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  • Klaus Scarmeloto

Evidências da Colaboração de Leon Trotsky com a Alemanha e o Japão (1-7 partes)




Por Grover Furr

Tradução Lúcio Espirito Santo Júnior e Klaus Scameloto

Introdução

“Se uma pesquisa objetiva dos eventos de todos esses anos fosse feita, livre de dogmas ideológicos, então mudaríamos nossas atitudes a respeito desses anos e das personalidades dessa época. E isso seria uma “bomba” que ia causar certos problemas”.
Coronel Viktor Alksnis, 2000
“…é essencial para os historiadores que defendam o fundamento de sua disciplina: a supremacia da evidência. Se seus textos são ficções, e em certo sentido eles são, sendo composições literárias, o material de base dessas ficções é o fato verificável. Porque isso foi tão bem estabelecido, aqueles que negam sua existência não estão escrevendo história, senão aplicando técnicas literárias”.
--Eric Hobsbawn, 1994, p. 57
“…nós podemos demolir um mito somente se ele estiver posto em proposições que se possa mostrar que se assentam em equívocos.”
--Ibid. p. 60.

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  • Esse ensaio é um questionamento a respeito das evidências de que Trotsky colaborou com oficiais japoneses ou alemães, em termos militares e governamentais, durante os anos 30.

  • Trotsky foi acusado e condenado à revelia por tal colaboração nos três "Shows" de Moscou, ou em público, Julgamentos de 1936, 1937 e 1938[1]. Trotsky e seu filho Leon Sedov foram julgados in absentia (à revelia) por essa colaboração nos três julgamentos “encenados” ou públicos que aconteceram em 1936, 1937 e 1938. Trotsky e seu filho Leon Sedov[2], foram réus julgados sem estarem presentes, mas ainda assim, foram figuras centrais nesses julgamentos. Trotsky mesmo proclamou esses julgamentos falsos, mas, naquela época, ele não era amplamente creditado em todos os lugares como hoje em dia, sobretudo, a partir de 1956. Em fevereiro desse ano, Nikita Kruschev leu o seu famoso “Relatório Secreto” no vigésimo Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Por motivos que fogem ao assunto abordado aqui, Kruschev insinuou, mas sem afirmar diretamente, que alguns dos culpados desses julgamentos foram punidos injustamente.

  • Nos anos que se sucederam a maioria dos acusados, foram "reabilitados" e declarados inocentes. Ou seja, sob os sucessores de Kruschev, entre 1965 e 1985, houve uma onda de “reabilitações” que quase cessou. Posteriormente, durante o período Gorbachev, entre 1985 até o fim da União Soviética em 1991, uma ainda maior onda de “reabilitações” teve lugar. Posteriormente, no presente ensaio, nós vamos discutir qual seria a essência política, mais do que jurídica, dessas reabilitações.

  • No final dos anos 80, quase todos os réus em todos os julgamentos de Moscou, mais os réus no "Caso Tukhachevsky" de maio-junho de 1937 e muitos outros haviam sido declarados inocentes de todas as acusações. As principais exceções foram figuras como Guenrikh Grigorievich Yagoda e Nikolai Iejov, dois chefes do NKVD[3] que certamente foram responsáveis por repressões massivas, e muitos de seus subordinados. Trotsky e Sedov também foram "reabilitados", embora não pelos crimes de que foram acusados nos julgamentos de Moscou, pois não estavam entre os réus e, portanto, não estavam formalmente condenados.

  • Enquanto isso, há um consenso acadêmico de que os Julgamentos de Moscou foram fabricações de todos os réus vítimas inocentes de incriminação e de todas as invenções conspiratórias tanto da NKVD quanto do próprio Stalin. Este consenso é parte constituinte do modelo, ou paradigma, da história soviética que é dominante dentro da própria Rússia e além de suas fronteiras e pode ser utilmente denominado de "paradigma anti-Stalin". Entretanto, nenhuma prova significativa de que os julgamentos foram forjados e as confissões falsificadas jamais foram publicadas. Em "Amálgamas" (2016) de Trotsky, eu forneci amplas evidências de que as acusações e confissões eram de fato genuínas.

Os Arquivos Soviéticos “Falam”

  • Durante a existência da União Soviética e, especialmente, desde que Kruschev teve acesso ao poder em 1953, poucos documentos relativos aos Julgamentos de Moscou e às repressões do final dos anos 30 foram publicados na URSS ou disponibilizados nos arquivos para pesquisadores. Khrushchev, seus historiadores e escritores autorizados fizeram uma grande quantidade de afirmações sobre este período da história, mas nunca deram a ninguém acesso a qualquer evidência sobre.

  • Aqui está um exemplo. Em uma conferência de historiadores em dezembro de 1962, após muitas apresentações de oradores promovendo a posição oficial de Khrushchev sobre questões da história soviética, o convocador, Piotr Pospelov, membro do Presidium[4], proferiu as seguintes palavras:

“Estudantes estão perguntando se Bukharin e os demais eram espiões de governos estrangeiros e o que você nos sugere que leiamos”. “Eu declaro que é suficiente que leiam as resoluções do 22º Congresso da União Soviética para dizer que nem Bukhárin, nem Rykov, é claro, eram espiões e terroristas” (Vsesoiuznoe soveshchanie 298). [5]

  • As palavras de Pospelov criam uma falsa impressão. No julgamento de 1938, Bukharin e Rykov não foram condenados por praticarem espionagem eles mesmos, mas por serem líderes do "bloco de direitistas e trotskistas" que se envolveram em atividades de espionagem. Da mesma forma, tanto Bukharin quanto Rykov foram condenados por recrutar outros para praticar atos de violência contra terceiros — a melhor tradução aqui da palavra russa para "terror", que significa algo bem diferente em inglês —, mas não de se envolverem eles mesmos nisso.

  • Portanto, a implicação das palavras de Pospelov é correta no sentido que a maioria dos leitores entenderá — que um "espião" é alguém que ele mesmo espiona, e um terrorista é aquele que comete atos de violência. Mas Pevevev é incorreto na medida em que desejava que sua audiência entendesse que suas confissões e o veredicto contra eles estavam errados. Além disso, a pergunta era sobre "Bukharin e o resto" - presumivelmente, todos os outros réus no julgamento de 1938, enquanto Pospelov restringiu sua resposta apenas a Bukharin e Rykov.

  • Na passagem que se segue imediatamente à citação acima, Pospelov disse claramente à sua audiência que os únicos materiais historiográficos que deveriam ler são os discursos oficiais feitos no 22° Congresso: "Por que não é possível criar condições normais de trabalho no arquivo do Partido Central? Eles não fornecem materiais relativos à atividade do PCUS".

  • Com efeito, Pospelov está dizendo: “não lhe daremos acesso a qualquer fonte primária”. Essa situação continuou até que a URSS fosse dissolvida.

  • Essa situação continuou até que a URSS foi dissolvida. Graças aos documentos publicados desde a dissolução da URSS, podemos ver agora que alguns dos discursos do 22º Congresso do Partido (outubro de 1961) também continham mentiras flagrantes sobre os oposicionistas dos anos 30 - um fato que explica plenamente a recusa de Pospelov em deixar qualquer um ver as evidências.

  • Para dar um exemplo do grau de falsificação no 22º Congresso e sob Kruschev, geralmente, comentamos a citação de Aleksandr Shelepin[6] de uma carta de Stálin do comandante de primeira categoria (general, acima de Marechal) Iona E. Lakir, acusado de colaboração com a Alemanha nazista. Na citação de Shelepin da carta de Lakir para Stálin em 9 de junho de 1937, o texto lido por Shelepin está destacado. O texto original publicado em 1994 segue abaixo. A parte lida Shelepin está em itálico e em negrito, o restante da carta, no entanto, foi todo omitido:

  • Uma série de cínicas resoluções de Stálin, Kaganovich, Molotov, Malenkov, Voroshilov e as cartas e declarações feitas pelos aprisionados testificam o tratamento cruel das pessoas, de pessoas importantes, que se acharam sob investigação. Um exemplo foi quando por sua vez Lakir — o comandante da região militar, apelou para Stálin numa carta onde ele reivindica sua completa inocência.

  • Aqui o que ele escreveu:

Prezado, camarada Stalin. Ouso me dirigir a você desta maneira porque já disse tudo, desisti de tudo, e me parece que sou um nobre guerreiro, dedicado ao Partido, ao Estado e ao povo, como fui durante muitos anos. Toda minha vida consciente foi passada em um trabalho honesto e sem egoísmo aos olhos do Partido e de seus líderes — depois a queda no pesadelo, no horror irreparável da traição. E durante esse curto período de minha vida sempre havia dentro de mim duas pessoas — uma que havia trabalhado muito e honestamente para o exército, os soviets, o partido e a outra que pensou e estava preparando atos vis e hostis ao país. A investigação está concluída. Fui formalmente acusado de traição ao Estado, admiti minha culpa, me arrependi totalmente. Confio, ilimitadamente, na justiça e na propriedade da decisão do tribunal e do Estado. A investigação foi concluída. Fui acusado de traição ao Estado; admiti minha culpa, me arrependi plenamente. Tenho fé ilimitada na justiça e na adequação do tribunal e do governo. Sei que pode e deve haver apenas uma sentença — a morte. Estou preparado para esta sentença. No entanto, apelo a você e ao governo e lhe imploro, imploro que acredite na possibilidade da minha correção, que acredite que ainda posso ser útil ao Estado, ao qual dedico todo o meu ser. Talvez você considere e decida permitir-me ir a algum lugar no extremo Norte ou Leste, em Kolyma, para trabalhar e em raras ocasiões aprender sobre a magnífica Terra dos Soviéticos, a minha novamente. Peço-lhes que me permitam, ainda que raramente, que aceite o "Pravda" e veja, pela quantidade da semeadura, a produção, o transporte, as vitórias do partido, dos soviéticos e do povo, que eu traí.
Peço e compreendo que não tenho o direito de fazer isso. Agora sou honesto em cada palavra, morrerei com palavras de amor por você, pelo Partido e pelo país, com uma fé ilimitada na vitória do comunismo''[7].

  • Aqui Shelepin lê a carta de um homem leal e honesto protestando sua inocência. Na realidade, Lakir admitiu totalmente sua culpa. (Há o problema das duas elipses acima. Algo do texto de Lakir foi omitido mesmo nessa versão publicada. Desde que Lakir confessou sua traição ao Estado é possível que ele se refira à colaboração com a Alemanha, junto de Trotsky, ou talvez de outros serviços de inteligência. Isso é sugerido numa interessante citação do caso de Uritsky que foi discutida, de passagem, mais adiante nesse ensaio. Lakir era um dos militares envolvidos tanto com a colaboração com a Alemanha quanto com Trotsky.)

  • A falsificação vai muito além dos discursos do 22º Congresso do Partido. As evidências arquivísticas agora disponíveis nos permitem ver que Khrushchev, depois Gorbachev, e os historiadores que escreveram sob sua direção, mentiram consistentemente sobre os eventos dos anos Stalin a uma extensão que dificilmente seria imaginável se não dispuséssemos de evidências de fonte primária que provem sem dúvida a extensão de suas mentiras.

  • Um número considerável de documentos dos arquivos soviéticos que, formalmente, eram secretos foram publicados desde o fim da União Soviética. Isso é uma pequena proporção daquilo que nós acreditamos que existe. Especialmente em relação à documentação histórica dos anos 30, os Processos de Moscou, os “expurgos” militares e as repressões massivas de 1937-38, a vasta maioria dos documentos ainda são ultrassecretos, escondidos e inacessíveis até mesmo a privilegiados historiadores oficiais.

  • Mas, todo sistema de censura tem falhas. Muitos documentos foram publicados. Mesmo esse pequeno número nos permite ver os contornos da história soviética nos anos 30 de uma forma bem diferente da versão “oficial”.


A questão de Trotsky e a colaboração com a Alemanha e o Japão

  • Durante a última década (o artigo é de 2009, n. do t.) muita evidência documental emergiu dos arquivos formais soviéticos para contradizer o ponto de vista canônico que vigora desde o tempo de Kruschev. Pode-se então dizer que os réus nos Processos de Moscou e a conspiração militar que ocorreu no “Caso Tukachevsky”, possivelmente, não foram vítimas inocentes forçadas a fazer confissões falsas.

  • Escrevemos uma série de obras, incluindo vários capítulos no presente livro e no volume um, "Amálgamas" de Trotsky, nos quais salientamos que agora temos fortes evidências de que as confissões não eram falsas e os réus do Julgamento de Moscou parecem ter sido verdadeiros ao confessarem conspirações contra o governo soviético. Esse trabalho nos levou à presente questão.

Hipótese

  • Leon Trotsky e seu filho Leon Sedov foram condenados in absentia em cada um dos três Julgamentos de Moscou. Se as acusações contra e as confissões de outros réus foram basicamente acertadas, como nossa pesquisa buscou embasar, isso tem implicações para as vozes que supõem que Trotsky estava aliado com a Alemanha fascista e o Japão militarista.

  • Essas considerações nos levam a formar a seguinte hipótese para o presente estudo: que se fossem publicados mais documentos dos arquivos soviéticos iriam surgir mais evidências da colaboração de Trotsky com a Alemanha e o Japão do que qualquer outra evidência encontrada nos três Processos de Moscou. No primeiro capítulo de "Amálgamas" de Trotsky, fazemos referência ao ensaio de Stephen Jay Gould "Dinossauro num Palheiro", a fim de delinear o significado do paradigma e seu uso paralelo na investigação histórica.

  • Nós vamos adotar essa hipótese do mesmo jeito que Stephen Jay Gould descreveu como a forma que seu colega Peter Ward decidiu testar a “hipótese Alvarez”, a chamada cretáceo-terciária catastrófica extinção que contradisse a amplamente aceita teoria da morte gradual de tantas formas de vida por volta de 60 milhões de anos atrás[8]. No curso das leituras de muitos documentos dos arquivos soviéticos, identificamos muitos que parecem dar evidências da colaboração de Trotsky com a Alemanha.

  • Em particular, é cientificamente e historicamente justificado manter como comprovado por enquanto para todos os fins práticos uma conclusão de inexistência (neste caso, a inexistência da culpa de Trotsky) de algo pelo qual faltam provas, apesar do esforço concertado para ditar a verdade. Este foi o estado de coisas para muitos historiadores durante muito tempo no que diz respeito a Trotsky. Entretanto, uma vez encontrada tal evidência — assumindo a validade dessa evidência — a conclusão de não existência (neste caso de sua culpa) deixa de ser científica ou historicamente válida, mesmo que muitos historiadores continuem ilegitimamente a defender a validade da inocência de Trotsky e, portanto, a ignorar a evidência.

  • Partimos para ver se poderíamos encontrar ainda mais evidências de que Trotsky havia colaborado com os alemães e japoneses. No momento certo de nossa pesquisa, quando tínhamos reunido uma quantidade de tais provas, decidimos estudá-las e ver o que representava. O presente volume é o resultado.

  • Parece-nos que existe muito mais evidências documentadas podem ser encontradas se atualmente procurarmos por elas. Na realidade, se ninguém procurar por essas evidências, elas nunca serão encontradas e nunca serão conhecidas.

  • O fato é que formamos uma hipótese e isso não significa que nós predeterminamos o resultado de nossa pesquisa. É preciso partir de uma hipótese ou “teoria” que é, necessariamente, pré-condição para qualquer questionamento. Gould nos lembra da sensível observação que Darwin fez em 1861: “Como é estranho que ninguém vê uma observação se ela não é útil, mesmo sendo a favor ou contra uma determinada visão”.[9]

  • O presente estudo é um “teste” no sentido que Gould deu a essa palavra: “um fino exemplo da teoria” – Gould fala em teoria, mas quer dizer hipótese aqui, confirmada por dados que ninguém poderia coletar antes que a teoria demandasse tal teste.

  • Também estamos atentos à prudência de Gould cujo todo teste não prejudica a investigação propriamente dita: “Note-se a diferença entre fazer um teste e dar o resultado pronto anteriormente. O teste pode falhar, comprometendo a teoria. Boas teorias podem passar por um teste, mas isso não determina o resultado”.

  • É, em princípio, impossível provar uma inação. Se Trotsky não colaborou com os alemães ou japoneses não existirá evidência de que ele fez isso. Ao contrário do que acontece com a história natural, com a história humana surge a possibilidade de se realizar provas forjadas ou falsas. No presente ensaio, dedicamos muito atenção a este problema.

  • Procuramos encontrar mais evidências da colaboração de Trotsky com os alemães e japoneses. A certa altura da nossa investigação, quando tínhamos reunido uma quantidade de evidências desse tipo, decidimos estudá-las e ver o seu valor. O presente artigo é o resultado disso.

  • Existe uma boa quantidade de evidências envolvendo atividades clandestinas ligadas ao envolvimento do grupo de Trotsky e suas atividades opositoras dentro da URSS durante os anos 30, longe da colaboração com a Alemanha e o Japão. Além do testemunho dos réus nos Julgamentos de Moscou, também temos provas de arquivo na forma de interrogatórios investigativos para confirmar tal atividade. Rever isso está muito além do escopo desse artigo. O presente trabalho se concentra somente nas evidências da colaboração de Trotsky com agentes governamentais e oficiais militares. Nós deixaremos os outros níveis de colaboração sem examinar interrogatórios de investigação para confirmar tal atividade. Rever tudo isso está muito além do âmbito deste ou de qualquer artigo. O presente trabalho se concentra, exclusivamente, em evidências da colaboração de Trotsky com funcionários governamentais e militares japoneses e alemães. Nós deixamos algumas acusações levantadas contra Trotsky sem serem examinadas. As acusações de colaboração com os alemães e japoneses foram as mais chocantes. Elas sempre foram consideradas com muito mais ceticismo.

  • Na maior parte das vezes, apenas citamos e analisamos provas diretas relativas a Trotsky e aos alemães ou japoneses. Esta é uma abordagem muito estreita que exclui muitas outras evidências corroborantes que tendem a acrescentar credibilidade à evidência direta da culpa de Trotsky ao colaborar com os fascistas. Por exemplo, Nikolai Bukharin ouviu detalhes de Karl Radek sobre as negociações e acordos de Trotsky com a Alemanha e o Japão. Bukharin nunca se comunicou diretamente com Trotsky ou Sedov sobre isso. Entretanto, não há razão alguma para duvidar que Radek lhe tenha contado sobre a colaboração de Trotsky.

  • Ao corroborar o testemunho de Radek sobre este ponto - Bukharin concorda que Radek lhe disse isto, como Radek mesmo havia testemunhado, então Bukharin atesta a veracidade de Radek aqui - Bukharin também tende a corroborar indiretamente o que Radek disse sobre Trotsky e o que Radek alegou ter obtido em primeira mão do próprio Trotsky. Ou seja, o testemunho de Bukharin confirma que Radek estava dizendo a verdade em um caso, e isso aumenta a credibilidade do testemunho de Radek sobre outros assuntos, inclusive de seus contatos com Trotsky e o que Trotsky comunicou a ele. Mas aqui vamos examinar apenas o testemunho de Radek, não o de Bukharin. Remetemos o leitor interessado ao nosso estudo anterior de Bukharin (Furr e Bobrov 2007). Em alguns lugares, citamos algumas evidências corroborantes, principalmente com o objetivo de fornecer um contexto para a evidência direta.

Objetividade e persuasão

  • O preconceito político ainda predomina no estudo da história soviética, especialmente porque a oposição ao que chamamos de "paradigma anti-Stalin" acarreta riscos para a segurança do trabalho, possibilidades de promoção e oportunidades de publicação, entre outros possíveis perigos. Conclusões que contradizem o paradigma dominante são rotineiramente descartadas como resultado de enviesamento ou incompetência. Conclusões que lançam dúvidas sobre as acusações contra Stalin, ou cujas implicações tendem a fazê-lo parecer ou "bom" ou até menos "mal" do que o paradigma predominante pretende ter sido, são chamadas de "stalinistas". Qualquer estudo objetivo da evidência disponível agora é, obrigatoriamente, chamado de "stalinista", simplesmente porque ele atinge conclusões que são politicamente inaceitáveis para aqueles que têm um forte viés político, seja anticomunista em geral ou especificamente trotskista.

  • O objetivo do presente estudo é examinar à luz das evidências agora disponíveis as alegações feitas na URSS durante a década de 1930 de que Leon Trotsky teria colaborado com a Alemanha e o Japão contra a URSS. Este estudo não é um "breve julgamento" contra Trotsky. Este estudo não é um "mandado do promotor público" contra Trotsky. Nem é uma tentativa de provar que Trotsky é "culpado" de conspirar com os alemães e japoneses. Nem é uma tentativa de "defender" Trotsky contra tais acusações.

  • Nós nos esforçamos bastante para fazer o que um investigador faz no caso de um crime em que ele é imparcial, mas apenas deseja resolvê-lo. É isso que historiadores que investigam o passado mais distante, ou a história de outros países que não a União Soviética, fazem o tempo todo.

  • Nós queremos convencer o leitor imparcial, justo e objetivo para o qual realizamos uma investigação competente e honesta. Temos feito o que segue abaixo, a saber:

  • · Coletamos todas as evidências que possam dar apoio ao argumento de que Trotsky colaborou com os alemães e japoneses;

  • · Coletadas todas as provas "negativas"— qualquer "álibi" de Trotsky ou seu filho, chefe político e assessor Leon Sedov possam ter tido. Temos feito isso, principalmente, mediante prestar uma séria atenção ao testemunho de Trotsky nas audiências da Comissão Dewey em 1937, onde ele expôs sua defesa;

  • · Estudamos todas as provas com atenção e honestidade;

  • · Extraímos nossas conclusões com base em que evidências;

  • Queremos convencer um leitor de olhar pragmático que temos alcançado nossas conclusões com base em provas e sua análise e não em qualquer outra base, como os preconceitos políticos. Nós NÃO somos a favor de elogiar ou "condenar" Trotsky. Não estamos querendo acusar ou "condenar" Trotsky. Continuamos prontos para estar convencidos de que Trotsky não colaborou com a Alemanha e o Japão se, no futuro, vierem à tona provas de que essas acusações são falsas.

O papel do ceticismo apropriado

  • Ao longo deste ensaio, tentamos antecipar as objeções de um cético crítico. Isso não é mais do que qualquer pesquisador que toma cuidado e que é objetivo deve fazer, e exatamente o que tanto a acusação e a defesa devem levar em conta. Qualquer investigação criminal deve confrontar evidência e interpretação.

  • Temos uma longa discussão de provas no início do ensaio. No corpo do ensaio seguimos cada apresentação de provas com um exame crítico. Na seção final, subtítulo "Conclusão", o leitor encontrará uma análise e refutação das objeções, ou seja, uma crítica afiada que se pode fazer de um ponto de vista justo.

  • Estamos cientes de que existe um subconjunto de leitores para os quais a evidência é irrelevante, para os quem — para dizer educadamente — isto não é uma questão de evidência, mas uma questão de crença ou lealdade. Discutimos os argumentos normalmente levantados a partir deste trimestre na subseção intitulada "Objetividade e Negação". Em qualquer investigação histórica, como em qualquer caso criminal, "crença" e "lealdade" são irrelevantes para a verdade ou falsidade da hipótese. Uma crença que não é racionalmente fundada em evidências não pode ser dissipada por argumentos e provas sólidas.

  • No entanto, aqueles que não podem questionar as suas ideias preconcebidas podem, contudo, ser levados por aqueles mesmos preconceitos a olhar criticamente, especialmente, as provas para encontrar pontos fracos em nossa interpretação que pode escapar a outros leitores para quem há menos em jogo. Isso às vezes faz as objeções de tais setores digna de atenção. Fizemos um grande esforço tanto para antecipar e lidar com tais objeções em uma forma satisfatória.

Evidência

  • Antes de continuar a citar e estudar os novos documentos de arquivo, precisamos discutir a questão da prova em si. Considerando que "documentos" são objetos materiais — em nosso caso, a escrita no papel — "evidência" é um conceito relacional. O nosso objetivo é reunir e estudar as evidências que sugerem que Trotsky agiu como alegado e encontrar as falhas em qualquer suposta evidência contrária.

  • Não existem provas "absolutas". Todas as provas podem ser falsificadas. Qualquer declaração — uma confissão de culpa, uma negação de culpa, uma reclamação de tortura, uma reclamação de coação — pode ser verdadeira ou falsa, ou seja, uma tentativa de afirmar a verdade como o orador (ou escritor) se lembra dela ou uma mentira deliberada. Documentos podem ser forjados e, no caso da história soviética, muitas vezes foram. Documentos falsos foram ocasionalmente inseridos em arquivos a fim de serem "descobertos". Ou pode ser alegado que um determinado documento foi encontrado em um arquivo quando não o foi. Fotografias podem ser falsificadas. Testemunhas oculares podem mentir e, em qualquer caso, testemunhas oculares estão tão frequentemente em erro, mesmo quando honestamente acreditam que suas memórias são precisas, que tais provas estão entre as menos confiáveis. Em princípio, não existe uma "arma fumegante" - uma única prova que é tão claramente genuína e poderosa que não pode ser negada.

  • Os problemas de identificação, coleta, estudo para tirar conclusões corretas a partir de evidências são semelhantes em investigação criminal e na pesquisa histórica. Isto é especialmente verdadeiro quando, como no nosso caso, a pesquisa deve determinar se uma espécie de crime que teve lugar no passado. Mas há diferenças importantes, e é vital ser claro sobre elas.

  • Em um julgamento criminal o acusado tem certos direitos. O julgamento tem que ter uma determinada duração, após a qual o acusado é ou condenado ou absolvido para sempre; [na investigação histórica, não]. O réu deveria desfrutar da presunção de inocência e o benefício de qualquer dúvida razoável. O réu tem direito a um defensor qualificado, cujo único trabalho é interpretar todas as evidências à sua maneira, de modo a beneficiar o seu cliente. Enquanto isso, o juiz e até mesmo o Ministério Público deveria se preocupar não apenas sobre como proteger uma convicção, mas também sobre a justiça. Uma vez que estivermos razoavelmente convencidos de que o réu é inocente é o seu dever de demitir as cargas e descarga do acusado, embora eles possam ser capazes de influenciar o júri a condenado. Essas práticas destinam-se a impedir que um réu seja condenado inocente de uma injusta sentença e pena.

  • Os historiadores estão em uma situação bastante diferente. Mortos não têm direitos (ou qualquer outra coisa) que precisam ser defendidos. Portanto, o historiador não tem que se preocupar com qualquer presunção de inocência, "dúvida razoável", e assim por diante. Ao contrário de um veredicto legal, nenhuma conclusão é final. A investigação histórica nunca precisa acabar. Ele pode, e vai, ser retomada, novamente, quando novas evidências são descobertas ou novas interpretações de velhas evidências são atingidas. Este é de fato o que estamos fazendo no presente artigo. Estamos investigando a questão de saber se Trotsky colaborou com funcionários alemães e japoneses à luz de novas evidências, enquanto ao mesmo tempo deve-se reconsiderar evidências que há muito tempo estão disponíveis.

Objetivo

  • Identificar, localizar, recolher, até mesmo estudar e interpretar evidências são habilidades que podem ser ensinadas a todos. A habilidade mais difícil e mais rara na pesquisa histórica é a disciplina da objetividade. A fim de chegar a conclusões verdadeiras — as declarações que são mais verdadeiras do que outras declarações possíveis sobre uma determinada questão — um pesquisador deve primeiro questionar e duvidar de qualquer ideia preconcebida que ele possa ter sobre o assunto sob investigação. São as próprias ideias preconcebidas e preconceitos que mais provavelmente vão influenciar em uma interpretação subjetiva da evidência. Portanto, o pesquisador deve tomar medidas especiais para assegurar que isso não aconteça.

  • Isto pode ser feito. As técnicas são conhecidas e amplamente praticadas na Física e nas Ciências Sociais. Elas podem ser adaptadas para a pesquisa histórica também. Se tais técnicas não foram praticadas pelo historiador, ele, inevitavelmente, será influenciado pelas suas próprias concepções, preconceitos e preferências preexistentes, no momento da compreensão da prova. Isso vai garantir que suas conclusões sejam falseadas, mesmo que ele esteja na posse das melhores provas e de todas as habilidades necessárias para analisá-las.

  • Em nenhum outro lugar a devoção à objetividade é mais essencial e menos mostrada do que no campo da história soviética do período de Stalin. Como é impossível descobrir a verdade na ausência de uma dedicação à objetividade, este artigo se esforça para ser objetivo. Suas conclusões podem desagradar, mesmo ultrajar, muitas pessoas boas que não são dedicadas à objetividade e a verdade, mas em proteger a lenda de Trotsky como um revolucionário honrado ou a defender a Guerra Fria — paradigma anticomunista da história soviética.

  • É claro que não tenho a pretensão de ter encontrado todas as evidências relevantes que existem. É, esmagadoramente, provável que haja muito mais evidências, já que a vasta maioria dos documentos e fontes primárias que tratam das oposições da década de 1930 ainda estão classificadas como confidenciais na Rússia e os Estados pós-soviéticos de hoje e são inacessíveis a quaisquer pesquisadores. Mas o que temos agora é suficiente. Em nosso julgamento é mais do que suficiente evidência de que Trotsky, de fato, colaborou com a Alemanha e o Japão, mais ou menos como o governo soviético acusou na década de 1930. Porque Trotsky pode ter feito isso é uma questão digna de consideração. Nós adicionamos alguns pensamentos sobre isso ao fim deste ensaio.

A crise de maio-junho de 1937

  • O primeiro documento que queremos apresentar é um que ilustra tanto a promessa quanto os problemas de interpretação de provas documentais.

  • Junho de 1937 foi um período de grande crise para a liderança soviética. Em abril Genrikh Jagoda, Comissário (chefe) da NKVD até setembro anterior, e Avel' Enukidze, até recentemente membro do Comitê Central e membro de alto escalão do governo soviético, começaram a confessar sobre seus importantes papéis nos planos de um golpe de estado contra o governo.O mês de maio começou com uma revolta interna contra o governo republicano espanhol na qual participaram anarquistas e trotskistas. A liderança soviética sabia que esta revolta tinha envolvido algum tipo de colaboração entre as forças pró-Trotsky e a inteligência franquista e germano-nazista.9 No início de junho, oito oficiais militares das mais altas patentes, incluindo Mikhail Tukhachevsky, um dos únicos cinco Marechais do Exército Vermelho, haviam sido presos e estavam fazendo confissões de conspiração com trotskistas e trotskistas, com os Direitos liderados por Bukharin, Iagoda e Rykov, e - a maioria alarmante de todos - com a Alemanha e o Japão nazistas.

  • Em 2 de junho, Nikolai Bukharin repentinamente mudou de posição e confessou por ter sido um dos líderes desta mesma conspiração[10]. Nesse mesmo dia, Lev M. Karakhan, um importante diplomata soviético que em algum momento esteve intimamente ligado a Trotsky, também confessou[11]. O Marechal Tukhachevsky e os outros líderes militares evidentemente continuaram a fazer outras confissões até 9 de junho. No julgamento de 11 de junho eles confessaram mais uma vez e foram então condenados, sentenciados e executados.

  • Antes e durante o Plenário do Comitê Central, que ocorreu de 23 a 29 de junho, vinte e quatro de seus membros e catorze membros candidatos foram expulsos por conspiração, espionagem e atividades de traição. Em fevereiro e março Bukharin, Rykov e lagoda haviam sido igualmente expulsos. Nunca antes haviam ocorrido tais expulsões por atacado do corpo dirigente do partido.

  • Inquestionavelmente, houve muitas outras coisas que nunca foram tornadas públicas. Mas estes eventos, particularmente a conspiração militar, pareciam constituir a mais grave ameaça à segurança — de fato, a existência contínua — da União Soviética desde os dias mais negros da Guerra Civil de 1917-1922.

  • Trotsky e seu filho Leon Sedov haviam sido acusados à revelia no primeiro Julgamento de Moscou em agosto de 1936[12]. No segundo Julgamento de Moscou de janeiro de 1937, Karl Radek havia explicitamente identificado Leon Trotsky como o líder de uma importante conspiração antissoviética. Ele havia especificamente mencionado a Espanha como um lugar onde os adeptos de Trotsky eram perigosos e pediu-lhes que se afastassem de Trotsky. Quando a revolta dos "Dias de Maio" em Barcelona eclodiu, em 3 de maio, o aviso de Radek pareceu presciente. Para os comunistas, mas também para muitos não comunistas que apoiavam a República Espanhola, esta rebelião na retaguarda da República parecia ser o mesmo tipo de coisa que os Direitistas, os trotskistas e as figuras militares estavam alegadamente conspirando para a URSS.

Telegrama de Trotsky para a liderança soviética

  • Na véspera da reunião de junho do Comitê Central, Trotsky decidiu enviar um telegrama de seu exílio mexicano não a Stalin ou o Politburo, mas ao Comitê Executivo Central, a mais alto órgão do governo soviético.

  • Nele, ele chamou diretamente seus membros a rejeitar a liderança de Stalin e voltar-se para ele:

[A POLÍTICA DE] STÁLIN ESTÁ LEVANDO A UM COMPLETO COLAPSO INTERNO BEM COMO EXTERNO, A SALVAÇÃO É SE VOLTAR PARA A DEMOCRACIA SOVIÉTICA COM REVISÃO ABERTA DOS ÚLTIMOS JULGAMENTOS PAREM COM ESSE CAMINHO OFEREÇO APOIO TOTAL -- TROTSKY.[13]

  • O que foi escrito depois da publicação original desse telegrama diz o seguinte:

Em junho de 1937 em Moscou, no endereço do Comitê Executivo Central (CEC), que era então formalmente o órgão máximo do poder do Estado na URSS, um telegrama chegou de L.D. Trotsky no México: [texto do telegrama]. É claro que este telegrama não terminou acima no CEC, mas no ministério da segurança, NKVD, de onde foi direcionada para Stalin como uma chamada que dizia: "comunicação especial". Ele escreveu sobre o telegrama a seguinte observação: "espião cara de pau, espião sem vergonha de Hitler"[14] não só Stalin assinou o seu nome sob sua "sentença", mas deu a V. Molotov, Voroshilov K., Mikoian A., e A. Jdanov para assinarem também.[15]

  • O falecido autor trotskista Vadim Rogovin parafraseou este mesmo artigo em uma nota de rodapé:

O telegrama de Trotsky acabou não no Comitê Central, mas no NKVD onde foi traduzido do Inglês (a única maneira do telégrafo mexicano poder aceitá-lo para o envio) e enviado a Stalin como um chamado "comunicação especial." Stálin leu o telegrama e escreveu nele uma observação que mostra que claramente ele perdeu seu autocontrole: “Espião cara de pau, espião sem vergonha de Hitler!”Sua assinatura abaixo dessas palavras foi completada com as assinaturas de Molotov, Voroshilov, Mikoian e Zhdanov, as quais expressam seu acordo com a avaliação de Stálin.[16]

  • O autor anônimo do artigo em Novoe Vremia (ver nota 10 acima) julgou a nota de Trotsky como um delírio da parte dele. “Como devemos entender a proposta de Trotsky? Ele poderia ter, possivelmente, suposto que eles aceitariam a sua ajuda? Ou que, em 1937, um retorno para a "democracia soviética" seria possível? Não se pode chamar isso de ironia, é mais parecido com uma ilusão. Como um número de estudiosos têm mostrado, uma "virada para a democracia soviética" era de fato um ponto em discussão em 1937.[17]

Piskun vs Rogovin

  • Em seu estudo crítico de 1997 a respeito de Trotky, Evgenii Piskun escreveu: Este documento estranho testemunha o fato de que o líder da Quarta Internacional esperava que a URSS ia sofrer alterações imensas no futuro próximo e que ele voltaria ao poder novamente. Mas, ele estava errado desta vez também. Quando a reunião de Junho do C.C. acabou, a liderança do Partido não tinha mudado.[18]

  • Rogovin concorda que Trotsky deve ter acreditado que ele tinha uma boa chance de chegar ao poder:

Trotsky não era uma pessoa dada a tomar medidas sem sentido ou impulsivas. Apesar do fato de que os motivos de seu apelo ainda hoje não estão evidentes, é natural assumir que Trotsky possuía informações que mostravam que a verdadeira devoção a Stalin da maioria dos líderes partidários e soviéticos estava em proporção inversa às suas exclamações oficiais desta devoção, e que a posição de Stalin era extremamente frágil e instável. Esta poderia ter sido a fonte das esperanças de Trotsky que, sob condições do Grande Terror que estava arrancando um membro após o outro das fileiras do partido, seria possível uma consolidação das principais figuras do país que teria como objetivo derrubar Stalin e sua turma.
  • Rogovin aceitou inquestionavelmente a posição ortodoxa de que Trotsky não estava envolvido em conspirações com os alemães. Mas, isto lhe apresentou um problema: como explicar o comentário manuscrito de Stalin sobre o telegrama de Trotsky? Até mesmo Rogovin teve que admitir que, como a nota era dirigida apenas a seus associados mais próximos e de maior confiança, parecia provar que Stalin e os demais acreditavam realmente que Trotsky era culpado de conspirar com os alemães.

  • Além disso, a tentativa de Rogovin de dar uma explicação é factualmente incorreta. Se o termo "Grande Terror" se refere a qualquer coisa, refere-se ao que é chamado em russo de “Ijovchacina”( Nota de tradução: o termo usado por Furr referido pelos soviéticos é Izhovshchina adaptamos para Ijovschacina por entender que o substantivo feminino chacina com prefixo do nome de Ezhov cabe como neologismo que definiria mais precisamente as repressões em massa exercidas por Iejov) ou "repressão em massa de Iejov", o período dos assassinatos ilegais em massa realizados pelo chefe da NKVD Nikolai I. Iejov sob o pretexto de combater a subversão. Estes só começaram após a reunião do Comitê Central de junho de 1937. Além disso, aspectos centrais do Ijovchacina permaneceram quase desconhecidos fora de um minúsculo círculo de líderes soviéticos por muitos anos.

  • Tudo o que Rogovin podia oferecer era a seguinte formulação, que nos leva ao âmago de nossa questão:

O documento, assim como muitos outros documentos do Politburo, e até mesmo a correspondência pessoal de seus membros, mostram que Stalin e seus mais próximos "camaradas de armas", expressavam-se em um código convencional, que foi projetado para dar a impressão de que eles acreditavam nos amálgamas que estavam criando. Caso contrário, Stalin, que não acreditava na existência de contatos entre Trotsky e Hitler, não teria escrito essas palavras em um documento que se destina apenas a seu círculo mais imediato (Rogovin, nota a p. 487, grifo adicionado por Grover Furr).
  • Agora possuímos evidências adicionais de que Stalin, de fato, acreditava que Trotsky tramava com os alemães. Rogovin não oferece nenhuma prova em contrário. Além disso, agora, também temos evidências de que Trotsky, assim como muitos outros, na verdade, estavam conspirando com a Alemanha e o Japão. A evidência sobre Trotsky é o tema deste artigo. O telegrama de Trotsky de 18 de junho de 1937[19] servirá como uma introdução, tanto para as novas provas que vieram à luz desde o fim da URSS e os problemas relativos a essas evidências, assim como as barreiras para entender o que isso significa.

  • Até onde sabemos, ninguém se preocupou em juntar todas essas evidências ou reexaminar à luz dessas novas evidências a questão dos laços de Leon Trotsky com o Japão e a Alemanha, laços alegados pelos réus nos Julgamentos de Moscou e pelo governo soviético. Por que isso acontece? Os dois comentários muito diferentes de Piskun e Rogovin sugerem uma resposta. Em vez de ser objeto de estudo cuidadoso com o objetivo de questionar conhecimentos anteriores, as novas evidências estão sendo reunidas em defesa de velhos paradigmas históricos.

  • O paradigma de Piskun — de que Trotsky foi, provavelmente, se preparando para algum tipo de golpe contra a liderança soviética — tem sido raramente ouvido durante muitos anos. No entanto, Piskun lê o telegrama de Trotsky através das "lentes" de seu velho paradigma, uma vez que o texto do telegrama nada sugere sobre qualquer expectativa de mudança iminente e retorno ao poder. O máximo que poderia ser dito é que o texto talvez seja compatível com tal expectativa. Mas, nós nunca poderíamos deduzir essa expectativa do texto propriamente dito. Uma sóbria leitura do telegrama de Trotsky pode depreender que ele é evidência de que Trotsky estava esperando por uma volta ao poder na URSS, mas nada mais.

  • A interpretação de Rogovin é ainda mais tensa... Segundo Rogovin Stalin não poderia ter acreditado que Trotsky era um espião alemão, apesar de (a) Estaline ter escrito isto no telegrama; (b) apenas seus associados mais próximos o veriam; e (c) Estaline se referiu a esta suposta espionagem de Trotsky em outras ocasiões. O paradigma de Rogovin exige que Estaline tenha inventado a acusação de que Trotsky estava colaborando com os alemães (e japoneses).

  • Nenhuma leitura objetiva do texto do telegrama de Trotsky e das observações de Stalin permitem chegar às conclusões a que Rogovin chega. Além disso, Rogovin não tem nenhuma evidência para apoiar a sua posição que Stalin inventou as acusaçõe então Rogovin deve manter que Stalin também deve estar fingindo aqui. s contra Trotsky. Ele simplesmente assume que estas sejam verdadeiras. Se esse paradigma deve ser preservado, então Rogovin deve sustentar que Stalin precisa estar fingindo aqui também.

  • Piskun e Rogovin representam polos opostos na interpretação tanto deste documento em si quanto em relação à questão da relação de Trotsky, ou a falta dela, com Japão e Alemanha. Mas, as acusações de colaborar com os serviços de inteligência das potências do Eixo principais foram alegadas não apenas contra Trotsky, mas também contra muitos dos réus no segundo e no terceiro Julgamentos de Moscou, de janeiro de 1937 a março de 1937. Em outros lugares, temos estabelecido uma pequena parte das evidências de que oposicionistas, de fato, ter algum tipo de clandestinos de relação política, visando a URSS, com a Alemanha e a Japão[20].

  • Há uma grande quantidade de provas desse tipo. O presente capítulo e os que se seguem concentram-se nas provas relativas especificamente a Trotsky.

  • Além disso, o fracasso em encontrar provas de que os oposicionistas tinham tal relação não significaria necessariamente que tal relação não existisse. De fato, no caso de uma conspiração profundamente clandestina, devemos esperar que as provas sejam raras e indiretas. E, é claro, temos fortes evidências de tal conspiração no testemunho de alguns dos réus do Julgamento de Moscou e dos conspiradores do "caso Tukhachevsky".

  • Devemos procurar evidência de que tal relação, mas não porque estejamos convencidos de que, a priori, essa relação deve ter existido, mas porque é, em princípio, impossível encontrar evidências negativas — por exemplo, de que tal relação não existia. Se não encontrarmos nenhuma evidência de que os oposicionistas tinham um relacionamento assim, então a única conclusão responsável a que se poderia chegar é que eles não tinham nenhuma relação com a Alemanha e o Japão — de novo, salvo prova em contrário, ou seja, uma hipótese que pode mudar no futuro. Este é um procedimento normal em qualquer histórico de investigação: apenas evidências positivas contam. Isso não significa, no entanto, que toda e qualquer “evidência positivas” aponta para uma única conclusão ou é suficiente para sustentar qualquer conclusão. O presente estudo faz concluir que as evidências agora à nossa disposição fortemente reforçam a existência de colaboração entre Trotsky e os alemães e japoneses.

  • Isso cria um problema peculiar para nós, como historiadores, ou seja, a partir de um artigo baseado em evidências — o presente artigo — pois então desafia-se diretamente o consenso em vigor nos Julgamentos de Moscou e, especificamente, sobre Trotsky.

O que está em jogo?

  • Este consenso que prevalece é parte integrante do modelo, ou paradigma, da História soviética que é dominante dentro da própria Rússia e além de suas fronteiras.

  • Trotsky e seu filho Sedov foram acusados de envolvimento com a Gestapo alemã nos Julgamentos de Moscou de 1936 e de envolvimento com os japoneses nos Julgamentos de Moscou em 1937 e 1938. Numerosas testemunhas em cada um desses ensaios atestaram que tinham conhecimento direto da colaboração de Trotsky (Sedov). Estas acusações constituem uma característica central dos julgamentos. Vamos examinar esse testemunho neste artigo.

  • A alegação de que essas acusações são falsas também constitui uma característica central do paradigma dominante da história soviética durante o período de Stalin. Confirmação da culpa de Nikolai Bukharin nos crimes a que ele confessou culpa já mina seriamente o que podemos brevemente o paradigma "anti-Stalin" paradigma da história soviética. A confirmação do envolvimento de Trotsky com os alemães e japoneses reforçam as evidências que já temos de que as acusações que os réus se confessaram culpados nos Julgamentos de Moscou eram verdadeiras.

  • Temos evidências de que Trotsky, de fato, colaborou com os alemães e japoneses. Isto é consistente com as acusações feitas contra Trotsky e seu filho nos Processos de Moscou. Não nos compete arriscar um palpite quanto ao que podem ser as implicações deste fato para o trotskismo em si. Na medida em que o trotskismo é um conjunto de princípios políticos que podem ser afastadas do político Trotsky, isso pode ter algumas implicações. As suas implicações podem ser mais de longo alcance para as variedades do trotskismo que se baseiam em um culto e devotam um grande respeito à figura humana de Trotsky, sendo então incapazes de separá-lo de suas ideias.

  • Trotskismo já sobreviveu à descoberta, no início dos anos 1980, de que Trotsky mentiu à Comissão Dewey. Como o artigo recente de Sven-Eric Holmström demonstra as mentiras de Trotsky a respeito do caso do “Hotel Bristol”, tanto à Comissão Dewey quanto em sua revista Boletim da Oposição, são mais abrangentes do que já tinha sido provado.

  • Levará algum tempo até que possamos discernir qual influência a pesquisa de Holmström terá sobre os seguidores de Trotsky. Em todo caso, é exclusivamente para eles, não para nós, que se deve observar no que essas implicações podem resultar.

O que se entende por “evidência”?

  • Esta frase chama nossa atenção sobre uma questão central: que tipo de evidência iremos aceitar? A menos que sejam estabelecidos critérios objetivos e que, em seguida sejam rigorosamente cumpridos, o pesquisador irá quase certamente "encontrar" o que seus preconceitos históricos, seu paradigma histórico, dizem para ele procurar. Ao fazer isso ele tende a ignorar ou a interpretar erroneamente qualquer coisa que não se encaixe em suas ideias preconcebidas. O que um pesquisador concorda em aceitar como provas e exclui como evidência, portanto, é muitas vezes um reflexo de seu paradigma histórico.

  • O problema da "evidência aceitável" é simplesmente ampliado no caso de uma acusação de conspiração secreta. Existem sérios problemas com qualquer tipo de provas:

  • • Confissões em juízo ou fora dele: elas podem ser fabricadas, por qualquer de um número de motivos, incluindo bajular o Ministério Público ou do Estado; como evidência de alguém que se “arrependeu”; jogar a culpa em outra pessoa, como resultado de tortura ou a ameaça de tortura, ameaças contra a família, e assim por diante.

  • • Incriminação por associados: estes (os acusados) são suscetíveis ao mesmo tipo de adulteração que sofrem as confissões do acusado acima relatadas.

  • • Prova documental: documentos podem ser falsificados. Qualquer Estado tem as habilidades técnicas para fabricar documentos que vão convencer todo mundo, exceto, possivelmente, alguns peritos científicos independentes que podem fazer uso de métodos de análise (que, em geral, podem ser danosos para o objeto em questão) para testar a composição química da tinta, a análise molecular de papel, etc, a fim de determinar se o documento é autêntico. Como este tipo de teste praticamente nunca é permitido no caso de documentos de arquivos considerados importantes, ótima falsificação é uma ferramenta poderosa.

  • Prova documental também pode ser destruída. Pesquisadores russos nos disseram que ao tempo de Kruschev houve um grande número de material - talvez chegassem a milhares de páginas - foram removidos dos arquivos durante a sua liderança na União Soviética[21]. Alguns documentos também foram removidos do "fechado" Arquivo Trotsky na Harvard University[22]. Nenhum arquivo é, ou pode ser, completamente seguro de tal manipulação. Isto será discutido em maiores detalhes abaixo.

  • Além disso, qual a probabilidade de que acordos de espionagem e conspiração terem sido escritos em primeiro lugar? Qualquer coisa escrita em algum momento teria certamente sido ocultada de forma segura ou, mais provavelmente, destruída assim que lida. Enquanto prova escrita, isso constituiu uma ameaça terrível para qualquer conspirador. Podemos ter certeza da existência de uma conspiração assim na história soviética - entre membros do comitê central (presidium) para se livrar de Lavrentii Beria - porque essa conspiração aconteceu em 26 de junho de 1953. No entanto, nenhum registro prévio da conspiração já veio à luz, e não existe nenhum único registro confiável de que ela existiu até hoje.

  • Estes são apenas exemplos. Em geral, não há nenhum tipo de evidência que não possa ser forjada ou falsificada. Também não há qualquer tipo de provas que possam, por si sós, fornecer provas conclusivas de qualquer ato.

  • Neste ensaio, vamos supor que, quanto maior o número de evidências individuais que são todas consistentes com uma interpretação única, menor é a chance que elas, e que a interpretação, sejam o resultado de algum tipo de "orquestração" ou fabricação de acordo com um plano preconcebido. Isto deve ser especialmente verdade no caso de documentos que nunca foram e não foram feitos para virem a público. Quando combinados com evidências de documentos que nunca foram diretamente relacionadas a qualquer processo, a probabilidade de fabricação se torna muito pequena, de fato. Isto é semelhante ao que é chamado de "provas circunstanciais" no sistema jurídico e legal. Quando há provas suficientes, a evidência circunstancial é a mais poderosa das evidências[23].

  • Tal é o caso, eu diria, do telegrama de Trotsky de 18 de junho de 1937. Como Rogovin reconhece, a coisa mais significativa sobre esse telegrama é o que Stalin escreveu sobre ele. Mas a conclusão de Rogovin carece de qualquer justificativa convincente. Somente alguém já convencido de que Trotsky era inocente da colaboração com a Alemanha poderia supor que Stalin não acreditava verdadeiramente em algo que ele escreveu para uma audiência de seus colaboradores mais próximos. "Tudo é possível" — talvez — mas o que é provável? Rogovin quer nos fazer acreditar que Stalin, Molotov, Mikoian e Jdanov estavam "fingindo" entre si que Trotsky estava trabalhando para os alemães, mesmo sabendo perfeitamente bem que foram eles próprios que inventaram essa história. Nenhuma evidência apoia essa conclusão.

  • Se as palavras deste telegrama fossem as únicas evidências que tínhamos que nos levassem a suspeitar que as acusações contra Trotsky não foram fabricadas — não por Stalin ou, pelo menos, que ele soubesse — elas ainda seriam altamente significativas. Stalin viu todos os materiais de investigação, incluindo enormes quantidades de provas que ainda hoje são classificadas na Rússia ou que foram destruídas. Além disso, não temos nenhuma evidência de que ele tenha conversado em "código" com seus associados. De fato, ainda não encontramos uma única instância na qual possamos descobrir provas de que Stalin mentiu, enquanto há muitos exemplos de que Trotsky mentiu deliberadamente em seus trabalhos e discursos publicados.[24]

"Fabricação" de confissões

  • Em discussões como estas, onde qualquer questionamento do paradigma dominante é vista com desconfiança e até mesmo horror, é difícil distinguir a apresentação da prova do ato de responder às objeções antecipadas para esta evidência que vem a partir desse mesmo paradigma. Portanto, a seguir vamos oferecer um resumo das refutações para as paradigmáticas objeções a algumas das provas que apresentamos. Os detalhes virão mais tarde.

  • A "visão canônica" ou "paradigma dominante" da história soviética é a de que todos os réus nos Julgamentos de Moscou eram inocentes das acusações que eles confessaram. Mas não há nenhuma "visão canônica" sobre como a falsificação dessas confissões pode ter sido realizada.

  • As transcrições dos três julgamentos de Moscou estão disponíveis desde a década de 1930. De acordo com o paradigma dominante da história soviética, essas transcrições são desonestas e as confissões dos réus gravadas neles são fabricações.

  • Mas o termo "fabricação" não tem qualquer significado fixo. Ninguém citou qualquer evidência alguma de que as confissões não eram verdadeiras, de modo que ninguém está em posição de dizer nada definitivo. As acusações contra os réus são simplesmente declaradas "absurdas" e conclui-se que os réus devem ter sido induzidos a mentir por alguns meios. "Fabricação" é uma palavra que é suficientemente ampla no seu significado para cobrir qualquer tipo de falsificação.

  • A alegação de que as confissões eram falsas, como qualquer outra afirmação de fato, podem e devem ser testadas à luz de todas as evidências disponíveis. Claro que isto é feito como uma questão de curso em casos criminais. Historiadores têm obrigação semelhante para verificar a veracidade das confissões como bem como de outras provas. Comprometemo-nos a cumprir esta responsabilidade na primeira parte de Trotsky,s 'Amálgamas'. No início, estávamos preparados para encontrar provas de que as confissões dos réus e/ou as outras provas contra eles eram falsas. Na verdade, descobrimos que o oposto é o caso. As provas agora disponíveis confirmam fortemente a verdade das confissões e outras evidências que citamos aqui.

A questão da tortura

  • Neste ensaio, é preciso dedicar atenção séria à hipótese de que os réus nos Julgamentos de Moscou e outros que direta ou indiretamente implicam Trotsky em colaboração com a Alemanha ou o Japão podem ter sido induzidos a fazer acusações falsas, de uma forma ou de outra. O mais preocupante é a alegação de tortura real ou ameaçada.

  • Especificamente, discute-se a hipótese de "tortura" em conexão com Zinoviev, Ezhov, Uritski e Iakovlev (veja abaixo). Examinarmos a crença do coronel Alksnis de que os réus do julgamento de Tukhachevsky não foram torturados. No final do ensaio dedicamos ainda outra seção do ensaio ao tema da tortura. Nós temos uma grande quantidade de evidências que os réus nos Julgamentos de Moscou não foram torturados ou ameaçados para fazerem falsas confissões.

  • Todas as interpretações dos testemunhos dos julgamentos, assim como todas as interpretações de qualquer prova, são hipóteses. Há a hipótese de que houve tortura. Como qualquer hipótese, a prova é necessária antes que se torne uma teoria razoável de explicação. Neste caso não há evidência.

  • Apresentamos os recursos ao Supremo Tribunal Soviético por quatro dos réus do primeiro Julgamento de Moscou, dois dos réus do segundo Julgamento de Moscou, e todos, exceto um, do terceiro Julgamento de Moscou, insistem que são culpados. Estes documentos nunca foram destinados a ser tornados públicos. Estes documentos nunca foram destinados a serem tornados públicos.

  • Radek declarou na frente do segundo Julgamento de Moscou (janeiro 1937) que não eram os investigadores que o atormentavam, mas ele que atormentou os investigadores. (1937 Trial 549)

  • Bukharin disse que "provas incriminatórias" (uliki) foram o que o levou a começar confessando depois três meses de silêncio. No texto sobre Bukharin, foi citada a conclusão de Steven Cohen de que Bukharin não foi torturado. Cohen é o maior especialista do mundo em Bukharin e continua a insistir em que ele era totalmente inocente, no entanto, admitindo que não há provas para apoiar essa conclusão. “Ao contrário de muitas outras vítimas da repressão, incluindo os comandantes do Exército Vermelho, parece que eles não usaram tortura física sobre ele na prisão”[25].

  • Não vemos motivo para repetir aqui o raciocínio de Cohen. Cohen é uma autoridade mundial sobre Bukharin e continua a insistir que ele era totalmente inocente, admitindo que não há provas que sustentem essa conclusão. Entretanto, é importante notar que nem Cohen nem ninguém jamais encontrou provas de que as confissões dos comandantes do Exército Vermelho foram obtidas através de tortura.

  • No início de 2006, uma confissão de Mikhail Frinovsky, o segundo no comando de Nikolai Ezhov na NKVD, foi publicada[26]. Nela, Frinovsky admitiu que Ezhov e seus co-conspiradores, inclusive ele próprio, tinham torturado e fabricado falsas acusações contra um grande número de pessoas. Mas, Frinovsky, disse explicitamente que a tortura não era feita no caso do Julgamento de Março de 1938 do "Bloco dos Direitistas e Trotskistas", ou seja, no julgamento de "Bukharin".

  • Na mesma confissão, Frinovsky também afirma explicitamente que Bukharin e todos os demais foram culpados, e que também ele e Ezhov faziam parte dessa conspiração de direita. Além disso, ele afirma que Bukharin sabia que Ezhov estava envolvido na conspiração e manteve-se quieto a respeito dele durante o julgamento, tendo guardado este segredo até sua morte. Frinovsky disse:

A preparação do julgamento de Rykov, Bukharin, Krestinski, Yagoda e outros

  • Participante ativo nas investigações em geral, Ezhov manteve-se distante da preparação deste julgamento. Antes do julgamento ocorreram os confrontos face a face dos suspeitos, interrogatórios e refinamento, nos quais Ezhov não participou. Ele falou por muito tempo com Jagoda, e essa conversa se referia, no essencial, a garantir a Iagoda que ele não seria baleado. Ezhov teve várias conversas com Bukharin e Rykov e também para acalmá-los garantiu que em nenhuma circunstância eles seriam baleados.

  • Ezhov teve uma conversa com Bulanov, e iniciou esta conversa na presença do investigador e eu mesmo, e terminamos a conversa um a um, tendo nos pedido para sair.

  • Naquele momento Bulanov havia começado a falar sobre o envenenamento de Ezhov. O que a conversa era sobre Ezhov não dizia. Quando ele nos pediu para entrar novamente, disse: "Comporte-se bem no julgamento — eu lhe pedirei que não seja baleado".

  • Após o julgamento Ezhov sempre expressou pesar por Bulanov. No momento das execuções, Ezhov sugeriu atirar primeiro em Bulanov e ele mesmo não entrou no prédio onde ocorreram os tiroteios. Aqui Ezhov foi inquestionavelmente governado pela necessidade de encobrir seus próprios laços com os líderes presos da Direita que estavam indo para o julgamento público.

  • Frinovskii não negou de forma alguma torturar e fabricar falsas confissões contra pessoas inocentes. Ao contrário, ele contrastou a maneira como Ezhov lidou com os réus do julgamento "Bukharin" com a maneira como lidou com um grande número de vítimas inocentes, que ele havia torturado por seus "quebradores de ossos" para que assinassem confissões redigidas pelos homens da NKVD de Ezhov.

  • Para resumir: Frinovskii confessou a tortura generalizada, mas (a) isentou especificamente os réus no julgamento de 1938; (b) declarou especificamente que Bukharin e os outros réus principais no julgamento eram, de fato, culpados; e (c) fez referência passageira aos réus principais — no primeiro julgamento de Moscou, no qual ele alega que eles também eram culpados. A confirmação de Frinovskii da culpa de Bukharin e outros corrobora todas as outras provas que temos a respeito de Bukharin.

  • Antes de sua publicação em 2006, a confissão de Frinovskii havia sido citada fraudulentamente por historiadores e pela própria Suprema Corte soviética, devidamente expurgada de modo que parecia provar a inocência, não a culpa, dos réus do julgamento de 1938. Isto foi feito da mesma forma que a citação desonesta de Shelepin da carta de Lakir, que examinamos brevemente acima.

  • Nenhuma hipótese vale nada, a menos que seja apoiada por evidências. Com relação aos Julgamentos de Moscou e ao caso Tukhachevsky, não há provas que apoiem a hipótese de "tortura", e uma grande quantidade de provas contra ela. Portanto, a hipótese de "tortura" deve cair.

Por que nenhum dos apoiadores de Trotsky nos Julgamentos de Moscou defendeu Trotsky?

  • Nenhum dos apoiadores de Trotsky de longa data e dedicados entre os réus do Julgamento de Moscou defendeu Trotsky ou suas ações em apoio a ele. Eles não só se declararam culpados de vários crimes, inclusive de trabalhar com Trotsky; a maioria deles se retratou de sua antiga fidelidade de longa data a ele (nem todos: Khristian Rakovsky, por exemplo, não o fizeram). Para antecipar uma objeção, pode-se perguntar: como isto pode ser explicado a não ser pela fabricação de falsos testemunhos ou algum outro meio?

  • Em um caso criminal, não devemos achar estranho que os co-conspiradores "caiam fora" e se denunciem uns aos outros, como fizeram os trotskistas de longa data durante seu testemunho nos julgamentos públicos de Moscou. Além disso, devemos também considerar o julgamento do ponto de vista do Ministério Público: o governo Stalin. Qual foi o objetivo de ter estes julgamentos públicos em primeiro lugar?

  • Como qualquer processo criminal, é claro, o julgamento foi para dissuadir outras atividades criminosas (neste caso, traição) e encorajar aqueles que suspeitavam de tal atividade a denunciá-la às autoridades.

  • Mas motivos maiores também estavam, sem dúvida, em jogo. Dada a conjuntura política de meados dos anos 30, parece seguro assumir que os julgamentos também visavam demonstrar ao mundo que essas conspirações de alto nível tinham sido cortadas pela raiz, que o governo soviético ainda estava no comando e que, portanto, a segurança soviética não foi afetada negativamente. Os soviéticos podem ter temido que, se a URSS fosse vista enfraquecida por graves conspirações no topo, alguma combinação de Estados inimigos os atacaria. Eles também temiam que as potências ocidentais, lideradas pela França e pelo Reino Unido, não concordassem com tratados de "segurança coletiva" de defesa mútua com a URSS contra a Alemanha nazista por causa da penetração alemã na liderança soviética, incluindo, especialmente, a liderança militar.

  • O fato de que estes temores eram bem fundamentados sugere que (a) o Japão de fato atacou a URSS — duas vezes, em 1938 e um ataque maior em 1939; e (b) os Aliados se recusaram a fazer quaisquer tratados de defesa mútua com a URSS. Ao contrário, eles continuaram a encorajar Hitler a atacar a URSS. O falecido Alvin D. Coox, o principal especialista em relações soviético-japonesa durante este período, concluiu que o ataque japonês à URSS no Lago Khasan em 1938 foi diretamente motivado pelo testemunho do General Genrikh Liushkov, que desertou para o Japão em julho de 1938 e informou que o Exército Vermelho estava seriamente enfraquecido[27].

Outras hipóteses possíveis para explicar a confissão de Bukharin

  • As confissões de Bukharin são importantes para nós, porque elas ilustram questões que envolvem denúncias de tortura e também porque Bukharin envolveu Trotsky explicitamente. Vamos discutir o seu testemunho sobre Trotsky no final do presente ensaio. Aqui estamos preocupados com a “questão da tortura”.

  • Em qualquer julgamento, há uma série de hipóteses para além da hipótese de tortura que podem ser responsáveis por uma falsa confissão de culpa do réu:

  • • A família do réu está ameaçada.

  • • O réu deseja "punir a si mesmo" para expiar erros passados.

  • • A explicação de "Rubachov", explicação que ficou famosa no livro de Arthur Koestler (O Zero e o Infinito) - que "o Partido exige," o partido é o instrumento da história e ela assim o exige, e assim por diante.

  • • Ao réu foi prometido tratamento privilegiado em troca de acusar falsamente os outros.

  • Em caso de Bukharin não há nenhuma evidência para apoiar qualquer dessas hipóteses. A principal razão pela qual os réus costumam confessar crimes de que são culpados é a sua crença de que a promotoria tem provas mais do que suficientes para condená-los do crime(s) em questão, tornando a negação inútil, ou mesmo contraproducente. Um réu decide a cooperar com o Ministério Público, na esperança de um tratamento mais leniente pelo tribunal – ou seja, de "fazer o melhor negócio que puder." Agora parece fora de dúvida que esta foi a razão para a confissão de culpa de Bukharin. No segundo Julgamento de Moscou, em janeiro de 1937, quatro réus - Radek, Sokol`nikov, Arnol`d e Stroilov - que parecem ter cooperado plenamente com a promotoria, foram condenados à prisão, em vez de execução. Dois destes, Grigory Sokol`nikov e Karl Radek, eram os principais réus. Este seria um forte incentivo mesmo para o réu que não tivesse esperança de cooperar. A declaração de Frinovsky agora confirma o testemunho do próprio Bukharin no julgamento. Bukharin mesmo disse que "a evidência" foi o principal fator motivador suas confissões, que começou com sua primeira, no dia 2 de junho de 1937. Frinovsky testemunhou que Ezhov prometeu a Bukharin e outros que eles não seriam fuzilados, desde que eles não revelassem o próprio envolvimento de Ezhov com a conspiração. Frinovsky não afirma que ele realmente ouviu Ezhov dizer isso. Mas afirma que Ezhov não organizou quaisquer confissões falsas neste julgamento. Frinovsky não afirmou que ele sabia que Bukharin era culpado. E, de fato Bukharin não mencionou em seu julgamento que Ezhov era um co-conspirador. Frinovsky também confirma que sabia que Bukharin era culpado. E de fato Bukharin não mencionou que Ezhov era também um conspirador em seu julgamento. Ezhov sabia que Bukharin era culpado. Isto confirma uma grande quantidade de outras evidências que agora possuímos, incluindo algumas confissões de Yagoda publicadas pela primeira vez em 1997.

  • No final deste ensaio, voltamos à questão da tortura de uma forma diferente: considerar as alegações de tortura e como elas têm funcionado na historiografia e na mitologia do papel de Trotsky, os processos de Moscou, e a história do período de Stalin em geral.

Por que nenhum dos réus nos processos de Moscou defendeu Trotsky?

  • Nenhum dos dedicados apoiadores de longa data de Trotsky não deram apoio a ele nos Julgamentos de Moscou. Trotsky defendeu réus ou suas ações em apoio a ele. Eles não só declararam-se culpados de vários crimes, incluindo o trabalho com Trotsky, como eles se retrataram sua fidelidade de data a ele e condenou-o em termos duros. Pode-se perguntar: como é que isso pode ser explicado de outra que não falso testemunho arrancado em tortura ou de outros meios.

  • Em um caso criminal, não devemos achar estranho se co-conspiradores "cair fora" e denunciar uns aos outros, como os trotsquistas de longa data fizeram durante seu depoimento ao público nos Julgamentos de Moscou. Além disso, devemos considerar também o julgamento do ponto de vista da acusação, o governo de Stalin. Em primeiro, qual foi o propósito deles com esses “julgamentos encenados”?

  • Como qualquer processo criminal, é claro, o julgamento foi deter futuros crimes (e neste caso, a atividade de traição) e incentivar aqueles que suspeitavam de tal atividade para relatar às autoridades. Mas existiam motivos maiores, sem dúvida, em jogo também.

  • Os soviéticos tiveram muito medo de que, se a URSS fosse enfraquecida por conspirações graves nos altos escalões, uma combinação de Estados inimigos ia atacá-los. Eles também temiam que as potências ocidentais, liderados por França e Reino Unido, não concordassem com a "segurança coletiva", ou seja, os tratados de defesa mútua com a URSS contra a Alemanha nazista. Dada a conjuntura política de meados dos anos 1930 parece seguro assumir que os julgamentos foram também teve como objetivo demonstrar ao mundo que essas conspirações de alto nível conspirações haviam sido cortadas pela raiz, que o governo soviético ainda estava no comando, e que, portanto, a segurança soviética não tinha sido prejudicada.

  • Que esses temores foram bem fundamentados é sugerido pelo fato de que (a) fez o Japão realmente atacou a URSS - duas vezes, em 1938 e um grande assalto em 1939, e (b) os Aliados se recuaram a fazer quaisquer tratados de defesa mútua com a URSS. Em vez disso, eles continuaram a empurrar Hitler para atacar a URSS. O falecido Alvin D. Coox, o maior especialista em relações entre a URSS e o Japão durante este tempo, concluiu que o ataque japonês a URSS no lago de Khazan em 1938 foi diretamente motivado pelo testemunho do general Genrikh Liushkov, que desertou para o Japão em julho de 1938 e informou que o Exército Vermelho estava seriamente enfraquecido.22

  • Se assumirmos que este era o propósito dos "Julgamentos Encenados” é lógico que os réus iriam tentar atacar Trotsky e dizer que eles estavam errados, a URSS estava certa, e assim por diante

Por que não existe evidência alemã ou japonesa da colaboração de Trotsky?

A maioria dos teóricos da conspiração não entendem isso. Mas se houvesse realmente um enredo como os da CIA, nenhum documento existiria” (SHANE, 2009).[28]
Instruções sobre questões concretas relativas à organização e preparação para condições subterrâneas devem ser dadas apenas verbalmente. No mínimo, deve ter sido especificado que esses nomes e endereços deveriam ser dados estritamente por via oral.[29]
  • No decorrer deste ensaio vamos mostrar que existe uma grande quantidade de evidências de colaboração de Trotsky com os alemães e japoneses a partir do lado soviético. Algumas mostram a colaboração da oposição soviética com os alemães e japoneses, incluindo alguns que até mesmo dizem ter trabalhado com Trotsky.

  • Além disso, temos uma prova importante de colaboração de membros da oposição soviética, incluindo alguns dos quais alegaram terem trabalhado com Trotsky.

  • Mas nenhuma evidência de colaboração alemã ou japonesa com Trotsky foi descoberta fora da ex-URSS. Há uma série de possíveis explicações:

  • Trotsky nunca colaborou com os alemães ou japoneses. Todas as evidências soviéticas são fabricadas. Se Trotsky colaborou existem as seguintes possibilidades:

  • Muitos desses arquivos foram destruídos durante a guerra.

  • Ninguém parece ter pesquisado — pelo menos, não estamos cientes que ninguém tenha feito isso e particularmente nos trabalhos inéditos dos generais alemães supostamente envolvidos.

  • Estes arquivos também poderiam ter sido "expurgados".

  • Nunca houve uma prova desta colaboração que tenha sido arquivada pelos próprios colaboradores.

  • Na verdade, informações conspiratórias deste tipo normalmente não são escritas. Sabemos que os arquivos soviéticos foram purgados por Khrushchev, e talvez por outros. Apesar de nossa limitada experiência trabalhando com outros arquivos, sabemos de dois casos em que os materiais de arquivo "desapareceram". Além disso, a maioria dos arquivos soviéticos não estão abertos a pesquisadores. Dada a evidência que descobrimos nos relativamente poucos documentos de arquivos que foram publicados até hoje, parece provável que outras evidências implicando Trotsky possam estar contidas em arquivos que ainda são classificados. Mais tarde neste ensaio, discutimos brevemente a "purga" do arquivo Trotsky em Harvard de materiais incriminatórios.

  • Nos países em que esses arquivos ainda existem, é normal manter arquivos secretos de inteligência indefinidamente. Este é certamente o caso nos EUA. Sugerimos que é lógico suspeitar que a mesma coisa existe no caso do Japão e da Alemanha.

  • Há muitas evidências de que os comandantes militares liderados pelo Marechal Mikhail Tukhachevsky colaboraram de fato com o Estado-Maior General alemão e com os japoneses. Temos confirmação indireta disso a partir de um arquivo alemão e mais direta em um documento dos Arquivos Tchecos. Discutimos esta evidência com mais detalhes na obra “Trotsky Amálgams".

  • Ao discutir sua espionagem para a Alemanha, vários réus soviéticos disseram ter lidado diretamente com o general alemão Kurt von Hammerstein-Equord. Os rumores, pelo menos, desta colaboração, evidentemente sobreviveram na família Hammerstein. Embora, a nosso ver, não exista nenhum registro escrito dessa colaboração, parece que ninguém realmente procurou tais registros[30]. Nem ninguém jamais se comprometeu a pesquisar os documentos sobreviventes dos generais alemães supostamente envolvidos.

  • Mas a ausência de evidência é apenas "evidência de ausência", quando provas estão de fato estar presentes. Acreditamos que a razão mais provável é que simplesmente ninguém deve esperar que evidências de uma conspiração estejam documentadas em qualquer lugar, muito menos em arquivos. As exigências de sigilo e de segurança exigem que essas informações sejam trocadas apenas de boca em boca.

  • A falta de arquivamento ou de fato de qualquer evidência documental da conspiração bem sucedida contra Lavrentii Beria já foi citada. Esta conspiração deve ter envolvido pelo menos meia dúzia de homens. Os relatos de seus participantes não concordam em detalhes, exceto nisto: tudo foi planejado e realizado através de comunicação oral. Não há menção a qualquer comunicação escrita. O que existe nos arquivos é o esboço de um discurso a ser proferido por Malenkov na reunião do Presidium de 26 de junho de 1953. Foi nessa reunião, sabemos, que Beria foi preso ou morto. Malenkov foi, certamente, parte do que quer que tenha ocorrido. Contudo, de acordo com o esboço do discurso de Malenkov, Beria deveria ser removido como chefe do MVD (Ministério de Assuntos Internos, incluindo a força policial interna) e nomeado Ministro da Indústria Petrolífera[31].

A alegada falta de provas não soviéticas

  • Os arquivos de Trotsky em Harvard foram purgados de provas de que os partidários de Trotsky com acesso privilegiado a este outro arquivo fechado acharam embaraçoso para a reputação de Trotsky, como demonstramos na "Amálgamas" de Trotsky. Os materiais purgados incluíam, no mínimo, outras evidências sobre a existência do "Bloco de Direitos e Trotsky" e a correspondência de Trotsky com apoiadores dentro da URSS.Como Sven-Eric Holmström discute e como nós também devemos discutir mais detalhadamente a seguir, os arquivos Trotsky em Harvard foram expurgados de provas que colocassem em risco sua reputação. Os materiais removidos incluíam, pelo menos, indícios adicionais sobre a existência do "bloco dos direitistas e trotskistas" e correspondência de Trotsky com apoiadores dentro da URSS.

  • O falecido Pierre Broue, em sua época o maior historiador trotskista do mundo e uma pessoa que gozava do respeito generalizado dos estudiosos anticomunistas, concluiu que esta evidência pouco significava, já que só demonstrou a existência de um bloco em 1932. Broue assumiu que, porque a única evidência que não foi purgada com sucesso do arquivo era de 1932, deve ter sido a única vez que o bloco existiu. Isto é, Broue assumiu erroneamente em seu artigo que não havia nenhum bloco depois de 1932 porque não há provas no arquivo de Trotsky para o bloco depois de 1932.

  • Esta é uma suposição inválida. Ela ignora o fato de que o arquivo foi purgado. Se aqueles que purgaram o arquivo de Trotsky tivessem feito um trabalho ainda mais minucioso, não teríamos nem mesmo esta evidência. No entanto, isso não implicaria de forma alguma que nenhuma evidência do bloco jamais existisse. Muito menos implicaria que o próprio bloco nunca existiu. Falta de evidência' — neste caso, da existência do bloco após 1932 — "não é prova de falta" de que tais provas nunca existiram. Não é válido supor, como Broué fez, que o "bloco" só existia em 1932, porque a única evidência que temos para a sua existência data a partir de 1932. Havia aqueles documentos que foram "expurgados" do arquivo

  • Se aqueles que expurgaram o arquivo de documentos incriminatórios de Harvard Trotsky tivessem sido mais minuciosos, eles também teriam levado os recibos de correio certificados das cartas de Trotsky aos opositores na URSS e as notas de Trotsky e van Heijenoort sobre o "bloco de direitos e trotskyites". Então, o que teríamos agora? Teríamos o documento de "reabilitação" da era Gorbachev negando que já existiu um tal "bloco", e a negação categórica de Trotsky de que já existiu um tal "bloco". Além disso, teríamos a insistência do procurador soviético, Vyshinskii, e as confissões de vários réus do Julgamento de Moscou, de que de fato havia tal "bloco".

  • A descoberta de Getty no arquivo de Trotsky corrobora o testemunho dos réus do julgamento de Moscou. É uma prova de que eles não mentiram, pois nos poucos casos em que podemos obter provas independentes — como aqui — essas provas apoiam as confissões dos réus do julgamento. Da mesma forma, corrobora as declarações do Procurador, ou seja, de "Stalin", na linguagem redutora dos escritores anticomunistas. O testemunho dos réus do julgamento e do promotor soviético sobre o bloco e a correspondência de Trotsky revela-se verdadeiro, enquanto o testemunho de Trotsky e o do governo soviético da era Gorbachev é falso.

  • No entanto, isto não é uma prova direta de qualquer colaboração de Trotsky com a Alemanha ou o Japão. Mas, é consistente com tais alegações, já que corrobora o depoimento das mesmas testemunhas sobre um assunto relacionado. Trotsky negou colaborar com representantes do Eixo, assim como negou a existência do bloco e o contato com seus partidários soviéticos.

  • Portanto, a falta de provas no arquivo de Trotsky de qualquer contato com o Eixo não é indício de que tais provas nunca estiveram presentes.

  • Temos um pouco de evidência não soviética de tal colaboração. Em fevereiro de 1937, o Ministro da Guerra japonês, General Hajime Sugiyama, revelou em uma reunião que o Japão estava em contato com os oposicionistas dentro da URSS que estavam fornecendo inteligência militar aos japoneses[32]. Sugiyama, teria revelado em uma reunião que o Japão estava em contato com oposicionistas dentro da URSS, oposicionistas estes que estavam fornecendo informações às forças japonesas de espionagem e inteligência.

  • Outros exemplos de evidências não-soviéticas atestam a existência real das conspirações alegadas pelo governo de Stalin. Há o "telegrama Arao", comentado em pelo menos em 1962-63, embora não tenha mais sido mencionado desde então. Temos o testemunho direto do embaixador alemão na Tchecoslováquia, dizendo que Hitler sabia que militares de alta patente figuras na URSS estavam preparando um golpe de Estado. Este documento, nos arquivos nacionais da República Tcheca, foi descoberto somente em 1987. Este documento é confirmado por correspondência encontrada em arquivos alemães capturados e foi divulgado em 1974, mas não reconhecido até 1988[33](ver a seção sobre a nota de Mastny-Benes em "Amálgamas" de Trotsky).

  • O funcionário da NKVD Genrikh S. Liushkov desertou para o lado dos japoneses em 13 de junho 1938. Numa conferência de imprensa elaborada pelos japoneses, ele alegou que as supostas conspirações na URSS foram falsificadas. Mas, em particular, Liushkov disse que os japoneses estavam convencidos de que aconteceram conspirações reais, incluindo a conspiração militar. Ele também confirmou que os conspiradores existiam e que estavam ligados com o grupo de Tukhachevsky através de Gamarnik. Liushkov confirmou que os conspiradores queriam unir forças aos japoneses para infligir uma derrota às forças armadas soviéticas, e que alguns deles tinham conspirando diretamente com os militares japoneses (Coox).

  • Em 13 de junho de 1938, o General da NKVD Genrikh S. Liushkov desertou para os japoneses. Em uma entrevista coletiva preparada pelos japoneses, ele alegou que as supostas conspirações na URSS eram falsas. Mas Liushkov, em particular, disse aos japoneses que Stalin estava convencido de que havia verdadeiras conspirações, incluindo a conspiração militar.

  • Ele também confirmou que os conspiradores estavam ligados ao grupo Tukhachevsky através da Gamarnik. Liushkov confirmou que os conspiradores queriam unir forças com os japoneses para infligir derrota aos militares soviéticos, e que alguns deles haviam conspirado diretamente com os militares japoneses. Discutimos o testemunho de Liushkov na "Amálgamas" de Trotsky e no Capítulo 17 de O assassinato de Sergei Kirov.

  • Portanto, mesmo que não tivéssemos provas não soviéticas de colaboração entre oposicionistas soviéticos e representantes do Eixo, isso não significaria que tais provas jamais existiriam. Muito menos significaria que não houve tal colaboração, pois tal aliança poderia muito bem não deixar nenhuma evidência. Entretanto, apesar das frequentes alegações em contrário, possuímos evidências das conspirações antissoviéticas que não poderiam ter sido fabricadas pelos soviéticos.

Evidência Soviética

  • Nenhum pesquisador hoje, não importa o quão antissoviético ele seja, descarta evidências soviéticas apenas porque têm essa origem. Evidências de arquivos soviéticos são rotineiramente consideradas válidas. Por exemplo, mais adiante neste ensaio examinamos o testemunho do predecessor imediato de Nikolai Yezhov como chefe da NKVD, Genrikh Yagoda, réu no julgamento de Moscou de 1938, mostrando que o depoimento é citado sem problemas como verdadeiro por muitos dos estudiosos extremamente anticomunistas. Vamos examinar o testemunho de Yagoda abaixo que Inclui depoimentos sobre Trotsky. Trabalho que realizei em colaboração com meu colega Vladimir L. Bobrov, o autor publicou e analisou a primeira confissão de Bukharin de 2 de junho de 1937. (Furr & Bobrov) Este documento ainda é altamente secreto na Rússia. Nele, Bukharin implica diretamente Trotsky.


As citações longas

  • Grande parte dos capítulos seguintes consiste de citações diretas de fontes primárias. Entendemos que isto aumenta a extensão destes capítulos. Entretanto, em um estudo como este, não podemos passar sem estas citações. As fontes primárias constituem a base probatória para a análise e as conclusões. Algumas citações são de fontes muito difíceis de obter, como as versões em inglês das transcrições do Julgamento de Moscou. Alguns deles são documentos indisponíveis em inglês. A carta do Marechal Budennyi para o Marechal Voroshilov é um documento presente em arquivo que nunca foi publicado em qualquer língua e seu conteúdo é totalmente novo do mundo acadêmico[34].

  • Na era da Internet não há nenhuma razão para que qualquer estudioso deve sempre citar arquivos ou de difícil obtenção de materiais sem torná-los disponíveis para o leitor. Nós poderíamos ter colocado as citações das fontes primárias em um arquivo separado e inserido hiperlinques quando apropriado, e isso foi pensado. Fazê-lo, porém, forçaria o leitor a ignorar as evidências e clicar ou deixar para trás o documento e sua análise. Temíamos que tal procedimento seria uma distração para um leitor atento e assim decidimos contra ela, uma decisão a respeito da qual os editores da revista Cultural Logic estiveram de acordo.

  • Exortamos o leitor a estudar cuidadosamente as citações das fontes primárias. Como qualquer obra de erudição, este livro se mantém ou cai sobre as evidências e sua análise.

  • Neste livro, todas as ênfases ousadas são de minha autoria, a menos que seja observado o contrário.

  • Coloquei os documentos centrais discutidos neste livro online tanto no original russo como na tradução para o inglês. Veja a URL citada no início da Bibliografia.

[1] Esses julgamentos chamados “julgamentos encenados”, muitas vezes são identificados pelos nomes dos principais réus. O julgamento de 19-24 é comumente chamado “julgamento de Kamenev e Zinoviev”; o de janeiro de 23-30, 1937, é de Piatakov-Radek; o de março de 2-13, 1938 é o “Bukharin-Rykov”. Os nomes oficiais desses julgamentos são os seguintes: agosto de 1936; “O Caso do Centro Zinovievistatrotquista”; janeiro de 1937; “O Caso do centro antissoviético e trotsquista”; março de 38: “o caso do bloco antissoviético dos direitistas e trotskistas”. [2] Leon Sedov morreu em 16 de fevereiro de 1938, pouco antes do Terceiro Julgamento de Moscou. Ele continuou a figurar de forma proeminente nas confissões de alguns dos réus, assim como seu pai. [3] Comissariado Popular ( = Ministério) de Assuntos Internos, que incluía funções de segurança nacional e de polícia política. [4] O Politburo do Comitê Central do Partido foi rebatizado como Presidium em 1952, e novamente renomeado Politburo em 1966. [5] Vsesoiuznoe soveshchanie o merakh u/uchshenia pod9otovki nauchno-pedagogichesikh kadrov po istoricheskim naukam.18-21dekabria1962 g. M: Izdatel'stvo "Nauka", 1964, 298. [6] O cabeça da KGB (comitê de segurança do estado), o sucessor da NKVD para as funções da segurança e da polícia política. [7] 7 As observações de Shelepin, aqui em negrito, são de seu discurso no 22º Congresso do Partido do CPSU, Pravda, 27 de outubro de 1961, p. 10, cols. 3-4.XX/J S "ezd Kommunisticheskoi Partii Sovetskogo Soiuza. 17-31 oktiabria 1961 goda. Stenograficheskii Otchet (Moscou, 1962). II, 403. As partes Shelepin omitidas, aqui em itálico, são do documento original. Meus agradecimentos ao meu colega Vladimir L. Bobrov, que obteve uma imagem do mesmo para mim. Uma versão contendo um pouco da confissão de culpa de Lakir, mas ainda omitindo grande parte do texto completo está no "Spravka" do Relatório Shvernik de 1963-4 publicado pela primeira vez em Voenno-lstoricheskii Arkhiv 1 (1993), p. 194, agora normalmente citado do volume Reabilitatsia. Kak Eto Bylo [''Rehabilitation. How It Happened"] vol. 2 (2003), p. 688. [8] Stephen Jay Gould. Dinossauro no Palheiro. Natural History 101. (Março de 1992): 2-13. Online at http://www.stephenjaygould.org/library/gould_dinossaurs-haystack.html. and <http://www.sjarchive.orglibrary/text/b160393.htm [9] Letter 3257 –Darwin, C. R., to Fawcett, Henry. 18 sept [1861]. At http://www.darwinproject.ac.ukentry3257. [10] Grover Furr e Vladimir L. Bobrov, "Primeira Declaração de Confissão de Nikolai Bukharin no Lubianka" Lógica Cultural 2007. Em http://clogic.eserver.org/2007 /Furr_Bobrov.pdf. Este artigo foi publicado pela primeira vez na revista histórica russa Kilo (São Petersburgo) 1 (3 6), 2005, 38-52. Eu coloquei a versão russa online em: http://msuweb.montclair.edu/-furrg/research/furrnbobrov_bukharin_klio07.pdf (Furr & Bobrov) [11] Lubianka. Stalin i Glavnoe Upravlenie Gosbezopasnosti NKVD. 1937-1938 (M.: "Materik, "2004), No. 102, p. 225. Online at http://istmat.info/node/31227 and at http://www.alexanderyakovlev.org/ fond/issues-doc/ 610 84 [12] Eles foram acusados de "ter preparado e dirigido pessoalmente a organização na URSS de atos terroristas contra os líderes da C.P.S.U. e do Estado Soviético". Relatório de Processos Judiciais. O caso do Centro TerroristUtilizamos o texto original em inglês do telegrama de um fac-símile do próprio telegrama no Arquivo Volkogonov, Biblioteca do Congresso, Washington DC. Nesta época, os telegramas internatlonais eram normalmente enviados em inglês; Trotsky o enviou do México. Os comentários de Stalin e seus associados não se referem ao telegrama em si, mas à tradução russa fornecida a eles junto com ele. O telegrama foi evidentemente publicado pela primeira vez em Novoye Vremia N2 50 (1994) C. 37. Colocamos este fac-símile e a tradução para o russo com as observações de Stalin e seus associados na Internet. http://msuweb.montclair.edu/-furr /research/trotsky _telegramO 6183 7. pdfa Trotskyite-Zinovievite. Moscou: Comissariado Popular de Justiça da URSS., 1936, p. 180. [13] Utilizamos o texto original em inglês do telegrama de um fac-símile do próprio telegrama no Arquivo Volkogonov, Biblioteca do Congresso, Washington DC. Nesta época, os telegramas internatlonais eram normalmente enviados em inglês; Trotsky o enviou do México. Os comentários de Stalin e seus associados não se referem ao telegrama em si, mas à tradução russa fornecida a eles junto com ele. O telegrama foi evidentemente publicado pela primeira vez em Novoye Vremia N2 50 (1994) C. 37. Colocamos este fac-símile e a tradução russa com as observações de Stalin e seus associados na internet em: http://msuweb.montclair.edu/-furr /research/trotsky _telegramO 6183 7. pdf [14] Shpionskaia rozha, literalmente “cara de espião”. Rogovin traduziu isso como “mug of spy”. [15] L. B. “Não existem mais segredos do Kremlin? Novoe Vremia No. 50, 1994, 37. [16] Vadim Rogovin. 1937. O ano de terror de Stálin. Traduzido por Frederick S. Choate. Oak Park MI: Mehring Books, 1998, p. 487, Capítulo 50. A reunião de julho no Comitê Central. [17] Para sumarizar o que existe a respeito em inglês, vejam Grover Furr: “Stalin e a luta pela reforma democrática”. Parte um e parte dois, Cultural Logic, 2005. Em <<http://elogic.eserver.org/2005.html.>> [18] Evgenii E. Piskun. Termador v. SSSR, Trotskogo í sovetskaia deistivitel´ nost 1920-1980. Riazan. Russkoe Slovo, 1997, p. 73. [19] O telegrama original parece estar datado de 18 de junho, como aquela data, “18 de junho de 1937” é colocado como estampado no final da última página. Isso parece ser a data que o telegrama foi mandado. “06 20 1937” foi escrito em letra pequena no alto da primeira página do telegrama. Talvez seja a data em que foi recebido e traduzido. A nota de Stálin, com as assinaturas de Molotov, Voroshilov, Mikoian e Zdanov aparece na tradução do telegrama, data através da qual o telegrama foi arquivado. Pode-se dizer que a data dessa tradução, no alto do canto esquerdo, não é legível, mas provavelmente é 29 de junho. [20] Grover Furr e Vladimir L. Dobrov, “Primeiro apontamento da confissão de Nikolai Bukharin na Lubianka”. Cultural Logic 2007. Está publicado em http://clogic.eserver.org/2007/Furr_Dobrov.pdf. Esta é a traduçaõ inglesa de um artigo e texto primeiramente publicado em russo no jornal de São Petersburgo Klio, número 36 (março de 2007). [21] E.g. M. lunge, R. Binner. Kak terror stal "Bol'shfm." Sekretnyi prlkaz No.004471 tekhnologiia ego ispolneniia. Moscow: AIRO-XX, 2003, 16. [22] Discutimos essa questão em Trotsky’s “Amalgans”. [23] Discutido em: Trotsky's 'Amalgams~ [24] "As provas circunstanciais podem ser, e muitas vezes são muito mais poderosas do que as provas diretas". - Robert Precht, advogado de defesa do atentado a bomba no World Trade Center e diretor do Escritório de Serviço Público da Faculdade de Direito da Universidade de Michigan, citado em: http://www.pub.umich.edu/daily /1997 /jun/06-04-97 /news/news3.html. [25] Stephen Cohen (Koen), "Bukharin na Lubianke." Svobodnaia Mysl' 21, No.3 (2003), 58-63, at 60-61. [26] "Spetssoobshchenie L.P. Berii l.V. Stalinu s Prilozheniem Zaiavleniia M.P. Frinovskogo. 13 aprelia 1939 g. In Lubianka. Stalin i NKVD-NKGB-GUKR "Smersh" 1939 - mart 1946. Eds. V.N. Khaustov, V.P. Naumov, N.S. Plotnika. Moscow: "Materik," 2006. No. 33, pp. 33-50. I have put the original text online at http:/ /msuweb.montclair.edu/-furrg/research/Frinovskiiru.html and an English translation (mine) at http://msuweb.montclair.edu/-furrg/research/Frinovskiieng.html. [27] Coox1, 92; Coox 2, 145. [28] Gerald Posner, "author of an anti-conspiracy account of the Kennedy assassination, on efforts to obtain C.l.A. documents relating to the assassin." [29] 0. Weber. "How Not to Prepare For Underground Conditions of Revolutionary Work." The Communist International. July 1, 1932, 417. 30] Hans Magnus Enzensberger. Hammerstein oder der Eigensinn. Eine deutsche Geschichte. Berlin: Suhrkamp, 2008, pp. 234; 213-215. [31] O fragmento do discurso de Malenkov sobre Beria está em Laurentii Beria, 1953. Stenogramma iiul´ skogo plenuma TsK KPSS i drugie dokumenty. D. V Naumov, IV. Sigachev. Moscou: MDF, 199, pp. 69-90. [32] "Soviético liga Tóquio ao 'Trotskismo'". New York Times, 2 de março de 1937, p. 5. Meus agradecimentos a Sven-Eric Holmstrom, que obteve e compartilhou comigo uma cópia do artigo original do jornal japonês Miyako Simbun de 20 de fevereiro de 1937. [33] See Vladimir L. Bobrov and Grover Furr,, "Marshal S.M. Budennyi's on the Tukhachevsky Trial. Impressions of an Eye-Witness." (in Russian). Klio (St. Petersburg) No. 2 (2012), pp. 8-24 [34] See Vladimir L. Bobrov and Grover Furr,, "Marshal S.M. Budennyi's on the Tukhachevsky Trial. Impressions of an Eye-Witness." (in Russian). Klio (St. Petersburg) No. 2 (2012), pp. 8-24.

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