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  • Klaus Scarmeloto

De Sosso a Stálin: a construção de uma figura legendária

Atualizado: Ago 19



Vinícius da Silva Ramos Doutorando em História pela UERJ

  • “Durante a retirada forçada de parte do Exército Vermelho, é necessário queimar todos os veículos ferroviários, não deixando ao inimigo nenhuma locomotiva, nenhum vagão, não deixando sequer um quilograma de pão e nenhum litro de combustível. Os kolhozianos devem destruir to do o gado e deixar o pão sob a guarda dos órgãos governamentais para ser levado para as regiões na retaguarda. Todos os materiais de valor, incluindo-se os metais não-ferrosos, pão e combustível, que não possam ser levados, devem ser destruídos”. Joseph Stálin, 3/07/1941.

  • Uma das figuras mais controversas da História da humanidade, Iossif Vissariónovitch Djugashvili, mais conhecido como Stálin é alvo de muitas disputas em torno de sua imagem e herança. Apesar de toda propaganda anticomunista gerada pela mídia ocidental e por boa parte do universo acadêmico mundial, o “Homem de Aço” ainda figura no panteão dos heróis da Segunda Guerra Mundial ─ Grande Guerra Patriótica ─ como aquele que permaneceu despachando documentos oficiais no Kremlin, enquanto tropas nazistas se encontravam a alguns quilômetros do coração da capital russa. Enquanto os idolatrados líderes ocidentais, como Roosevelt, Churchill e Hitler dispunham de belas acomodações para momentos de ataque, o líder do Exército Vermelho permanecia ouvindo os ruídos das bombas enquanto mantinha a moral dos combatentes em alta por conta de sua coragem.

  • Mesmo assim, muito se tem dito sobre a atuação do comandante em chefe das forças armadas soviéticas. De matador cruel e sanguinário, que teria matado milhões (bilhões?), a um covarde que abandonou as tropas à própria sorte por conta de sua incapacidade estratégica. A imaginação e a falsificação parecem não ter limites. Mesmo historiadores antipáticos ao socialismo, mas ainda assim respeitados, parecem constrangidos frente a alguns absurdos espalhados pela rede mundial de computadores e pela programação “tipo exportação” de canais como History Channel e Discovery Channel.

  • Nossa intenção não é desmistificar totalmente a história de Stálin. Nosso espaço e tempo de estudo não permitem tal empreendimento. O que nos parece mais válido é dar uma pequena contribuição ao público brasileiro que vem sofrendo com inúmeras versões pouco verossímeis que pululam em várias mídias. Contribuição essa que passa por um crivo metodológico pertinente a uma revisão bibliográfica e que muitas vezes passa despercebida em meio ao besteirol produzido por youtubers que se denominam “especialistas em Segunda Guerra”, sem nunca terem sentado numa cadeira de qualquer universidade. Nosso projeto nesse artigo é levar ao público um texto de fácil compreensão produzido a partir de bibliografia consagrada e uma quantidade razoável de documentação original disponível em nossa língua. Mais do que um artigo para levantar profundas discussões teóricas, procuramos produzir um texto acessível.


A juventude

  • À primeira vista pode parecer para o leitor que daremos atenção demais neste item, mas a ideia principal é que haja apenas um panorama geral sobre esse momento da vida de Stálin para melhor situarmos nosso objeto que é a sua atuação durante os anos de 1939 até 1945. Indicaremos alguns pontos importantes e algumas sugestões de leitura, deixando claro que não procederemos com uma biografia de Stálin, e sim com o apontamento de questões relevantes no que diz respeito à sua fase mais conhecida. Filho de pais humildes, Stálin nasceu no Cáucaso em 1879 numa paupérrima casa alugada, onde não diferia muito da realidade dos milhões de georgianos que habitavam a região.

  • Dois cômodos, buracos no teto, paredes despedaçando, raros móveis, tudo isso era parte do cotidiano de várias outras famílias que dividiam as dificuldades de um século que ia se encerrando com poucas mudanças naquela região atrasada economicamente e ainda herdeira de tradições sociais que remontavam à Idade Média. Não havia muitas gerações, as relações de servidão ainda perduravam ali, com servos praticamente presos à terra e com dezenas de obrigações a cumprir. De forma nenhuma Stálin teve vida diferente daquela população humilde que se encontrava em meio a disputas territoriais intensas que já duravam séculos entre o czarismo russo e os georgianos autonomistas.

  • A infância de Stálin não parece ter sido marcada por nenhum evento cataclísmico que marcasse sua personalidade para sempre. Seu cotidiano era semelhante ao de qualquer criança que vivesse em tais condições, seja no Cáucaso, em Londres ou na Cidade do México: pobreza, o pavor da doença, a rigidez de uma criação austera. Parece unanimidade que seu pai tivesse problemas de alcoolismo, assim como boa parte dos homens da região, e que sua mãe acabou por cuidar da maior parte das responsabilidades com sua formação, tanto de caráter quanto intelectual. Stálin foi o quarto filho de Ekaterina, o único que sobreviveu. Esse aspecto atesta bem as duras condições de vida e higiene que imperavam no local. Seu rosto acabara por ficar marcado após uma varíola contraída com seis anos de idade (DEUTSCHER, 2006). O atropelamento por uma carroça o faria perder parte dos movimentos do cotovelo (MARCOU, 2013). Nada fazia com que seu destino lhe parecesse animador.

  • O único alento que parecia existir era seu excelente desempenho na escola básica de Gori, ainda no Cáucaso. Sua facilidade com as lições devem ter empolgado Keke, como era apelidada sua mãe, pois dali o menino Joseph foi inscrito no Seminário Teológico de Tbilissi, instituição referência no ensino religioso e laico daquela região. Dali, esperava-se que saísse um jovem candidato a entrar para a hierarquia da Igreja Ortodoxa russa, mas quis o destino que uma carreira bem diferente seguisse o jovem Stálin. As preocupações materiais da família pareciam reduzir-se, mesmo com a ausência do pai devido à sua morte, afinal graças a seu currículo de boas notas obteve bolsa integral para estudar no Seminário. A vida no sombrio monastério nos fins do século XIX não era das mais animadas para um jovem. Leitura, orações, provas, canto, mais orações, tudo isso numa rotina quase militar de vigilância e castigos em caso de descumprimento de ordens, principalmente a solitária.

  • Seu histórico de bom comportamento e boas notas, entretanto, estava ameaçado. Após travar conhecimento com grandes nomes da literatura mundial – proibidos no monastério, mas conseguidos de forma ilícita – Joseph muda aos poucos sua atitude. Ao perceber as contradições nos quais estava envolvida toda a Geórgia, o Cáucaso como um todo, as indústrias que se aproximavam em busca do petróleo da região, o jovem vai desenvolvendo um forte teor nacionalista em suas ideias.

  • O menino que orgulhava sua mãe por ser o primeiro da classe fica para trás, sendo “substituído” por um jovem rebelde que constantemente desobedece aos monges, se recusa a desenvolver estudos em língua russa – defendia o uso do georgiano em detrimento da “russificação” da região comandada pelo império. Assim vai forjando sua consciência crítica enquanto percebe como as questões nacionais afetavam as relações da Rússia com outras regiões que sofriam com seu imperialismo econômico e cultural (DEUTSCHER, 2006).

  • Assim, além de conhecer grandes escritores na biblioteca municipal de Tbilissi, encontra também operários que já se organizavam em pequenos grupos para debater formas de resistência ao avanço da exploração capitalista na região. Ainda não é o momento do contato com os bolcheviques e o marxismo-leninismo, mas Stálin já dá os primeiros passos em sua jornada de organizador e agitador. Reúne-se com operários para levar informações e consciência política, ao mesmo tempo em que divulgava folhetos produzidos por seus próprios companheiros da cidade. Em 1899 é expulso do Seminário após estar envolvido em inúmeros problemas de desobediência e descontrole, passou a ser persona non grata por suas posições de defesa da autonomia cultural da Geórgia, o que acaba o levando a um caminho de “profissionalização” para a revolução.

  • A partir daí seus contatos com o marxismo vão passando a ser mais frequentes, até que parte para empreitadas mais ambiciosas do que somente uma pequena organização socialista do Cáucaso. Stálin ingressa nas fileiras do Partido Operário Social Democrata Russo, onde construirá sua carreira política ao lado de grandes figuras da revolução mundial, principalmente Lênin. Sua vida teve grandes mudanças ao abraçar o socialismo científico e bancar sua expansão por várias cidades da Geórgia.

  • A Sibéria será um local frequente de moradia, enviado periodicamente pelas autoridades do czar russo numa tentativa de isolar os intelectuais da ação congregada com os operários que se multiplicavam às centenas após o início do processo de industrialização do país. Seus contatos com a alta cúpula cresceram na mesma medida em que teve de reforçar seus cuidados contra as investidas da polícia política. Por algumas vezes esteve próximo da morte pela fome e pelas doenças respiratórias causadas pela severidade do clima siberiano, entretanto, de acordo com farta documentação epistolar, não esmoreceu, solicitava dinheiro para manutenção física, e principalmente livros. Sua juventude austera, diferente de muitos líderes revolucionários da época, que descendiam de famílias burguesas ou nobres, o preparou mesmo que inconscientemente para as agruras que o exílio lhe proporcionava. Mesmo próximo do desespero sabia que seus companheiros, e principalmente o gênio de Lênin – interessado nos seus conhecimentos sobre as distintas nacionalidades que povoavam a Rússia, assunto no qual se tornaria um especialista no partido – não o abandonariam. Assim superou o exílio diversas vezes e fugiu em todas as oportunidades que teve, retornando para o trabalho duro de propaganda e da constante fuga dos cossacos. Koba, o apelido adotado em homenagem ao herói georgiano que roubava os nobres para dar aos camponeses, parecia inspirar-lhe a força necessária para prosseguir. Assim, construiu sua trajetória dentro do partido e passava a ser respeitado como um quadro austero, sério, beirando o ascetismo.

  • O espaço que possuímos é modesto, e não caberia aqui uma reedição de discussões já amplamente consagradas, como sua vida dentro do partido e sua atuação durante o processo revolucionário de 1917. Estas palavras iniciais serviram para localizar o leitor no processo de crescimento físico e intelectual e lançar luz sobre alguns pontos pouco estudados sobre sua trajetória política. A paixão que a Revolução Russa despertou em muitos intelectuais – nem todos bem intencionados – acabou premiando a época de 1905 até 1922 como um período de farta bibliografia.


A Grande Guerra Patriótica

  • Pouco se sabe sobre a vida de Stálin, ao menos com informações relevantes e confiáveis. Na maior parte das vezes somos tragados por uma avalanche de informações desconexas que visam alimentar mais o anticomunismo do que propriamente lançar algumas luz sobre questões relevantes. Seus traços de austeridade e ascetismo são recorrentemente confundidos com autoritarismo e avareza, ou com loucura e dispêndio maciço de dinheiro nas supostas casas de veraneio luxuosas. Enfim, de tudo um pouco foi dito sobre essa importante personalidade do século XX, muito provavelmente a mais formidável do período da II Guerra Mundial.

  • Stálin já ocupava o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da URSS quando os preparativos da guerra se iniciaram. O que nossa pesquisa revelou é que poucas coisas alteravam sua rotina intensa de trabalho e dedicação aos assuntos do partido. Seu escritório simples e com pouca mobília parecia se unir à simplicidade de sua infância. Mesmo quando se tornou o comandante em chefe do maior exército da Terra não modificou seu guarda roupas, tendo a já famosa casaca de inverno que usava desde a guerra civil, quatro ternos e o uniforme de marechal que viria a se notabilizar nas conferências do pós-guerra. Stálin estava totalmente voltado a, primeiramente evitar um conflito mundial, em caso de fracasso, rechaçar as invasões inimigas do solo pátrio. Pouco tempo havia para banalidades. À frente do maior contingente da Europa, com a responsabilidade de manter intactas as fronteiras do maior país do mundo e lutando contra a máquina de guerra mais impiedosa que a humanidade já viu, contando com raros aliados e muitos outros inimigos disfarçados de parceiros. Esse era o drama de Stálin às vésperas da guerra mais mortífera da história. A Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929 colocaram uns contra os outros, os principais países do capitalismo mundial. Conflitos imperialistas esporádicos estouravam em vários cantos das colônias asiáticas e africanas, que ameaçavam novamente levar a Europa a um conflito de proporções avassaladoras. Ao que tudo indicava os milhões de mortos que pereceram entre 1914 e 1928 não deixaram nenhuma lição válida para os detentores do poder na Europa e na América do Norte. Ingenuidade nossa seria acreditar que a perda de vidas humanas dá lições ao capitalismo. A morte é inerente a esse sistema, bem como a busca pelo lucro. Assim, o quadro que se desenhava nos últimos anos da década de 1930 era desesperador para qualquer um que tivesse um mínimo de bom senso.

  • Entretanto, nesse contexto precisamos acrescentar um novo ator beligerante que modificava sensivelmente as condições políticas e econômicas europeias: o fascismo. Seja em sua clássica forma italiana, ou no modelo racial alemão, esse componente transformou a já delicada relação entre as potências imperialistas em um verdadeiro barril de pólvora. Seu espírito militarista, seu autoritarismo e sua sede por proporcionar mais lucros ao capital financeiro mediante a destruição das forças produtivas eram um potencial explosivo naquele contexto (POULANTZAS, 1972). Assim, se construía um cenário de extrema tensão do qual o fascismo se alimenta necessariamente, pois este não é um regime de construção, mas sim de destruição, não se trata de um regime ativo, e sim reativo. Ou seja, existe a necessidade constante de construir o medo e a violência para que os fascistas possam reagir com mais violência (MARIATEGUI, 2010).

  • Se já não fossem problemas suficientes, temos o quadro de total omissão das chamadas “potências liberais”, notadamente França e Inglaterra, que tentaram a todo custo permitir o fortalecimento do regime nazista para que esse entrasse em conflito com a União Soviética (URSS). O plano desses países era alimentar as pretensões alemãs de dominação territorial para Leste da Europa, e assim saírem ilesos dessa conquista, ao mesmo tempo em que permitiria uma guerra de proporções épicas contra o regime socialista soviético. Seria uma excelente estratégia se não estivesse baseada na prepotência e arrogância típicas do anticomunismo cego. Seus erros de cálculo foram se sucedendo e a situação de submissão frente às exigências alemãs de territórios, foram se tornando cada vez mais humilhantes (HOBSBAWM, 1995). Os pactos assinados entre França e Inglaterra com a Alemanha demonstram bem esse tom conciliador que se tentava dar à questão da expansão nazista. Bem antes do tão criticado Pacto Ribbentrop-Molotov – que possibilitou o preparo das tropas soviéticas para a guerra -, França e Inglaterra já haviam feito acordos semelhantes. Mas esses não são tratados pela historiografia burguesa. As potências liberais entregavam tudo que podiam em troca de empurrar a Alemanha nazista numa guerra contra a URSS.

  • Isso quase foi possível, quando em 1939 o Japão invadiu a Mongólia, aliado soviético que fez valer seus acordos militares e recebeu ajuda do Exército Vermelho para expulsar os invasores. Talvez, se naquele momento inicial da guerra, a URSS tivesse demonstrado fraqueza, o destino de suas fronteiras ocidentais tivesse sido diferente. Graças à ação enérgica da alta cúpula do Partido e da habilidade militar do ainda desconhecido Jukov, rapidamente os japoneses bateram em retirada e acordaram com os soviéticos um cessar de hostilidades que seria precioso para concentrar esforços na Europa Ocidental. Nesse momento Stálin já era o principal político do país, tendo liderado os movimentos de coletivização da economia e de industrialização acelerada, que possibilitava a produção em massa de novos suprimentos e armamentos que viriam a ser preciosos na defesa de sua pátria. Muito criticado por suas decisões, mas parecia consciente do perigo que se aproximava com a possível união de várias forças burguesas contra a URSS. Seu regime foi forjado na defensiva, com dezenas de Estados hostis ao seu redor, próximo a alguns milhares de quilômetros dos países mais fortes do mundo. Imaginar que sua trajetória à frente de um Estado revolucionário socialista seria repleta de alegrias e conquistas fáceis é ingenuidade ou falta de caráter. Stálin sabia que não havia tempo para soluções fáceis e de pouco sacrifício. Quando se desafia a ordem mundial capitalista a partir do país com a maior extensão territorial do mundo deve-se estar à altura de tomar as decisões mais graves e severas se for necessário. E Stálin estava. Esteve durante toda a guerra e não à toa se forjou como a maior personalidade da História da URSS e da Rússia e se tornou o líder que mais captou prestígio nacional e internacional desse evento.

  • O precioso tempo conseguido com o pacto Ribbentrop-Molotov, uma obra-prima da geopolítica, foi necessário para empreender um esforço de modernização industrial titânico, aliás como todo processo que se desenvolvia naquele país de proporções continentais. Em alguns anos a capacidade industrial soviética deu um salto qualitativo e quantitativo como nunca registrado naquele país nem nos áureos tempos de investimentos ocidentais na modernização do parque industrial das grandes cidades russas. Nada menos que 9000 novas indústrias foram postas em funcionamento com capacidade de produção tanto de mercadorias civis, como para artefatos militares. Para se ter uma ideia, a produção de tanques e aviões que não passava de mil por ano, saltou para 2200 e 5500! Tudo isso em pouquíssimo tempo, sob a supervisão direta de Stálin. Sua capacidade estratégica foi demonstrada ao organizar as principais linhas de defesa na região de Donetz e do Cáucaso, polos de distribuição de alimentos e combustíveis. Decisão acertada, já que as tropas nazistas dedicaram boa parte de seus esforços a tomar e destruir a produção petrolífera soviética. Os novos tanques soviéticos ─ os melhores da época ─ foram deslocados em massa para a região. A construção das linhas de defesa da região ficou a cargo de mais de 140 mil pessoas que chegavam a construir 1500 instalações de concreto todos os dias. E tudo isso não parece ser prova suficiente da capacidade estratégica de Stálin e de todo o Estado Maior soviético para a literatura burguesa. Segundo um dos grandes militares que participaram da campanha da frente Leste, o marechal Jukov, esse esforço só foi possível graças à simbiose que existiu entre o Partido Comunista e o povo naquele momento tão difícil. Foi graças à leitura política dos fatos, do exaltado patriotismo do povo e do sentimento de sensível melhora nas perspectivas futuras, que tantas pessoas partiram para a ação na retaguarda, dando a possibilidade de construção de uma sólida linha na frente de batalha. Esta parceria só foi possível graças às decisões tomadas por Stálin quando da coletivização da agricultura e da modernização acelerada da indústria. Afinal, qual seria o nível de empolgação da população em produzir mercadorias para o front em instalações que mal se aguentavam em pé (MARTENS, 2003)?

  • A ideia de que Stálin tinha medo de uma guerra contra a Alemanha se mostra infundada quando percebemos esses elementos estratégicos de preparação. Entretanto, se fossem essas medidas tomadas por um líder europeu ou estadunidense, seria aclamado de pé pela sua atitude comedida em busca da paz. Stálin tentou sim adiar a guerra, e ao nosso modo de ver ─ e a qualquer sujeito minimamente civilizado e com bom senso, também deveria o ser ─, o fez muito bem. Demonstrar rompantes belicistas contra uma máquina de guerra que tinha deixado de joelhos França e Inglaterra seria de uma incapacidade enorme, mas quando se trata do “Marechal de Ferro”, a acusação de covardia logo aparece. Novamente segundo o testemunho de Jukov, Stálin parecia realmente entristecido ao iniciar a guerra. Entretanto, gostaria de perguntar ao leitor: qual seria o chefe de Estado que se sentiria exultante em mandar para a guerra milhões de compatriotas e testemunhar a tremenda destruição que um conflito daquela magnitude resulta?

  • Esse líder que supostamente tinha se escondido e se embriagado durante os primeiros dias de invasão alemã tomava atitudes distintas das de um ébrio. Assim que as primeiras notícias de derrotas soviéticas próximas das fronteiras, Stálin ordenou mudanças na linha de frente das operações, modificando o perfil dos comandantes, enviando militares com mais experiência política. Depois desses primeiros movimentos, mandou construir novas linhas de defesa 300 quilômetros atrás do front para reforçar as principais cidades em caso de rompimento das linhas de defesa enquanto ordenava maior aceleração na produção industrial. A partir da percepção de que as tropas nazistas teriam vantagem em campo aberto nos momentos iniciais do confronto, se iniciou a mando de Stálin o desmonte da estrutura fabril das cidades próximas das fronteiras, assim como a destruição da infraestrutura que não pudesse ser transportada. O Palácio dos Sovietes, o que então seria o prédio mais alto do mundo foi totalmente desmontado para servir de novas estruturas para a produção de armamentos e suprimentos.


Longe de lamentar, ele tomou as rédeas da situação com determinação. Às 2h, todo o Politburo encontrava-se em seus aposentos, no Kremlin. Até as 3h, quando Schulenburg foi comunicar a Molotov que a guerra estourara, Stálin e Molotov redigiram imediatamente a mensagem ao povo que este último leria no radio no dia 23 de junho ao meio dia. Stálin, por sua vez, só veio a manifestar-se na mesma rádio em 3 de julho. Precisava de um recuo de alguns dias para captar a situação em toda sua complexidade e encontrar as palavras necessárias para mobilização geral. O discurso que fez na ocasião marcou a passagem do revolucionário para o estadista (MARCOU, 2013; p. 171).

  • A blitzkrieg alemã vinha tendo sucesso recorrente contra a ainda deficitária indústria bélica soviética, que apesar de todo o esforço do povo trabalhador não conseguia superar décadas de sucateamento e exploração imperialista em apenas alguns anos. Assim, as tropas alemãs ganharam terreno e se aproximavam perigosamente das cercanias de Moscou. Aquele deve ter sido um momento exultante para a elite nazista. Enfim, o grande urso do leste parecia vencido. Poderiam então iniciar os procedimentos de extermínio em massa dos comunistas que povoavam o país, assim como já haviam começado a fazer dentro da própria Alemanha. Entretanto, foi um erro crasso subestimar a capacidade de resistência de um povo que tanto lutou pela sua autodeterminação. Começava ali um dos capítulos mais dramáticos da Segunda Guerra Mundial, e que elevaria Stálin do patamar de chefe de Estado a comandante fabuloso: a batalha de Moscou (MARTENS, 2003). Apesar de todas as invenções que colocaram Stálin como um ditador ignorante e que não atendia aos apelos de seus generais, os comandantes Vassilevski e Chtémenko tinham outra impressão: em seus livros de memórias, relatam que não havia tomada de decisão que não passasse por uma discussão prévia entre os militares e o birô político. Segundo os mesmos, Stálin não tomava decisões de forma autocrática. O que talvez muitos não entendam é o forte teor político que se dava à guerra naquele momento. Uma leitura política do fato poderia desequilibrar uma batalha, como foi o caso nos primeiros momentos de Stalingrado, onde sempre as primeiras divisões a serem atacadas eram as romenas e italianas, ou seja, aquelas que não possuíam a mesma leitura do conflito que os alemães. Para um crítico das guerras "modernas", consultar um chefe político pode parecer inútil devido ao seu pouco conhecimento técnico sobre armamentos e veículos, mas como todo comportamento humano, a guerra está totalmente ligada a posicionamentos políticos (Vassilevski, Chtémenko, apud. MARTENS, 2003). Não há motivos factíveis que nos levem a crer na cantilena burguesa sobre a falta de competência de Stálin. Sua biblioteca pessoal, preservada e ainda pouco explorada por pesquisadores revela uma personalidade estudiosa e que buscava conhecer muito da cultura universal e russa. Depois de se estabelecer na secretaria geral do partido pôde realizar o desejo de guardar cada livro produzido na URSS, do mais notável ao desconhecido autor. Seus aposentos guardam um pouco da história desse país (MARCOU, 2013).

  • Outra crítica que muito se ouve nos meios acadêmico e midiático, é a ausência de Stálin na frente de batalha. Em primeiro lugar seria interessante saber quantas vezes os ídolos liberais Churchill e Roosevelt visitaram as trincheiras de seus soldados. Não o fizeram, pois seria de uma ingenuidade sem tamanho o principal líder do país se arriscar a tanto para posar em uma ou duas fotos, ao mesmo tempo em que abandonaria outras centenas de tarefas que exigiam suas decisões naquele mesmo momento de exercício demagógico. No caso de Stálin torna-se ainda mais grave, pois sua figura e sua atitude de permanecer em Moscou durante o cerco à cidade contribuíram para a manutenção do moral das tropas e da coesão social na cidade e quiçá no país inteiro. Quando até mesmo um emissário americano presente na URSS elogia a atitude de Stálin e o considera o mais bem preparado dos três grandes chefes políticos dos Aliados, devemos olhar com mais atenção e respeito para sua figura:


“grande inteligência, sua fantástica capacidade de entrar nos detalhes, sua perspicácia e sua sensibilidade humana surpreendente, que ele pôde manifestar, ao menos durante a guerra. Eu acho que ele era mais bem informado do que Roosevelt, mas realista do que Churchill, sob vários aspectos o mais eficaz dos dirigentes da guerra”. (Harriman, apud. MARTENS, 2003).

  • Seus passeios de carro em plena Moscou sitiada, cumprimentando moradores e soldados, suas vistorias do material antiaéreo durante os ataques da aviação alemã, sua disposição insuperável para continuar o trabalho duro de administrar um país durante a maior guerra da História demonstram o esforço empreendido por um comandante que se forjou no calor da batalha, mas que ainda guardava muito do revolucionário resistente e do menino teimoso da Geórgia que não aceitava imposições de quem não tivesse autoridade moral para tanto (MARCOU, 2013). Stálin não se curvou diante dos horrores da Alemanha nazista, e sua tenaz resistência ajudou a inspirar os demais soviéticos.


Conclusões

  • Algum esforço tem sido empreendido no sentido de melhorar o nível dos debates acerca da figura de Stálin. A tradução dos seus discursos durante a Segunda Guerra Mundial, organizada por Ricardo Quiroga Vinhas e João Cláudio Platenik Pittilo é um exemplo de como o público brasileiro pode consultar fontes importantes para essa época. A correspondência entre Stálin e Roosevelt, publicada e comentada por Susan Butler também é um indício de um interesse maior nos últimos anos pelo assunto. Ambas as obras podem ser facilmente encontradas em livrarias de grande circulação.

  • Aos poucos, vamos superando uma dependência extrema da historiografia europeia e estadunidense que visava dar importância apenas ao front ocidental no que diz respeito à vitória dos Aliados. Obras como essa, nos permitem dialogar com outros pesquisadores no sentido de apresentar ao público estudos rigorosos e com capricho de método que se ocupam menos com divagações anticomunistas e mais com a busca por uma versão mais próxima dos fatos históricos. Esperamos que o leitor possa usar esse texto como um caminho inicial na busca por maiores informações sobre a Grande Guerra Patriótica. Despir-se dos preconceitos alimentados pela mídia burguesa é um importante passo


Bibliografia

  • DEUTSCHER, Isaac. Stálin: uma biografia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

  • HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

  • MARCOU, Lilly. A vida privada de Stálin. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

  • MARIÁTEGUI, José Carlos. As origens do fascismo/textos de José Carlos Mariátegui; organizador Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Alameda, 2010.

  • MARTENS, Ludo. Stálin: um novo olhar. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

  • POULANTZAS, Nicos. Fascismo e ditadura. Porto: Portucalense editora, 1972.

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