fruto do esforço do povo vietnamita); ou (b) fruto da aplicação competente do marxismo-leninismo, munido das contribuições do maoismo. É surpreendente que, na América Latina, poucas pessoas reflitam seriamente sobre as bases da vitória de um povo contra o colonialismo e imperialismo ocidental. A própria escolha do termo Guerra do Vietnã demonstra a falta de conhecimento que possuímos sobre a vitória do povo indochinês. Aquilo que chamamos de Guerra do Vietnã também se denomina de Se-gunda Guerra de Libertação da Indochina, que resultou em vitórias revo-lucionárias no Vietnã do Sul (e reunificação do Vietnã), no Laos, e tam-bém no Camboja. A Segunda Guerra de Libertação da Indochina foi, evi-dentemente, precedida pela Primeira Guerra de Libertação da Indochina. Ambas tiveram como arquitetos da vitória os grandes líderes revolucioná-rios Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap. Também não se deve menosprezar o papel de um dos maiores discípulos de Ho Chi Minh: Pham Van Dong. Ho foi uma dessas raras figuras históricas que serviu de corpo físico para um processo histórico. Nas palavras de Tru’O’Ng Chinh (que foi secretá-rio geral do Partido Comunista do Vietnã entre 1940 e 1956), pela ocasião do 70o aniversário de Ho Chi Minh: “Na história das nações, há grandes homens cujas vidas e obras estão intimamente ligadas a estágios gloriosos da história de seus respectivos países. Tais homens simbolizam frequen-temente as virtudes mais nobres de seu povo; durante toda a sua vida, lutam pela liberdade e felicidade de seu povo, cujas aspirações mais que-ridas e mais firmes revelam suas palavras e ações. O Presidente Ho Chi Minh é um homem assim.” Uma das características do trabalho do tio Ho (como ficou co-nhecido) era o seu apreço à atenção cuidadosa com a preparação e escla-recimento das massas. Acreditava que um revolucionário deveria, ao mesmo tempo, trabalhar pela elevação do nível de consciência do povo, mas abraçando os costumes e tradições locais. Para ele, a revolução só ocorreria se houvesse identidade direta entre o povo e os revolucioná-rios. Ainda, tinha especial atenção com a adequação tática e estratégica do movimento revolucionário à cada fase política da luta. Entre 1919 e 1936, Ho Chi Minh atuou pela formação e consoli-dação de um Partido Comunista na Indochina. Para atingir esse sucesso primeiro formou as organizações “União Intercolonial”, Liga da Juventude Revolucionária do Vietnã, e Liga dos Povos Oprimidos da Asia. Em 1929, as primeiras organizações comunistas surgiram no Vietnã, e, em 1930, fo-ram unificadas no Partido Comunista do Vietnã, que mais tarde se torna-ria o Partido Comunista da Indochina. Nessa fase, Ho Chi Minh defendia a formação de uma organização com forte disciplina, que ao mesmo tempo tivesse um comando consolidado, mas com células com liberdade de ação (caracterizada pela formulação de um plano de ação), ao modelo de um exército. O programa da organização deveria conter a defesa do confisco de terras e empresas dos imperialistas franceses. Dessa fase, são os textos “Algumas Considerações Sobre a Questão Colonial”, e o texto “12 recomendações”, ambos de 1922. No “Algumas Considerações Sobre a Questão Colonial”, afirmava: “A mútua ignorância dos dois proletariados resulta em preconceitos. Os trabalhadores franceses veem os nativos como humanos inferiores e insignificantes, incapazes de entender e muito menos de agir. Os nativos consideram todos os trabalha-dores franceses como exploradores perversos.” No texto “12 recomenda-ções”, recomendava à “todas as pessoas no exército, na administração e nas organizações de massa”: nunca faltar com a palavra; não ofender a fé e os costumes das pessoas; e mostrar às pessoas que você é correto, diligente e disciplinado. Nota-se as características marcantes dos textos dessa fase de Ho Chi Minh, que eram denunciar os males do colonialismo, ao passo que buscava atrair o apoio dos setores progressistas dos países colonialistas. Ainda, se esforçava para que os militantes anticolonialistas não incorressem no erro de se afastar culturalmente da população local. Pela ocasião da vitória da Frente Popular nas eleições parlamenta-res na França, e mediante o acirramento das tensões intra-imperialistas no mundo, Ho Chi Minh formulou uma mudança tática. Defendeu que o Par-tido deveria atuar através de uma Frende Democrática da Indochina. Essa não deveria pautar a independência da indochina, mas sim a conquista de direitos democráticos, que permitissem a atuação legal dos partidos. Ainda, entendia que os comunistas não deveriam exigir a liderança da frente, mas deveriam se demonstrar como os mais aptos e dedicados membros. Ainda, a Frende Democrática deveria criar laços políticos com a Frente Popular na França. Ho Chi Minh entendia que, naquele momento, uma eventual guerra civil na Indochina beneficiaria o imperialismo japonês. O texto “A Linha do Partido durante o período da Frente Democrática”, de 1939, resume bem a posição política que Ho Chi Minh defendeu. O texto afirmava, em seu primeiro parágrafo: “Atualmente, o Partido não deve avançar pedidos demasiado exigentes (independência do país, par-lamento, etc.). Isso seria deixar-se cair nas armadilhas dos fascistas. Deve formular exigências por direitos democráticos: liberdade de expressão, anistia total para presos políticos; lutar pela legalização do Partido.” Essa posição da Frente Democrática lhe rendeu o crédito de ser racional e re-soluto. Quando as tropas de Hitler invadiram a França, e criou-se o regime fascista francês, a parcela da burguesia vietnamita que outrora colaborava com os franceses, mas eram simpáticos à ideia de democracia, pas-saram para o lado dos revolucionários vietnamitas. Em 1940, o Japão in-vadiu a indochina, criando uma situação única, onde tanto os colonialistas franceses (agora sob um governo central títere aliado à Hitler) quanto o imperialismo japonês não eram aceitos como alternativa pelo povo viet-namita. Os anos seguintes foram marcados pela formação das organiza-ções revolucionárias pela libertação do Vietnã, incluindo as brigadas de propaganda armada. Em 1945, as forças anti-japonesas foram vitoriosas na Indochina. Dado o papel de grande importância das forças de libertação da indochina, os franceses, que reivindicavam direitos sobre aquela região, se viram forçados a negociar. Ho Chi Minh elaborou a tese que o povo indochinês deveria aceitar concessões, e participar como iguais na União Francesa. Essa posição moderada de tio Ho mais uma vez se mostrou acertada. Quando os franceses passaram a exigir concessões cada vez maior, Ho Chi Minh era a voz da razão. Por isso, não havia dúvidas que ele estava sendo sincero quando dizia que não era possível realizar qual-quer acordo com os franceses. Em 1946, iniciou-se a Primeira Guerra de Libertação da Indochina, marcada pela guerra entre a República Demo-crática do Vietnã e a União Francesa. O Presidente da República Democrática do Vietnã, Ho Chi Minh, apresentou a linha política que levaria o Vietnã à vitória: a resistência pro-longada ao colonialismo. Essa resistência prolongada dependia da emu-lação patriótica, que se caracterizava pelo esforço da linha de frente para aniquilar o inimigo, e o esforço da retaguarda para elevar a produtividade e fornecer os meios materiais para que a resistência prolongada fosse pos-sível. O pensamento revolucionário vietnamita, dessa forma, se expressava por uma percepção da revolução e da guerra como fenômenos to-tais. Em outras palavras, a revolução e a guerra de independência deve-riam ser travadas no campo político, no campo militar, no campo cultural, e também no campo econômico e científico. As forças revolucionárias do Viet Minh (Liga pela Independência do Vietnã) dependiam das bases ma-teriais fornecidas pelos seus apoiadores. Esse foi um dos frutos do pensamento de Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap. A Primeira Guerra do Vietnã se deu em três fases. A primeira ocorreu entre 1945 e agosto de 1947, e se caracterizou pela organização das forças do Viet Minh. Teve como principais marcos a resistência de Dam Bô e a derrota da ofensiva francesa de Viet Bac. A segunda fase foi de 1947 a 1950, tendo como principal esforço do Viet Minh a organização do exército popular unificado. Durou da ofensiva de Viet Bac até as chamadas guerras fronteiriças. A terceira fase durou de 1950 (início das guerras fronteiriças) até 1954 (tomada da guerra de Diem Biên Phú. O período foi caracterizado pelo crescimento e consolidação do exército popular, e resultou na vitória do Vietnã na Primeira Guerra de Independência da Indochina. Na época, as forças libertadoras da indochina estavam organiza-das em três tipos do forças: os grupos de combate (de menor porte), que eram os Ký Tap (grupos de combate corporal), e os Vong Tap (grupos de combate armado); as Brigadas de Propaganda Armada, que eram as forças principais móveis da guerrilha de libertação, os grupos de autodefesa, e as milícias regionais; e o Exército de Libertação, que era resultou da unificação das forças de libertação em uma estrutura hierárquica, com unidade de comando. Durante o período da primeira guerra de independência da indo-china, todas novas diretrizes do Partido eram transformadas em poemas por Ho Chi Minh, visando a fácil memorização e divulgação da linha política. A instrução e preparação da massa foi a chave para a vitória do povo vietnamita. Não apenas pela capacidade de insuflar a população, aumentando a capacidade combativa, como pela organização de todos aspectos da vida do povo em torno de um objetivo nacional comum. Ho Chi Minh acreditava que o movimento devia sempre estar preparado para o pior cenário possível, e nunca deveria esperar apoio externo. Como resultado, os apoiadores do Viet Minh mantinham oficinas de produção de armamentos e explosivos. Cada oficina local se dedicava a desenvolver e aprimorar no-vos equipamentos. O esforço pelo aprimoramento da luta revolucionária se dava em todos os campos. As células de propaganda desenvolviam tea-tros de ruas, folhetins, e canções de guerra, etc. As experiências de maior êxito também eram repassadas para outras células, que as adaptavam para as realidades locais. Essa visão de Ho Chi Minh, de caráter prolongado e total da guerra, pode ser encontrada de forma bem clara no texto “Apelo de 19 de junho de 1947”, onde diz: “Eu dou a diretiva a todo o exército para combater ainda com maior encarniçamento e lutar com firmeza para arra-sar o inimigo. Eu apelo a todos os nossos compatriotas a desenvolverem a produção, a armazenarem nossos cereais em lugar seguro a fiscalizarem os diques e apoiarem o exército. Que os quadros políticos, administrativos e técnicos redobrem esforços para ultrapassarem todas as dificuldades, que corrijam os seus erros e se tornem exemplar.” Após a vitória da Primeira Guerra de Libertação da Indochina, firmou-se a Conferência de Genebra (de 1954). Lá, houve reconheci-mento formal que a antiga Indochina Francesa seria agora formada por 4 países: A República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte, socialista); o Estado do Vietnã (Vietnã do Sul, aliado dos Estados Unidos da América); o Reino do Laos (aliado dos EUA); e o Reino do Camboja (neutro, inicial-mente aliado dos EUA, posteriormente se aproximou da República Democrática do Vietnã). Ainda, previa a existência de uma eleição de reunificação entre os dois Vietnãs. Mas, o governo do Estado do Vietnã se recusou a participar de uma eleição reunificadora. Ho Chi Minh, na época, declarou que a luta pela reunificação do Vietnã seria prolongada, assim como a guerra de resistência havia sido. No interior da República Democrática do Vietnã, formou-se três linhas de como deveria se proceder. Uma linha mais radical, que apontava a necessidade da continuidade da guerra prolongada até a unificação com o sul. Outra, defendia que a República Democrática do Vietnã deveria aceitar a divisão, e trabalhar pelo seu fortalecimento interno. Ho Chi Minh defendeu, no período, a fusão cautelosa das duas linhas, entendendo que era necessário fortalecer a República Democrática do Vietnã, e organizar o trabalho político em todo Vietnã, preparando para uma guerra futura. Como consequência dessa linha, o trabalho dos comunistas no Vietnã do Sul foi o de preparar a formação de uma frente unificada, sem deflagrar a resistência imediata. Por isso, em 1955, Ho Chi Minh afirmou, no texto Discurso de encerramento do Congresso da Frente Nacional Única: “O Norte consti-tui, por assim dizer, a base, a origem das forças de luta do nosso povo. Uma casa só se mantém de pé se os seus alicerces forem sólidos. Uma árvore só cresce bem se as suas raízes forem vigorosas. Devemos fazer tudo para consolidar o Norte em todos os domínios, reforçá-lo e fazê-lo progredir constantemente. Nem se põe a questão de minimizar a importância desta tarefa. É tornando o Norte sólido e forte, intensificando seus progressos que nós asseguraremos efetivamente os interesses do Sul.”. Enquanto o go-verno da República Democrática do Vietnã fortalecia sua economia e fazia apelo pela realização da eleição reunificadora, entre 1954 e 1956, o governo do Vietnã do Sul, perseguiu toda espécie de oposição, em especial as seitas budistas que representavam uma alternativa de poder. Ainda, os soldados do ditador Ngo Dihn Diem punia as lideranças dos povoados que se recusavam a colaborar integralmente com o governo. Entre as punições aplicadas pelas tropas de Diem constava o estupro e captura de jovens das aldeias. Até 1958, apesar da repressão brutal, os comunistas conseguiram acalmar o ânimo geral da popu-lação, explicando que o movimento não estava pronto para uma guerra revo-lucionária. Mas, naquele ano, uma aldeia das regiões montanhosas decidiu que era hora de iniciar o levante. Comunicou o representante do Partido Comu-nista que se os comunistas não se levantassem contra opressão, os povos iriam se levantar sem eles. Espontaneamente, foi iniciada a guerrilha contra o go-verno de Diem. Naquele momento, Ho Chi Minh passou a defender que os comunistas não podiam deixar o povo lutar e sofrer sozinho. Formou-se uma aliança entre as lideranças das aldeias sublevadas, seitas budistas rebeldes, e o Partido Comunista do Vietnã, aliança que formou a Frente de Libertação Naci-onal (Viet Cong). Teve início a Segunda Guerra de Libertação da Indochina, também conhecida como Guerra do Vietnã. Essa guerra teve seis fases. Ho Chi Minh viveu e contribuiu para a formulação da estratégia política geral do movimento revolucionário na in-dochina durante as cinco primeiras fases. Na sexta, faleceu antes de sua conclusão. As fases corresponderam aos períodos: (1) de 1956 a 1959, quando o governo de Diem esteve na ofensiva. Essa fase foi caracterizada pela vantagem das forças pró-americanas no Sul; (2) de 1959 a 1961, perí-odo caracterizado pela vantagem do movimento guerrilheiro, em fase de-fensiva; (3) de 1962 a 1963, que foi a fase da chamada guerra especial, onde houve relocação em massa da população na tentativa de desorganizar o movimento de independência do Vietnã. Apesar da aparente vantagem dos governo títere do Vietnã do Sul nesse período, as forças revolucionárias conseguiram se reorganizar de forma eficaz; (4) de 1963 a 1965, que foi a fase de acirramento da guerrilha após a batalha de Bihn-Gia. Nesse período, as ações dos Viet Cong ganharam maior porte. Devido a desmoralização das forças do governo, ocorreu um golpe militar contra Diem, inaugurando uma nova fase da guerra; (5) De 1965 a 1968, ocorreu a americanização da guerra, quando os EUA assumiram maior responsabilidade direta pelas ações contra a guerrilha. Foi o período da tese do General Westmoreland, que defendia que a guerra do Vietnã teria sua vitória medida no número de vietnamitas mortos. Nesse período, houve aparente impasse entre as forças dos Viet Cong e dos EUA; e (6) de 1968 a 1975, que foi a fase das ofensivas revolucionárias. Essas ofensivas visavam colocar a capacidade militar das forças do Vietnã do Sul e dos EUA no limite. Nesse período, o Viet Cong colocou as forças estadunidenses em defensiva. O resultado foi, que em 1973, após ter amargado duas grandes ofensivas (do Têt, de 1968, e de Nguyen Huê, de 1972), ocorreu a “viet-namização da guerra”. Era o início da retirada dos EUA da guerra. Em 1975, ocorreu a ofensiva Ho Chi Minh, resultando na reunificação do Vi-etnã. A Segunda Guerra de Libertação da Indochina resultou em: (a) uni-ficação da Vietnã, em 1975; (b) derrubada do Reino do Laos criação da República Popular Democrática do Laos (com regime socialista e aliada do Vietnã), em 1975; e (c) estabelecimento do Kampuchea Democrático, no Camboja (socialista e aliado da China), em 1976. Entre 1958 e 1964, a Segunda Guerra de Libertação da Indochina teve como principal palco o Vietnã do Sul. Mas, com a americanização da guerra, os EUA passaram a bombardear massivamente o Vietnã do Norte. Wilfred Burchett, jornalista que visitou os dois Vietnãs, na época, descreveu a capacidade do povo vietnamita de resistir. No norte, a guerra tinha dois principais aspectos. O primeiro aspecto era o confronto direto, caracterizado pelo esforço para derrubar os aviões americanos que realizavam o bombardeio. Em 1966, os vietnamitas já haviam abatido quase mil aviões, o que fortalecia a moral do povo vietnamita, e diminuía a moral dos pilotos americanos. Ainda assim, a destruição causada pelos bombardeios era grande. O segundo aspectos da guerra no norte demonstra a justeza da linha política de Ho Chi Minh e de seu núcleo político mais próximo. Tratava-se da guerra econômica e social para o fortalecimento da República Democrática do Vietnã. Esse fortalecimento se caracterizava pela divisa de se preparar para o pior cenário, e agir rapidamente medi-ante a ação do inimigo. Desde o início do conflito, houve um esforço para preparar materialmente a sociedade para a guerra. Isso significou reorganizar as cidades, preparando abrigos subterrâneos, e criando planos de evacuação massiva. Fábricas foram desmontadas e remontadas em oficinas de baixo da terra. Até mesmo hospitais e escolas foram descentraliza-dos, para evitar que os EUA tivessem a oportunidade de destruir alvos civis de grande porte. A velocidade da descentralização exigiu do povo vietnamita grande disciplina. O número de professores precisou ser aumentado radicalmente, em pouco tempo. Isso exigiu um enorme esforço na formação de professores. Dada a escassez de recursos, para que isso fosse possível, adotou-se um modelo de educação contínua. Adultos que terminavam o curso complementares eram automaticamente candidatos para curso universitário, por exemplo. Ho Chi Minh entendia que a formação da população era essencial para assegurar a vitória na guerra prolongada. A descentralização da produção também exigiu esforço científico para o aumento da produtividade. Novas técnicas de produção eram incentivadas, o que resultou na adoção do adubo verde a partir do limo, na criação de abelhas dóceis e de maior capacidade de produção de mel, novos sistemas de irrigação baratos e de fácil reparo, e maior mecanização da agricultura. A tese adotada pela direção vietnamita era que a economia do norte deveria ser organizada de tal forma que servisse de retaguarda tanto para os esforços militares da República Democrática do Vietnã, como para futuras necessidades do esforço revolucionário no sul. Para isso, cada região deveria atingir e superar a autossuficiência. Todo desenvolvimento de técnicas locais, inclusive técnicas tradicionais desenvolvi-das isoladamente em cada região, deveria ser aprimorado e socializado com o restante da nação. No Sul, o pensamento revolucionário de Ho Chi Minh e de Vo Nguyen Giap tiveram impacto similar. Além da divisão militar da guerra em três escalas (formação de grupos de autodefesa nas vilas, grupos mó-veis regionais, e divisões dos exército de libertação nacional), que já havia se desenvolvido na época da primeira guerra de independência, novas técnicas foram criadas para adequação de cada escala da guerra. A guerra de autodefesa dependia da cuidadosa preparação do terreno. Ainda, utilizava-se da chamada “guerra criativa”, com uso de animais e plantas locais (incluindo montagem de armadilhas com abelhas selvagens, por exemplo). Também se adotava a falsa colaboração com o inimigo, para o confundir. Para o combate localizado, utilizava-se armas de produção local (como o famigerado Rifle de 1000 utilidades, capaz de disparar até bobina de bicicleta) ou armamento capturado do inimigo. Ainda, era comum o uso de ações de propaganda, como teatros políticos, e até uso de macacos com mensagens amarradas para passar palavras de ordem. Em 1967, Ho Chi Minh afirmou, pela ocasião da Palestra de um curso de aperfeiçoamento e dirigentes do escalão de distrito: “Pelo Par-tido e pelo povo, os quadros e os membros do Partido devem dispender os maiores esforços. Todos devem estudar a política, a economia, as ciências e a técnica para elevarem suas capacidades a fim de poder desenvolver a economia nacional, vencer no combate e melhorar cada vez mais as condições do povo. Ainda há pessoas que pensam que é sabedoria a mais falar de ciências e de técnica. Mas se nós utilizaremos uma linguagem corrente e simples, nossa linguagem de todos os dias, então isto não tem nada de demasiado sábio, nem de inacessível”. Na visão de Ho, o aperfeiçoamento profissional era parte da luta revolucionária. Desde os primórdios da luta revolucionária, na ocasião de suas 12 recomendações, já estava claro que ele entendia que o papel do revolucionário era também tornar a vida do povo melhor. Conforme o movimento ganhava poder e influência, essa responsabilidade crescia. A luta revolucionária dos povos depende da melhoria e preparação material para que possa se pas-sar de uma fase da luta para seguinte. Vê-se que o pensamento de Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap traz a percepção de que a guerra revolucionária é uma guerra total, combatida em todos os frontes. Não é apenas uma guerra militar, nem só marcada pela insuflação política. Depende também da preparação cultural e cien-tífica do povo. Pensamentos complexos precisam ser elaborados de tal forma que permitam ao povo entender sua essência. Ainda, os revolucionários precisam se tornar um só com o povo. A identidade entre o povo e a vanguarda revolucionária não é, no pensamento de Ho, uma via de mão única. A própria direção precisa adotar costumes daqueles que pre-tende dirigir. Precisa ter comportamento exemplar aos olhos de seus ir-mãos de combate. Essa lição ainda não foi aprendida pelos revolucioná-rios brasileiros. Certamente, aqueles que estudarem os textos de Ho Chi Minh estarão mais próximos de compreender as tarefas que o futuro ainda reserva.

O Soldado Invencivel

Giap, advogado e professor de História do Liceu de Hanói, revelou, como tarefa política dada pelo partido operário indochinês, ser um dos maiores generais da História. Sua consequência política e ideológica levou-o a definir sua participação na guerra da Indochina (1939-1978) como “uma gota d’água no oceano”. Das salas de aula do Liceu, onde ensinava Revolução Francesa, as guerras napoleônicas e restauração, saiu como um conhecedor completo do processo revolucionário chinês e indochinês, apto a formar e a dirigir milhares de quadros políticos e militares, para cumprir as tarefas do movimento de libertação. Como Mao e o Tio Ho, Giap revelou-se um leninista minucioso, capaz de entender e aplicar a estratégia de libertação do mundo contemporâneo. Escrevi em certo momento: “Para o leninismo, a consequência (chegar ao “verdadeiro fim”) da luta das massas está fora da luta das massas, mas no partido que se constitui a vanguarda e o estado-maior da revolução.” “Por isso, para os leninistas, não tem qualquer importância se o desfecho de cada luta parcial do movimento de massa é vitorioso ou derrotado. Com erros futuros, a derrota pode ser transformada em vitória. O traço essencial da psicologia leninista – gerado certamente por sua força ideológica – é a certeza da perpetuidade da luta, a certeza de que, a dadas formas de luta hão de suceder-se outras, num movimento contínuo. Esta certeza sobre a natureza do mundo social leva a uma luta perpétua contra seu inimigo social, a burguesia. Desta forma, à agitação necessária de um movimento inicial local, segue-se a placidez aparente da fase de propaganda, que serve de base ao trabalho de organização. No sentido leninista, sem a compreensão avançada das classes fundamentais (operariado e campesinato pobre), não há possibilidade de vitória. A vitória é um elemento da cons­ciência social. Só o trabalhador consciente vai à luta. Só o trabalhador consciente pode chegar até o “verdadeiro fim”, ou seja, o aniquilamento organizativo do ini­migo de classe.” “É preciso aqui recordar que o leninismo é a forma revolucionária do marxismo no mundo contemporâneo. Como o marxismo, o leninismo crê na dialética como teoria do conhecimento. Ou seja: o leninismo não acredita num caráter suposto formal do mundo, mas crê que tudo que existe está em movimento, encerra o seu contrário, que o consome de forma inexorável. Sendo o mundo – isto inclui o mundo social – movimento perpétuo, tudo que conhecemos em breve estará destruído, ter-se-á ido e cumpre-nos a tarefa de modifica-la da melhor maneira para a condição humana. O futuro é assim um ato de construção voluntária, que permite que seja imposta a vontade daquele que mais conhece e mais implacavelmente – ou determinadamente – luta. Em nossa época, a tarefa de mudar o mundo está na mão dos trabalhadores conscientes e o partido leninista é a arma que lhes cabe utilizar. Agitação política, organização de classe, propaganda política são assim momentos entrelaçados da prática social das classes que despertam para a consciência de que existem e têm um lugar na história.” O futuro general Giap começou a estudar o marxismo aos 16 anos, quando – procurado por suas atividades nacionalistas e estudantis – teve que esconder-se na casa de seu professor Vo Liam Son, ficando ali “a sós” com a biblioteca marxista do mestre (1927). A família de Giap era politicamente ativa e seu pai participara dos acontecimentos anticoloniais da década de (18)90. Muitos membros de sua família foram, portanto, assassinados pelos colonialistas, devido a atividades políticas, incluindo o pai, a esposa e um filho. Giap cresceu e se formou ao mesmo tempo que a doutrina revolucionária leninista, e seu espírito combativo a compreendeu e a assimilou desde que se formou como militante. Escrevi em certo momento: Naquele intervalo de tempo (1919-1935), deu-se feroz lu­ta entre as forças dos trabalhadores e as da burguesia. Em tal contexto, a III Internacional pôde testar à vontade suas teses sobre a natureza de classe da guerra e dos movimentos insurrecionais. Desempenharam aí papel de importância os cursos formativos em guerra dados na Academia Militar de Moscou por quadros como Frunze, ­Tukatchevs­ki, Kamenev e Shaponishkov para os dirigentes bolcheviques empenhados na guerra civil e na organização da III Internacional. Alguns desses “alunos” tiveram, no subsequente, papéis cruciais na marcha da luta mundial. O debate daqueles “ex-alunos” da Academia Militar de Moscou encerrava, na verdade, diversos pontos: (a) o papel das milícias operário-camponesas como força, principal ou secundária, junto ao Exército Vermelho; (b) o lugar do corpo de oficiais herdado do czarismo (cerca de oitenta mil) no exército soviético; (c) a natureza militar do exército em um país socialista: e (d) o ponto de imbricação entre a doutrina insurrecional e a doutrina militar de novo tipo. Quanto a esta última questão, o método dialético indica que o conteúdo político da forma de luta se transforma gradualmente em conteúdo militar, ou seja, se trata da transformação da qualidade em quantidade. As exigências metodológicas para a alteração da relação de forças irão indicar – em dado ponto – a passagem para uma tática que torna indispensável a posse e o uso de forças militares. Quando o trabalho organizado requer o enfrentamento de uma forma de luta nova, imposta pelo inimigo, seja para manter, seja para reverter a relação de forças a seu favor, então se descortina para o movimento revolucionário toda uma etapa tática absolutamente definível ou conhecível. Até então, do ponto de vista teórico, esta etapa tática não era rigidamente definida. Na experiência dos séculos XVIII e XIX, nas revoluções de 1789, 1830 e 1848, na Comuna de Paris (1870), a eventual vanguarda dirigente das massas trabalhadoras havia encontrado dificuldades para passar da mobilização e das lutas específicas de cada grupo para a luta de rua aberta, segundo um plano tático. E dificuldades para levar daí até a insurreição popular. No entanto, para esses novos elementos vindos do núcleo dirigente da Revolução de Outubro, a questão parecia agora (então) meridiana. A nova etapa tática chamava-se defesa ativa, e ela permitiria, pelos seus elementos componentes, fazer face a qualquer situação e a qualquer inimigo do povo trabalhador. Para Frunze e seus seguidores (entre os quais se encontravam nesta questão Stalin, Voroshilov e Bulganin), a defesa ativa era a etapa tática que permitia abrigar desde as formas mais baixas de organização militar para autodefesa até formas bastante complexas de ação, capazes de roubar a iniciativa do inimigo. Por este caminho, seria possível construir métodos unificados de direção, de trabalho e de ação na luta armada, para chegar às diferentes formas de insurreição previstas pela teoria marxista. A herança soviética de Clausewitz Georg Hegel comentou que a História tem sua própria astúcia, mas não raro ela utiliza a ironia e até o sarcasmo. Quis ela, por exemplo, permitir que Carl Phillip Von Clausewitz (1780-1831), aristocrata e inimigo da revolução francesa, houvesse participado das guerras contra Napoleão, entre as quais a Campanha da Rússia (1812-1814) e se tornado instrutor de guerrilhas da Prússia, participando da criação da milícia sem uniforme Landsturm, que combateu os franceses em sua retirada rumo à França. Coube por isso a Clausewitz a dupla oportunidade de analisar e divulgar a guerra de nova natureza criada pela revolução, através de Bonaparte e seus generais, e o outro tipo de guerra popular, a pequena guerra, aquela de pequenos destacamentos (até o nível de batalhão, cerca de 400-600 homens), que foi lutada contra Bonaparte, na Espanha, na Rússia e na Alemanha. A “pequena guerra”, ou guerra de guerrilhas, foi estudada e combatida na França pelo general da república Jordan, e todas essas experiências viram-se acumular de modo indicativo no estudo de Engels sobre a guerra camponesa da Alemanha, nas reflexões de Blanqui e de Lenin e, daí, serem compendiadas e estudadas pelo Exército Vermelho soviético na Academia Militar de Moscou. Disse Lenin: “a guerra é uma parte do todo. E este todo é a política”. E um de seus generais, Shaposhnikov, que ensinou na Academia de Moscou: “Se a guerra é a continuação da política por outros meios, assim a paz é a continuação da luta somente por outros meios”. Esta concepção global do conflito, herdada da revolução francesa e da concepção napoleônica de guerra, foi tornada acessível a todos os Estados pela obra de Clausewitz. Frunze, um dos combatentes da guerra civil soviética e dos primeiros instrutores dos quadros da III Internacional, declara: “Questões de estratégia militar, política e econômica, são muito relacionadas e formam quase um todo único”. A. Svechin, major general do Império Russo e instrutor da Academia, declara: “A guerra é a continuação da política por outros meios, e a estratégia militar é uma continuação, uma parte mesmo da política”. Disse Lenin: “Nós os marxistas sempre nos orgulhamos do fato de que por uma estrita avaliação da massa das forças e relações mútuas entre as classes, temos determinado a seleção desta ou daquela forma de luta.” “A que deve todo marxista atender quando examina a questão da forma de luta? Em primeiro lugar, o Marxismo distingue-se de toda forma primitiva de socialismo pelo fato de que ele não conduz a qualquer fórmula particular de luta; ele reconhece as formas as mais variadas... Nos diferentes momentos da evolução econômica, dependendo de várias condições políticas, nacionais, culturais e sociais, as diversas formas de luta assumem certa proeminência, surge a principal forma de luta, enquanto, por seu turno, as formas secundárias e suplementares, assumem seu aspecto particular, diferente.” Uma vez que o próprio Lenin enlaça as formas sociais de luta com a estratégia política e militar, não pode caber dúvida sobre o que aprenderam na Academia de Moscou, alunos como Ho Chi Minh, o futuro marechal Tito (Josip Broz), Chang Kaishek, Otto Braun (Li De), Zhang Guotao, Ye Jianying, He Zishu e tantos outros. Desses milhares de quadros formados em Moscou, muitos tornaram-se aplicadores rigorosos da estratégia leninista, com a herança soviética de Clausewitz; o Partido Comunista da Indochina, depois sua principal seção, o do Vietnam (P.C.V). O leninismo tem por objetivo o advento de uma sociedade comunista, que em parte resulta da construção de um Estado moderno nas mãos da aliança operário-camponesa, que cumpre todas as funções previstas por Hegel e Clausewitz (este um hegeliano) para o Estado moderno: é nacional; é racional; expressa a maioria; está a serviço da construção racional da liberdade individual. Como base de partida para tal, a estratégia da aliança operário-camponesa predomina sobre todo o demais. Diz Stalin: “a tarefa principal da estratégia é a determinação da direção básica segundo a qual se deva fazer seguir o movimento da classe e segundo a qual se torne mais fácil ao proletariado fazer sentir a sua ação contra o seu oponente para realização dos propósitos ditados pelo seu programa. O plano da estratégia é o plano de organização do golpe principal, na direção em que ele possa produzir o máximo de resultados”. E mais adiante: “em outras palavras, definir a direção principal do golpe significa determinar a natureza das operações em todo o período da guerra, determinar os nove décimos da sorte de toda guerra. Nisto reside a tarefa da estratégia”. Quanto à tática: A tática é a parte da estratégia, a ela subordinada e para servi-la. A tática diz respeito não à guerra em seu todo, mas a seus episódios separados, como as batalhas, os engajamentos. Se a estratégia se bate por ganhar a guer­ra, ou para chegar a uma conclusão, como, por exemplo, a vitória contra o Czarismo, então a tática, de outro lado, pugna por vencer este ou aquele engajamento, esta ou aquela batalha e conduzir com êxito esta ou a­quela campanha, este ou aquele avanço, que mais ou menos corresponde à situação concreta da luta em dado momento... O papel mais importante da tática está na determinação de que caminhos e meios, que formas e métodos de luta, que no geral correspondem a uma situação concreta num dado momento e permitem preparar o sucesso da estratégia. Por isso, a ação tática, seus resultados, não devem ser levados em conta puramente nem do ponto de vista de efeitos imediatos, mas do ponto de vista das missões e possibilidades da estratégia”. Partido Proletário, organizador das massas revolucionárias Lenin, Krassin, Krupskaia, Litvinov e outros, ao fundarem círculos social-democratas em S. Petersburgo, Moscou e Kiev, priorizavam a educação política e ideológica dos novos militantes, que em seu trabalho de agitação e propaganda deviam construir um partido com forte aparato independente dos sindicatos e dos conselhos de fábrica, uma rede de lutadores, políticos profissionais capaz de dirigir tais entidades (1890-1904). Enviado à Polônia para estudar as greves de massa que ali ocorriam, Krassin preconizou a separação entre a luta econômica (conduzida pelos sindicatos e comissões de fábrica) e a luta política, um conjunto de ações semiclandestinas que pusesse em xeque o poder político estabelecido. Surgia assim a “linha de massas”, que iria levar à separação entre bolcheviques e mencheviques, no segundo congresso do partido social-democrata (1903). São, para Lenin, características da “linha de massas” do partido: 1) o partido deve aceitar e partir das reivindicações “mais comezinhas” e “mais baixas” exigidas pelas massas e deve apoiá-las com sinceridade e energia, até que sejam vitoriosas; 2) o objetivo de defender reivindicações “tão pequenas” é obter a completa irrestrita unidade política e organizativa das massas em luta, por reivindicações que, obviamente, são justas; 3) sem admitir qualquer divisionismo ou quebra de unidade, o partido deve estimular as massas vitoriosas naquele nível de reivindicações e lutas, a lutas mais amplas e por objetivos mais elevados; 4) nesse processo, o partido deve educar as massas ideológica, política e organizativamente; 5) o partido jamais deve abandonar a massa no processo da luta, devendo conduzi-la até o fim; 6) o partido não deve jamais permitir que se quebre a unidade nas entidades da massa popular. Esses seis tópicos distinguem as organizações leninistas de outros tipos de organização, ditas pelos leninistas “oportunistas”, por que: a) não se importam com a educação política das massas; b) não se importam com o caráter estrutural e acumulativo das lutas, mas apenas com uma maioria eventual; c) não preparam o assalto ao poder político. O Partido Comunista da China e o Partido Comunista da Indochina levaram a um ponto ainda desconhecido a preocupação leninista da “linha de massas”. Tais partidos desenvolveram como base a “frente cultural”, participando de todas as atividades tradicionais das diferentes comunidades de seus países, como forma de organizá-las contra a cultura estrangeira, os veículos culturais de dominação externa e interna e técnicas aplicadas para sujeitar os trabalhadores e os pobres. Na luta política, promoveram uma verdadeira revolução cultural de base. Sobre esta base, alicerçaram o partido comunista e a criação de novas instituições, nacionais e libertadoras. Dessa forma, tornaram tais comunidades aptas a detectar a infiltração de agentes da repressão e escravizadores culturais. O partido vietnamita, no seu trabalho de construção das frentes revolucionárias, partiu dos métodos mais simples de trabalho, dispensando cerca de 60% de seu “tempo de trabalho” em movimento social, campanhas de convencimento e recrutamento (segundo relatório da Rand Corporation, baseado no interrogatório de prisioneiros). Nada pode se opor ao diálogo entre interessados, ao trabalho “boca a boca” ou “ouvido a ouvido”. Uma vez que as massas são despertadas para a luta nacional e social, se tornam abertas e interessadas na construção de novos caminhos. Desta forma, sob a liderança de Ho Chi Minh e do núcleo dirigente por ele criado, o partido da Indochina (e depois do Vietnam) tinha o apoio absoluto da população muito antes de aceitar como imposição do inimigo a luta armada. Ao fazê-lo, podia “escolher” entre o imperialismo francês e o imperialismo japonês, “dois dinossauros” que se puseram a lutar na Indochina. Para a estratégia leninista era (e é) evidente que o “lado principal da contradição principal” (Nação versus Imperialismo) era o imperialismo japonês, mais jovem, mais agressivo e menos arraigado no povo da Indochina (ou do Vietnã). Por ter menos base social, era o “elo mais fraco”, embora taticamente fosse o mais forte: havia derrotado os franceses. Ao ter o apoio das massas, primeiro mobilizadas e a partir daí organizadas, era possível passar das formas de resistência da luta democrática do povo para um novo patamar, com o desenvolvimento da propaganda armada. A sólida, gradual e discreta construção de um partido clandestino dirigente de grandes massas, ou organizações legais e semiclandestinas, foi um feito político de extraordinária envergadura e profundidade pela direção política vietnamita. A firmeza ideológica se verificou na con­dução do processo sem desespero, enfrentando com determinação a luta interna ideológica em torno de diferentes opiniões, e obtendo a unidade de concepção e de ação com paciência, determinação teórica e perseverança nas ações necessárias. Sua inquebrantável firmeza foi uma lição para todos os povos do mundo e elevou o leninismo a um novo nível. Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap se revelaram grandes especialistas em combater “dentro do cerco”, porque pertencendo a uma região relativamente pequena, mostraram-se capazes de construir forças não percebidas pelo inimigo e desenvolvê-las bem debaixo de seu nariz. Como repetira Stalin sobre a Ásia: A tarefa dos comunistas é destruir o velho sono secular dos povos oprimidos do Leste, incutir no espírito dos trabalhadores e camponeses de tais países a ideia libertadora da revolução, levantá-los para a luta contra o im­perialismo e, de tal forma, privar o mundo imperialista de suas “retaguardas” e “inesgotáveis” reservas. O Caminho Nacional da Revolução Ho Chi Minh era um quadro com muita experiência da luta revolucionária internacional. No começo dos anos (19)20, trabalhou no eixo Londres-Bruxelas-Paris-Berlim, com Chou En Lai, montando as redes que serviriam para a formação dos partidos comunistas na Ásia. Organizou camponeses na China, na Indochina e fez parte da Comissão Militar para a Ásia da Terceira Internacional. Foi elemento de ligação da Associação Internacional dos Trabalhadores do Mar e assistente da Internacional para diferentes países. Tio Ho passou esta enorme experiência para a construção do partido vietnamita, formando quadros competentes à sua imagem e semelhança. Este dom – passar o que sabe, dar o exemplo – raras pessoas têm. Giap tinha também as condições pessoais para assimilar o modo de ser do Tio Ho. Como resultado de sua habilidade e determinação, em 1948, Giap foi encarregado de reorganizar as guerrilhas do Laos e do Camboja, para libertar aqueles povos vizinhos. Disse Giap: Para criar bases políticas, poder-se-ia introduzir quadros políticos nas áreas ocupadas pelo inimigo ou empregar destacamentos armados de propaganda. Naqueles lugares onde existem bases políticas bastante amplas, dever-se-ia promover a guerra de guerrilhas, avançando até a criação de bases de apoio antifrancesas, ou zonas libertadas. Dar importância ao princípio de preservar as próprias forças e se fortalecer na medida em que se luta. Tomar a maior consideração quanto à ajuda aos nossos amigos na formação de quadros. Tudo isso seria impossível sem a sabedoria do Tio Ho, que fora capaz de descobrir e difundir a maneira indochinesa de fazer a revolução, ou seja, qual o caminho nacional adequado para a revolução nos países da antiga Indochina. As colunas guerrilheiras cruzavam a Indochina, lançando núcleos de atividade clandestina em cada aldeia, mobilizando os jovens, efetuando atos de propaganda revolucionária, servindo de “escola de quadros” e a criar os chamados “ninhos de multiplicação”. Seu trabalho seguia fielmente a “linha de massas” ensinada pelo leninismo e aperfeiçoada para as condições locais por Ho Chi Minh. Comentei certa vez: Esse uso extremo do cálculo organizativo permitia a escolha adequada do objetivo que correspondesse ao nível combativo das forças empregadas. As formas combativas privilegiavam o uso da camuflagem, a criação do fator surpresa pela organização prévia do terreno, o uso da velocidade, a alta intensidade e brevidade da ação. A doutrina contra guerrilheira francesa predominou na ação do agressor, mesmo quando os franceses se foram, e vieram os norte-americanos. As duas divisas francesas eram: 1. “guerra rápida para uma vitória rápida”; e 2. “alimentar a guerra com a guerra, combater os vietnamitas com os vietnamitas”. Este conceito estratégico norteou franceses e, depois, norte-americanos. O agressor privilegiava o uso pesado de equipamentos: aviões, helicópteros, carros blindados de combate e reconhecimento, armas automáticas de grande poder de fogo, tudo para o extermínio preventivo das populações julgadas “politicamente contaminadas”. Suas ações de campos fortificados integravam-se em complicados sistemas de fogo defensivo, de natureza tridimensional, pelo apoio de lanchas, navios de guerra, helicópteros e aviões. Essa superioridade brutal de meios dava ao processo de ocupação, forças móveis de envergadura total e permanente. Garantida a ocupação, forças especiais, muitas com aparência civil, podiam se dedicar às tarefas de repressão e de ‘pacificação’. Saindo de suas torres de guarda e de seus fortins, os corpos de tropa e os corpos de guarda se dedicavam a caçar e eliminar os resistentes, com a destruição de redutos, oficinas, aldeias e busca de quadros do Partido e da guerrilha. Seu principal objetivo era a destruição dos cérebros que podiam comandar a causa de libertação nacional. Giap nos conta que, por sugestão de um ex-oficial militar japonês, os vietnamitas organizaram o Ký Tâp, unidades de golpe-de-mão sem armas de fogo. Seus combatentes eram preparados nas artes marciais vietnamitas, o bindihn, o nhat nam e variantes do vovinam, principalmente. Em alternativa ao Ký Tâp, mantinham-se as esquadras de fogo, o Vông Tâp, unidades de ação armadas que carregavam o peso da luta. Os estadunidenses apreenderam em 1962, um verdadeiro tratado tático da combinação para atuar em conjunto, dessas duas estruturas, Ký Tâp e Vông Tâp. A guerrilha em movimento centrava, pois, sua ação em neutralizar a estratégia de postos fortificados, ao longo do tempo. As bases inimigas compreendiam fortins, ni­nhos de fogo, cercas e ouriços defensivos. Sua neutralização só se tornava possível na passagem para fases de contra-ataque, ou em uma contraofensiva geral. Ao construir à sua própria maneira as relações com os diferentes povos da Indochina, a direção do movimento social encontrou os diferentes caminhos nacionais necessários à libertação de cada país, sem impor a cada movimento constitutivo da luta uma linha política que lhe fosse externa ou estranha. Essa habilidade em assessorar a vontade local é justamente o que falta aos “assessores” imperialistas. Os quadros militares vietnamitas foram em grande número, formados no Exército Vermelho de Mao, que seguia preceitos muito próximos daqueles do Tio Ho. Disse Mao, sobre a ação das massas: “as massas são os verdadeiros heróis, enquanto nós somos, com frequência, de uma ingenuidade ridícula. À falta de compreendê-lo, ser-nos-á impossível adquirir os conhecimentos mesmo os mais elementares”. Mao, com clara compreensão leninista, sempre considerou uma necessidade universal a aplicação dos preceitos da luta e do movimento de massas, no que coincide por completo com o pensamento de Ho Chi Minh e de Vo Nguyen Giap. Disse Mao: As massas populares são dotadas de um poder criador ilimitado. São capazes de se organizar e dirigir seus esforços em todos os domínios e todos os ramos, nos quais podem desdobrar suas energias; podem acometer-se à tarefa da produção, em extensão como em profundidade, e criar um número crescente de obras para seu bem-estar. A mesma determinação dos dirigentes vietnamitas com que ganharam o apoio da maioria do povo foi levada por Giap para a preparação das ações militares que construíram o exército do povo. Comentei já que: “Outra prova do “gênio logístico” atribuído a Giap no Ocidente é sua arte prévia de combate. Giap, desde os primeiros destacamentos de propaganda armada, deu enorme importância à preparação prévia de cada ação. Fazia depor os camponeses, que davam informações sobre o local da próxima ação a se praticar, organizando cuidadosamente perguntas e respostas. Fazia “levantar” o objeto da ação várias vezes, valendo-se de diferentes meios e pessoas. Toda a ação era então levada par o papel e as tarefas atribuídas com listas e procedimentos, que se assemelham aos nossos fluxogramas. Quando cada qual sabia de cor seu papel, o roteiro da ação era fechado e passava-se à fase da execução. Esta habilidade organizadora foi em breve espalhada pela massa de quadros, oficiais e tropas da guerrilha e do exército regular. Dos ensaios no papel, avançaram estas preparações para maquetas de papel, que distribuíam em escala e em três dimensões o plano de guerra a se cumprir. A partir de um certo momento, passaram a construir na selva réplicas, até em escala 1:1, do objetivo da ação, com discussão minuciosa das formas de combate mais úteis para ali empregar. Treinar oficiais e tropas para cada campanha e cada objetivo específico é, sem dúvida, tarefa gigantesca. É preciso humildade para deixar de lado a improvisação como método. O resultado certo é a elevação do nível político e militar, e o alto desenvolvimento da capacidade de com­bi­nar pessoas e armas em unidades bem diferentes”. As massas do povo, mobilizadas e organizadas O tio Ho, com sua capacidade inesgotável de trabalho e uma humildade única, fez de si mesmo um exemplo do que é ser militante comunista, exigindo sempre de seus seguidores uma luta constante para que melhorassem a si mesmos. Diz Ho Chi Minh: “diante das massas, não vai ser simplesmente por escrevermos a palavra ‘comunista’ na nossa testa que nós faremos amar. As massas respeitam aqueles que se demonstram dignos pela conduta e pela virtude. Precisamos dar o exemplo se queremos conduzir as massas”. Ou seja, o exemplo da busca de uma prática correta é essencial para mudar a si mesmo e para mudar a sociedade. Este exemplo de cada militante abnegado é compreendido e seguido pela massa popular, que nele então busca se espelhar. A Comissão Militar do partido, criada em setembro de 1944, para conduzir a guerra contra os invasores japoneses, estava formada por quadros desse naipe, indicado por Ho Chi Minh: Truong Chin (secretário), Vo Nguyen Giap, Van Tien Dung, La Tran Nghi, e Tran Dan Ninh. Dispunham eles da primeira seção armada de propaganda, constituída de 34 elementos (três femininos). Comandavam seus três destacamentos constitutivos Giap, Dung e Che Van Tan. Formada a 22 de dezembro (1944), a seção fortaleceu sua influência no prestígio obtido com pequenas vitórias, cuidadosamente preparadas. Como fogo na pólvora, em virtude da anterior mobilização das massas do povo e sua organização durante duas décadas, levou à rápida formação – espontânea – de destacamento de combate por toda parte. Era uma prova do acerto leninista de organizar pacientemente as massas e educá-las para os seus próprios objetivos. Se as massas estão organizadas, elas aceitam passar rapidamente de uma forma de luta à outra. Como ensinava tio Ho: “nossos militantes devem sempre ser modestos, buscar se ultrapassar, desenvolver suas qualidades e as tradições revolucionárias”. Recordemos o ensinamento de Lenin: “não se pode organizar o partido do povo sem enxergar a contradição que existe no seio de todas as coisas”. A luta se trava, pois, em todas as frentes. Nada se vê parado. É preciso transformar as pessoas para que elas possam transformar a realidade. Diz Ho Chi Minh: “Devemos combater energicamente o individualismo e elevar nossa moralidade revolucionária, cultivar o espírito coletivo, o espírito de união, o respeito à organização e o sentido de disciplina (...). Devemos nos esforçar nos estudos, nos forjar, elevar o nível de nossos conhecimentos para poder cumprir corretamente nossas tarefas”. Essa transformação de cada qual é que potencializa a organização das massas e a mudança revolucionária da sociedade. Como disse eu certa vez: O círculo dirigente criado por Ho Chi Minh era a paciência e a astúcia materializadas. Somente suas tentativas de passagem da defensiva para a ofensiva constituíram aqui e ali pecados visíveis. A obsessão por encontrar ao longo das várias guerras o momento do assalto final, talvez tenham fundido todas essas guerras do Vietnam em uma única. A busca das formas de passagem atormentou ao longo do tempo Giap e seu corpo de generais. A preparação cuidadosa das manobras ofensivas em inferioridade de forças – combater dentro do cerco – tencionava quase até a ruptura a capacidade de produzir iniciativa para o comando vietnamita. Materializar a destruição do exército inimigo como uma tarefa militar estava sempre presente em sua busca. Após acumular forças por um período bastante longo, triunfando em centenas de milhares de pequenos confrontos cotidianos, o comando tomava medidas de consolidação e, logo, dava um passo mais largo no caminho de testar uma contraofensiva geral. A ofensiva do Tet (jan-fev.1968), a ofensiva Nguyen Hue (1972) são demonstrações claras da linha vietnamita de: 1. exercer a vontade; e 2. apoiar-se no espírito de autossustentação. Para Giap e seus comandantes, depois de anos de disciplina férrea, vinha à tona o voluntarismo implacável, capaz de espantar os inimigos e até o mundo. O típico voluntarismo revolucionário. A busca por destruir todo um grupamento estratégico-operacional do inimigo com uma sucessão de golpes poderosos e articulados numa ampla frente, era praticada muitas vezes no limite do poder de força dos atacantes”. Tal se tornou possível com a poderosa atuação do partido revolucionário entre as massas, dando uma direção correta ao seu espírito de luta. Enumerei em outro texto o acerto clausewitziano do Alto Comando Vietnamita: “os princípios estabelecidos por Clausewitz para a “Pequena Guerra” foram todos eles passados em revista pelo Alto Comando Vietnamita e submetidos, sob o crivo de Giap, a adaptação que correspondesse às necessidades locais: “1. O armamento do povo em geral, para participação em sua guerra de libertação, deve partir dos instrumentos de trabalho e adaptados aos meios disponíveis: a organização de Giap enfatizou o uso dos meios fornecidos pelo próprio ambiente, lançando mão de galhos, paus, a ambiência dos pântanos, rios e florestas, numa escala colossal – nunca vista antes – de organização do terreno. A arte operacional, nos planos tático e estratégico, foi aqui maximizada. As três forças básicas da ação guerrilheira – companhias independentes, seções de propaganda armada e grupos de trabalho – planejavam detalhadamente o teatro de sua atuação, os meios para organizá-la e torná-la favorável, mas de modo surpreendente”. “2. A guerra de guerrilhas devia ser travada essencialmente dentro do território do país: a renúncia a todo ato espetacular no exterior, na concepção de Giap, torna a guerra de guerrilhas surda, doméstica, capaz de angariar apoio externo e simpatias daqueles que não sejam os beneficiários diretos da agressão. Assim, a importância da propaganda interna – baseada na verdade – é muito maior do que a da propaganda externa. Observe-se o paradoxo de que a “conquista dos objetivos internos” haja facultado aos combatentes vietnamitas a maior visibilidade possível de todas as guerras anticoloniais e anti-imperialistas travadas no século”. “3. A guerra de guerrilhas não pode ser decidida por uma batalha que se perca: utilizando o princípio da “liquefação” da concentração de forças, Giap estendeu sua capacidade guerrilheira por todo o território. Grupos de guerrilheiros foram enviados clandestinamente a todas as partes, combinando trabalho cultural com o trabalho político, sob um elevado grau de segredo. O estabelecimento de uma cortina de segredo era um elemento estrutural prévio da preparação militar em cada local. Os destacamentos de propaganda armada realizavam o seu trabalho de mobilização para criar e manter bases revolucionárias. O terreno era organizado de forma a satisfazer as demandas de segurança da presença dos quadros e da movimentação política e militar da população local. Dessa forma, criaram-se e se mantiveram bases revolucionárias. A fragmentação extrema das atividades de inquietação e destruição do inimigo eram limitadas pelos fatores da independência local possível em logística. Por esta via, as ações intensas e permanentes em diferentes regiões assumiam um caráter espontâneo e aparentemente caótico”. “4. O teatro de operações deve cobrir um espaço muito vas­to: para Clausewitz, a profundidade e a largura do teatro de operações haveria de permitir escapar à relação desfavorável no choque de forças e ao decréscimo crescente da iniciativa e da surpresa. Giap reformulou esta ideia, ao acrescentar-lhe relatividade. A organização da dualidade do poder permitiu uma guerra multiforme, onde os aspectos psicológicos cresceram sem cessar, e a intensidade da ação se fez onipresente. Através de ações multiformes contra as comunicações, emboscadas, e uso excessivo de minas, a iniciativa e a surpresa não cessaram de ser recriadas. Tornou-se uma peculiaridade do Vietnã as aldeias de combate e as comunas de combate. Dessa forma, ao trocar espaço por intensidade, à convencional audácia do elemento guerrilheiro vieram se acrescentar o método, o esforço prolongado e o sangue frio que deviam caracterizar apenas o militar profissional. Outra vez, a clássica preocupação de Giap com as “vias de passagem”, para transformar uma situação no seu contrário, dá-se aqui dialeticamente determinável”. “5. Deve-se tirar o máximo partido da topografia: a construção da defensiva estratégica por Giap obedeceu às máximas de Clausewitz e de Mao. No entanto, os vietnamitas levaram a um patamar mais elevado a organização do terreno, com efeitos defensivos e ofensivos. Sua arte de túneis certamente poupou-lhes milhões de vidas durante a longa guerra (economia de forças)”. “6. A defensiva estratégica corresponde à ofensiva tática: es­te princípio de Clausewitz estava também na estratégia soviética e em sua similar chinesa. A ofensiva tática, intensa na prática vietnamita, buscava atacar em toda parte e não ser constrangida a defender parte alguma. Seguia, portanto, a essência clausewitziana. Mais uma vez, a relação concentração-dispersão maximizava a “mancha d’água” ou a “liquefação”. Ao se afastar do objetivo, devia também desaparecer no terreno”. “7. A guerrilha é uma força auxiliar e um exército regular é a força principal: Giap valorizou aqui a interpretação maoísta de construir o exército de libertação a partir das unidades guerrilheiras. Embora na China exércitos inteiros hajam, no curso da guerra, se bandeado para os maoístas, o comando sempre deu prioridade à formação popular e guerrilheira da massa de seus quadros. No Vietnã, todo o exército, particularmente seu comando, veio da experiência guerrilheira. Os efetivos de densidade rala, que caracterizavam ali a ação guerrilheira, foram pouco a pouco fonte de unidades concentradas na retaguarda do inimigo (até em redes de túneis) para obter o efeito necessário procurado no tipo de combate escolhido (recon ou até batalha). Com o desenvolvimento do exército regular vietnamita, já na fase das campanhas ofensivas (busca de uma sucessão de batalhas numa dada direção estratégica), a guerrilha possuía uma participação igualmente central, pela filosofia de ação de Giap.” “8. A estratégia guerrilheira deve ser capaz de modular a capacidade de resposta do inimigo: é fator moral de importância que a guerrilha, ainda que disponha de força para tal, não efetue golpes de surpresa ou demolidores que atraiam para si o conjunto de forças inimigas. O objetivo da luta guerrilheira é acumular forças no campo do povo, nunca as levar à destruição. Esta visão de Clausewitz é um pouco desafiada por Mao, sendo que Giap tendeu a acompanhar o líder chinês, valorizando ao extremo o sucesso local. É possível observar-se de quando em quando uma “agulhada” de Giap, para testar se está próximo o ponto de viragem situacional. Giap dá um enorme valor moral à aplicação da vontade. A “vontade (disposição) para combater” e o “espírito de autossustentação no combate” são duas categorias que, frequentemente, acarretavam galardões aos combatentes e reconhecimento na propaganda da imprensa popular. Conheci no Chile uma heroína vietnamita de visita, que havia abatido cerca de 150 inimigos. Seu uniforme estava coberto de medalhas de papel, que expressavam o reconhecimento público vietnamita. Quadros, combatentes de diferentes estruturas, guerrilheiros milicianos e membros da juventude de choque participavam ativamente das campanhas (competições positivas) de emulação, para elevar o entusiasmo no combate. Enfrentar o inimigo em grande desvantagem numérica tornou-se assim um hábito. O general Westmoreland, comandante norte-americano de uma fase da guerra, sobre isto comentou: “Não podemos derrotá-los. Estamos preparados para matar, mas eles estão preparados para morrer...” Que diria Westmoreland se descobrisse a disposição brasileira para matar e morrer por uma pulseirinha ou uma briga de trânsito?”


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