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  • Klaus Scarmeloto

Holodomor: a substituição da história por mitos parte 2

Atualizado: 1 de Dez de 2021


Para melhor continuar a combater essa mentira histórica e, também, divulgar nosso atual projeto: a publicação de Fraude, Fome e Fascismo de Douglas Tottle (https://www.catarse.me/fascismo pedimos intensamente o apoio a este projeto) trazemos ao público brasileiro mais referências bibliográficas de renomados historiadores que desmontam a farsa com farta documentação.


Na primeira parte deste texto, abordou-se, brevemente, as razões que nos permitem dizer que o governo soviético jamais realizou um genocídio contra o povo ucraniano.


Retratou-se, sem esgotar a questão, o que havia de mais importante na historiografia e na sovietologia moderna acerca da questão da fome de 1932 e 1933.


Pouco se falou, no entanto, dos desastres naturais, pincelou-se apenas algumas menções aos desastres naturais para fins de demonstrar como o debate não é homogêneo entre as escolas historiográficas na sovietologia, mesmo entre os defensores da chamada escola “revisionista” do qual aqui chamamos de “antitotalitária”. Para muitos autores desta escola, as questões ambientais ou biológicas, são pouco consideradas a ponto de por vezes dar-se mais atenção aos problemas humanos. É por isso que destacamos as referências abaixo para melhor situar este problema.


Tauger afirmou como, já se averiguou, que mesmo a cessação total das exportações não teria revertido os problemas que vieram a tomar o Estado soviético. Tauger, Mark. “The 1932 Harvest and the Famine of 1933,” Slavic Review, Volume 50, Issue 1 (Spring, 1991), 70-89. Na segunda parte deste texto, trazemos mais evidências e mais complementos a essa discussão de suma importância para o Estudo da URSS.


O Conflito Entre Conquest e Tauger

O que não se analisou ainda é que houve um debate franco entre Conquest e Tauger, do qual se faz importante reproduzir.


Conquest responde as obras de Tauger:


Talvez eu possa acrescentar que minhas próprias análises e descrições do terror-fome apareceram pela primeira vez na URSS em Moscou em jornais russos como Voprosy Istorii e Novyi Mir, e que o longo capítulo impresso neste último era especificamente sobre a fome na Ucrânia e, portanto, dependeu significativamente de fontes ucranianas.


Tauger retruca Conquest:


O Sr. Conquest não trata desses argumentos. Ele quase se aproxima em sua afirmação de que na Ucrânia e em algumas outras áreas "toda a safra foi removida". Uma vez que o regime adquiriu 4,7 milhões de toneladas de grãos da Ucrânia em 1932, muito menos do que em qualquer ano anterior ou subsequente na década de 1930, isso implicaria que a colheita na Ucrânia foi apenas dessa ordem de magnitude ou ainda menos do que minha estimativa baixa! Obviamente, este não poderia ter sido o caso, ou o número de mortos na Ucrânia não teria sido de quatro ou cinco milhões, mas mais de 20 milhões, porque toda a população rural teria ficado sem grãos….
Ainda estou para ver qualquer diretiva central real ordenando o bloqueio da Ucrânia ou o confisco de alimentos na fronteira. As fontes disponíveis ainda são muito incompletas para se chegar a qualquer conclusão sobre isso.

Tauger, Mark e Robert Conquest. Slavic Review, Volume 51, Issue 1 (Spring, 1992), pp. 192-194.


É notável que Tauger é um excelente pesquisador e com intenções honestas sobre a Ucrânia e sobre a URSS. No entanto, os dados sobre a fome que ele nos transmite são diferentes dos trazidos por Viktor Zemskov e Elena Prudnikova. O qual se abordará em momento apropriado quando a questão do ponto de vista dos demógrafos soviéticos for melhor abordada. Tauger responde a Conquest com mais veemência:

A segunda resposta de Robert Conquest ao meu artigo não resolve em seu favor a controvérsia entre nós sobre as causas da fome de 1933. Em seus pontos iniciais, observei que a fome era pior na Ucrânia e em Kuban do que em outros lugares, em grande parte porque as colheitas nessas regiões eram muito menores do que se conhecia anteriormente. Rejeitei sua evidência não porque não fosse “oficial”, mas porque minha pesquisa mostrou que estava incorreta. Conquest cita o decreto de Stalin de janeiro de 1933 em uma tentativa de validar os relatos das memórias ucranianas, para desacreditar as fontes de arquivo que citei e para provar que a liderança soviética concentrou a fome na Ucrânia e em Kuban. As sanções do decreto, no entanto, não correspondem aos relatos das memórias, nenhum dos quais descreveu camponeses sendo devolvidos às suas aldeias pelas forças da OGPU. As experiências descritas nesses relatos, em vez disso, refletem a aplicação de uma diretiva secreta da OGPU de setembro de 1932, ordenando o confisco de grãos e farinha para impedir o comércio ilegal. Uma vez que isso foi aplicado em todo o país, os relatos das memórias ucranianas refletem a política geral e não um foco na Ucrânia. Vários novos estudos confirmam meu ponto de que centenas de milhares de camponeses fugiram da fome não apenas na Ucrânia e Kuban, mas também na Sibéria, nos Urais, na bacia do Volga e em outros lugares em 1932-1933. As autoridades regionais tentaram detê-los e, em novembro de 1932, o Politburo começou a preparar o sistema de passaportes que logo impôs restrições à mobilidade em todo o país. O decreto de janeiro foi, portanto, uma das várias medidas tomadas nessa época para controlar a mobilidade da mão-de-obra, neste caso para reter a mão-de-obra nas regiões de grãos para que a safra de 1933 não fosse ainda pior. Sua referência às regiões do norte sugere que pode até ter sido usado para enviar camponeses dessas áreas ao sul para fornecer trabalho. Nem o próprio decreto nem a escala de sua aplicação são suficientes para provar que a fome foi artificialmente imposta à Ucrânia. … Os relatos de testemunhas oculares ucranianas, por outro lado, são enganosos porque muito poucos camponeses de outras regiões tiveram a oportunidade de escapar da URSS após a Segunda Guerra Mundial. O historiador russo Kondrashin entrevistou 617 sobreviventes da fome na região do Volga e refutou explicitamente o argumento de Conquest sobre o foco da nacionalidade da fome. De acordo com essas testemunhas oculares, a fome foi mais severa nas regiões de trigo e centeio, em outras palavras, em parte como resultado da pequena colheita. … Tanto estudiosos russos quanto ocidentais, como Kondrashin… e Alec Nove… agora reconhecem que a colheita de 1932 foi muito menor do que se pensava e foi um fator importante na fome.
Tauger, Mark. Slavic Review, Volume 53, Issue 1 (Spring, 1994), pp. 318-320.

Segundo essas estimativas, a pesquisa do principal representante da escola do totalitarismo, hoje, passa por diversos problemas em todos os âmbitos da historiografia, seja na coleta de amostra de história oral ucraniana seja para se provar documentalmente.


NÚMEROS SOBRE MORTES DE FAMINTOS SÃO ABSURDOS E MUITO ALTOS DO QUE REALMENTE FORAM


Em suas memórias Molotov já rejeitava completamente a ideia de milhões de mortos. E cabe lembrar que ele já estava fora de influência do chamado “Stalinismo”, e de Stálin a quem ele poderia talvez ter motivos para se amargurar, uma vez que foi durante o governo de Stálin que a esposa dele foi acusada de ser espiã.


CHUEV: Mas quase 12 milhões morreram de fome em 1933….
MOLOTOV: Os números não foram comprovados.
CHUEV: Não foram comprovados?
MOLOTOV: Não, não, de forma alguma. Naqueles anos, estive no país em viagens de compra de grãos. Essas coisas não poderiam simplesmente ter me escapado. Eles simplesmente não podiam. Viajei duas vezes para a Ucrânia. Visitei Sychevo nos Urais e alguns lugares na Sibéria. Claro que não vi nada desse tipo ali. Essas alegações são absurdas! Absurdo! É verdade que não tive ocasião de visitar a região do Volga….
Não, esses números são um exagero, embora essas mortes tenham sido relatadas, é claro, em alguns lugares.
Chuev, Feliks. Molotov Remembers. Chicago: IR Dee, 1993, p. 243

Além disso, o já citado por Tauger, Alec Nove, é novamente trazido ao debate, desta vez por Getty que afirma a falsidade geral nas estatísticas normalmente apresentadas no ocidente. Mais uma vez, cumpre lembrar, nenhum desses historiadores deve nada a Stalin ou a URSS, para diminuir de vossos caminhos os lastros de calúnias e difamações fora levantada contra ambos. Nove afirma:

Além disso, os números sobre as mortes relacionadas com a fome não podem ser precisos, por razões de “definição”…. As estatísticas ucranianas mostram um declínio muito grande nos nascimentos em 1933-34, que pode ser atribuído a um aumento acentuado nos abortos e também ao não registro de nascimentos de pessoas que morreram na infância.
Getty e Manning. Stalinist Terror: New Perspectives. Cambridge, NY: Cambridge University Press, 1993, p. 269

Além de não poderem serem precisos, mas apenas estimados, a escalada de mortos por fomes na URSS não deixou de considerar outras causas além da fome.


Com relação à escala da fome em 1932/33, agora temos informações muito melhores sobre sua cronologia e cobertura regional entre a população civil registrada. O nível de excesso de mortalidade registrado pela população civil foi da ordem de 3 a 4 milhões ... o que ainda é muito inferior aos números alegados por Conquest e Rosefield e Medvedev.
Getty e Manning. Stalinist Terror: New Perspectives. Cambridge, NY: Cambridge University Press, 1993, p. 290

USAR DADOS DEMOGRÁFICOS PARA PROVAR A FALSIDADE DO GENOCÍDIO


Finalmente chega o momento de verificar o número real de mortos na Ucrânia e as complicações próprias desse debate. Para Tauger, Getty, Zemskov[1] e Alec Nove, o número total varia entre 3-4 milhões. Elena Prudinikova, historiadora e jornalista Russa, nos passa em detalhes uma situação diferente, com uma variação menor indicando a morte por todas as causas. E o motivo que leva a diferença no quadro se deve a possível metodologia de avaliação. Prudnikova contabiliza mortes apenas na região da Ucraniana e os demais consideram as mortes de ucranianos em geral em toda URSS. Este assunto será objeto de um outro artigo que será realizado em breve. É importante verificar a atenção especial que ela deu aos arquivos de Moscou:


Então, vamos dar um passeio na GARF. De acordo com dados desclassificados do Departamento Central de Contabilidade Econômica Nacional do Comitê de Planejamento do Estado da URSS (como o Departamento Central de Estatística era chamado na época), compilados com base em certificados do Departamento de Contabilidade Econômica Nacional da República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1932 na Ucrânia 668,200 mil pessoas morreram por todas as causas, em 1933 - 1.850,3 mil pessoas. No total, em 1932 e 1933, 2.518.500 pessoas morreram de todas as causas na Ucrânia [49] RGAE. F. 1,562,500 inventário 329, ed. xp. 16, l. 12. Como 3,5 milhões de mortos por fome se encaixam aqui é uma questão para os demógrafos ucranianos, uma vez que eles não têm outras fontes de estimativas e, por definição, não seria possível.
Como podemos ver, com uma população média de 31,9 milhões, morreram em média 465,600 mil pessoas por ano. Este número inclui mortes por várias causas — bebês menores de 1 ano (e a mortalidade infantil era enorme), velhice, por doenças, acidentes, etc. (Para comparação: na Ucrânia, 782 mil morreram por todas as causas em 2005 pessoas com uma população de 47,1 milhões de pessoas [51] . Os números são bastante comparáveis.)
Do número total de mortes em 1932 e 1933, subtraímos o valor médio — 465,600 mil, do número total de óbitos: 2,518,580 (465,600 x 2 anos = 931,200. 2,518,380 - 931,200 = 1,587,380 mil pessoas). Este é o excesso de mortalidade máximo em 1932-1933.
Tomando a média aritmética e arredondando-a, temos que, em 1932-1933, 1,5 milhão de pessoas morreram a mais do que o previsto, com base na mortalidade média.
Quão precisos são esses cálculos? Na nota explicativa dos materiais da evolução anual do movimento natural da população para 1933, é indicado o erro máximo — 21% dos valores reais. Só não diz para que lado. No entanto, as autoridades locais dificilmente estavam inclinadas a exagerar indicadores desagradáveis ​​como a taxa de mortalidade. Somando mais 21% ao número que recebemos, chegamos a 1 milhão e 800 mil pessoas. Este é o máximo possível de excesso de mortalidade na república.
É claro que esse resultado não é bom. Mas, não se trata de vinte, nem dez, nem sete, ou mesmo 3,5 milhões de Mortos. Porém, isso não é tudo ...
RGAE. F. 1562, inventário 329, ed. xp. 16, l. 12; GARF. F. 1562, inventário 329, ed. xp. 256, l. 45. Apud in: PRUDNIKOVA ELENA, CHIGIRIN, IVAN. A mitologia do "Holodomor". Moscou. Editora: Veche, 2015 Livro Completo Disponível em: <https://www.litmir.me/br/?b=256400&p=1>. Acesso na data de 26 de Novembro de 2021.


Prudnikova, além da descoberta exposta acima com base em seus estudos de arquivos sobre os expurgos nos registros materiais acerca da mortalidade em 1933, percebeu que a morte epidêmica, possivelmente, é a que compõe a causa mais provável de morbidade no período de 1933.


Portanto, na falta de dados que falem da mortalidade, o mais próximo possível seriam os casos que abordam a morbidade.


A morbidade ou morbilidade, consiste na taxa de indivíduos portadores de determinada doença dentro de um grupo específico, a partir de certo período de análise. Mortalidade faz referência a tudo que pode ser mortal.


Se os dados de morbidade em 1933 existem, mas os de mortalidade não, podemos concluir que, provavelmente, quem expurgou os arquivos não quer que as duas coisas coincidam. Essa é uma possível interpretação.


Afinal, se os dados de mortalidade e morbidade estivessem casados no pior caso de 1933, mais da metade dos mortos que excederam a média prevista, ou seja, quase 60% do total, estariam classificados como vítimas não de fome, mas de malária entre outras doenças existentes fortemente na época.


Mas, felizmente, como se sabe, a URSS vinha melhorando drasticamente a saúde do país em quadros comparativos que analisam desde os tempos do Czar, o governo provisório e passando pela era Lênin. Ao observar as estatísticas soviéticas sobre este assunto, Prudnikova afirma:


“pode-se escrever romances e fazer filmes sobre a luta teimosa e heroica da medicina soviética contra as doenças infecciosas. Em primeiro lugar - para crianças. E, aliás, não foi possível reduzir a incidência do sarampo no país como um todo, e na Ucrânia, que foi submetida ao "genocídio" - pela metade”. Mas não estamos falando sobre isso. Procuramos uma epidemia e podemos encontrá-la facilmente.”


ELENA, PRUDINIKOVA, CHIGIRIN, IVAN. A mitologia do "Holodomor". Moscou. Editora: Veche, 2015 Livro Completo Disponível em: <https://www.litmir.me/br/?b=256400&p=16>. Acesso na data de 26 de Novembro de 2021.


Desse modo, a discussão apresentada pela autora tem grande pertinência ao estudo da sovietologia. Mostra que os melhores estatísticos podem estar na superficialidade da questão.


Cumpre refletir adequadamente o que ela diz sobre a queima de arquivos em relação a questão da mortalidade em 1933. Ao que tudo indica, essa queima de arquivos não foi realizada nos períodos da Era Stálin, como uma forma de se livrar de “provas do genocídio” ou “da responsabilidade pela fome”, do contrário, não se encontraria registros de mortalidade em nenhuma cidade do país. Ao que parece sumiram apenas os arquivos que falam da mortalidade em 1933 porque eles coincidiriam com prontuários médicos que falavam em questões epidêmicas. Neste sentido, sumiram com os registros de mortalidade da Ucrânia em 1933, mas não sumiram com os prontuários médicos que indicam que quase 900.000 pessoas foram vítimas de epidemias.


Um cálculo simples mostra que essa mortalidade "errada" e anormal em 1933 é responsável por cerca de 75.000 pessoas nas cidades e 800.000 nas aldeias, ou seja, mais da metade daqueles que morreram naquele ano fatídico na Ucrânia, por definição, não poderiam morrer de fome!
Qual é o problema?
Por algum motivo, no arquivo russo onde esses dados estão armazenados, não há informações sobre as causas da morte neste ano. Temos em todas as regiões e repúblicas, mas não na Ucrânia! O que também te faz pensar. Por várias razões políticas, os arquivos soviéticos foram repetidamente “limpos”, e o desaparecimento destes dados, o que é inconveniente para apenas uma campanha política - a “fome”, juntamente com os estranhos números acima, sugere que a fome não foi a causa principal da morte em 1933. Se todas essas pessoas morreram de fome - qual o motivo do súbito desaparecimento de dados dos arquivos do estado?
A história conhece três causas de mortalidade em massa: fome, guerra, epidemia. Por definição, não pode haver fome no verão. Também não houve guerra em 1933. O terceiro componente permanece - a epidemia. (...)
Para 1933, não há dados sobre mortalidade, como já mencionado, mas há sobre morbidade. Aqui estão os dados do índice Card do Comitê de Planejamento do Estado TsUNKhU( da URSS sobre a propagação das principais doenças infecciosas na BSSR, a RSFSR e a URSS [55][2] . Nas informações sobre a SSR ucraniana e a URSS, o numerador da fração indica o número absoluto de doenças (em milhares) e o denominador - o número de casos por 10.000 habitantes. Na Bielo-Rússia e na Rússia, as estatísticas, aparentemente, ainda não atingiram tais alturas. (...)
A propagação de epidemias geralmente é algo misterioso. Por exemplo, o companheiro habitual da fome - disenteria em 1933 deu um mínimo estável, mas por alguma razão aumentou drasticamente em 1934, um ano sem fome. O que mais uma vez testemunha: tudo foi ah, como foi difícil.
Por outro lado, dispararam os indicadores de duas doenças esquecidas, uma das quais associada a calamidades sociais (mas não à fome) e a outra - em geral por conta própria, pois depende principalmente da fertilidade dos mosquitos. Em 1933, mais de cem mil pessoas superavam os indicadores de tifo (212.644 pessoas) e malária (767.224 pessoas). De maneira geral, na URSS daquele ano, houve o maior pico de morbidade durante toda a existência do estado - o número de infectados com malária foi de 6 milhões 282 mil 586 pessoas. Além disso, é a malária que apresenta um pico de morbidade no verão pronunciado e característico. Achamos que não há necessidade de procurar outras causas para o pico de mortalidade no verão.
ELENA, PRUDINIKOVA, CHIGIRIN, IVAN. A mitologia do "Holodomor". Moscou. Editora: Veche, 2015 Livro Completo Disponível em: <https://www.litmir.me/br/?b=256400&p=16>. Acesso na data de 26 de Novembro de 2021.

Os Grãos foram enviados para servir os militares na guerra contra o Japão


Segundo Walter Duranty em reportagem especial relativa a questão do confisco dos grãos, o jornalista afirmou que uma parte destacada desses grãos serviriam a guerra com os japoneses. Quais guerras os soviéticos tinham contra os japoneses?


As guerras de fronteira soviético-japonesas aconteceram ao longo da década de 1930. E foram uma série de pequenos confrontos do Japão contra a União Soviética entre 1932 e 1939. Antes da invasão e ocupação japonesa da Manchúria, o Japão, exercendo seu costume bélico de guerrear com o urso do leste, entrou em conflito com União Soviética e, antes disso, de longa data, havia entrado em conflitos com a China, na fronteira da Manchúria. Depois da criação do Manchukuo, o Japão virou-se aos territórios soviéticos na Sibéria que dividiam fronteira. Os intentos militares japoneses nesses campos soviéticos, inevitavelmente, provocaram as duas potências a iniciar um confronto com frequência em várias disputas de fronteira. Tratou-se de uma guerra não declarada que, como se sabe, acabou com uma vitória soviética do exército vermelho que foi decisiva na Batalha de Khalkhin Gol, configurando a primeira e mais grave derrota militar do Japão desde o início de seu expansionismo na Ásia. Com esta derrota, o Japão abandonou a ideia de enfrentar sozinho a União Soviética sem o apoio alemão. Os detalhes dessa questão podem ser vistas na obra de Jonathan Haslam que diz sobre sua pesquisa:


“A essência do relato começa com a rejeição do Japão de um pacto de não agressão com a URSS em dezembro de 1932 e termina com a assinatura de um pacto de neutralidade em abril de 1941.”
Haslam, Jonathan (1992). The Soviet Union and the threat from the East, 1933-41: Moscow, Tokyo, and the prelude to the Pacific War (em inglês). [S.l.]: University of Pittsburgh Press. Disponível em: https://br1lib.org/book/2939709/0f6543?dsource=recommend. Pag. 06.

O Relato de Duranty parece bastante plausível se acompanhado pela história dos conflitos do japão fascista contra a URSS.


O que aconteceu foi trágico para o interior da Rússia. Ordens foram dadas em março, no início do período de semeadura da primavera na Ucrânia e no Norte do Cáucaso e no Baixo Volga, para que 2 milhões de toneladas de grãos fossem coletados em 30 dias porque o Exército precisava deles. Tinha que ser recolhido, sem discussão, sob pena de morte. As ordens sobre a gasolina não eram menos peremptórias. Aqui não sei os números, mas tantos milhares de toneladas de gasolina devem ser dados ao Exército. Numa época em que as fazendas coletivas dependiam de tratores para arar seus campos. Essa era a terrível verdade da chamada "fome criada pelo homem", da "idade de ferro" da Rússia, quando Stalin foi acusado de causar a morte de quatro ou 5 milhões de camponeses para satisfazer sua própria determinação brutal de que deveriam ser socializados ... se não. Que concepção errada! Compare isso com a verdade, que o Japão estava prestes a atacar e o Exército Vermelho devia ter reservas de comida e gasolina.... permanecia o fato de que não apenas kulaks ou camponeses recalcitrantes ou camponeses médios ou camponeses duvidosos, mas as próprias fazendas coletivas, foram despojadas de seus grãos para alimentação, despojadas de seus grãos para sementes, na estação em que mais precisavam. A cota precisava ser atingida, essa era a ordem do Kremlin. Ele foi alcançado, mas as lixeiras estavam muito limpas. Agora, de fato, os camponeses, kulaks e coletivos russos estavam envolvidos em uma desgraça comum. Seus animais de tração estavam mortos, mortos em uma fase anterior da luta, e não havia gás para os tratores, e suas últimas reservas de comida e sementes para a primavera haviam sido arrancadas deles pelo poder do Kremlin, que era impulsionado pela compulsão, isto é, pelo medo do Japão….
Duranty, Walter. USSR: The Story of Soviet Russia .Philadelphia, NY: JB Lippincott Co. 1944, p. 192

Muito impressiona como as reportagens de Duranty, apesar de se enquadrarem na categoria de história imediata, são bastante coerentes com os materiais de arquivos de importantes historiadores que abordamos acima. Abaixo temos um complemento de certo modo a discussão apresentada por Prudinikhova sobre as epidemias.


Seus padrões de vida [dos camponeses] foram tão reduzidos que se tornaram presas fáceis das doenças de desnutrição — tifo, cólera e escorbuto, sempre endêmicos na Rússia — e infectaram as populações urbanas. A Rússia foi devastada pela miséria, mas o Exército Vermelho restaurou suas reservas de alimentos e de gasolina, e roupas e couro para uniformes e botas. E o Japão não atacou. Em agosto de 1932, a conclusão da Barragem Dnieper foi comemorada de uma forma que ecoou em todo o mundo. E o Japão não atacou. Milhões de acres russos estavam desertos e não cultivados; milhões de camponeses russos imploravam por pão ou morriam. Mas o Japão não atacou.
(…) A escassez de alimentos e mercadorias na Rússia foi atribuída, como Stalin pretendia, à tensão do Plano Quinquenal, e tudo que os espiões japoneses puderam aprender foi que o Exército Vermelho aguardava seu ataque sem ansiedade. Sua ponta de lança, apontada para a Mongólia Exterior e o Lago Baikal, foi deslocada, e suas tropas moveram-se para o sul para a província chinesa de Jehol, que eles conquistaram facilmente e adicionaram a "Manchukuo". Stalin havia vencido o jogo contra probabilidades terríveis, mas a Rússia pagou em vidas tanto quanto na guerra. À luz desse e de outros conhecimentos subsequentes, é interessante para mim ler meus próprios despachos de Moscou no inverno de 1932-33. Parece que eu sabia o que estava acontecendo, sem saber por quê, ou seja, sem perceber que o Japão era a verdadeira chave do problema soviético naquela época, e que a primeira melhora genuína da situação agrária durou quase um dia. com o impulso japonês para o sul contra Jehol.
Significava, para dizer de forma sucinta, que Stalin havia vencido seu blefe: o Japão mudou-se para o sul, não para o norte, e a Rússia poderia ousar usar seus melhores homens.
Duranty, Walter. História da Rússia Soviética. Philadelphia, NY: JB Lippincott Co. 1944, p. 193 e 195.

Ordens de Ajuda para o Povo Ucraniano


Os documentos soviéticos abertos entre os anos 1980-1990, dão conta de refutar algumas mentiras banais que nos são jogadas pela direita. O livro já citado na primeira parte de nossa exposição já negava a tese do genocídio, agora resta citar uma fonte primária.


[Suplemento às atas do escritório do Partido Ucraniano em Kiev, 22 de fevereiro de 1933, instruindo que a fome seja aliviada e que “todos os que ficaram completamente incapacitados por causa da emaciação devem ser postos de pé novamente” até 5 de março]
… 10. Em vista das contínuas tentativas de nossos inimigos de usar esses fatos contra a criação de fazendas coletivas, os Comitês do Partido Raion devem conduzir um trabalho sistemático de esclarecimento, trazendo à luz as verdadeiras causas da fome existente (abusos nas fazendas coletivas, preguiça, declínio na disciplina de trabalho, etc.).
Koenker e Bachman, Revelations from the Russian archives. Washington: Library of Congress, 1997, p. 401.

O governo soviético sistematicamente tentou fornecer aos camponeses meios de subsistência nos momentos mais críticos mesmo nos anos anteriores a fome de 1932.

Naquele ano (1931) houve uma forte seca no Volga, na Sibéria Ocidental, em partes da Ucrânia e em outras regiões. Reconhecendo isso, o regime enviou publicamente grãos adquiridos de volta às regiões de seca como ajuda alimentar e sementes, organizou uma conferência de especialistas para discutir medidas contra a seca e iniciou a implementação de algumas das medidas propostas.
Tauger, Mark. “Statistical Falsification in the Soviet Union: a Comparative Case Study of Projections, Biases, and Trust.” The Henry M. Jackson School of International Studies, University of Washington, 2001, p. 44.

Sobre esse assunto, ainda vale um testemunho direto que confirma com exatidão os dados arquivísticos que os historiadores aqui trabalharam:

Nessas condições, havia poucos motivos para tendências antirrussas ou separatistas entre os ucranianos, e nunca as encontrei. Fiquei, portanto, bastante surpreso ao ler recentemente no respeitado jornal francês Le Monde, por ocasião do 50º aniversário da fome de 1933, que foi devido a um planejado “genocídio” da nação ucraniana. Dada a terrível escassez de mão de obra na União Soviética na época, essa hipótese é um tanto absurda. É igualmente absurdo supor que qualquer governo pudesse ser tão estúpido a ponto de acreditar que a fome poderia ser um meio eficaz de quebrar a resistência nacional - em face da experiência da fome irlandesa na década de 1840 e de muitos outros….
De fato, houve uma fome em 1933, não apenas na Ucrânia, mas também em outras regiões semiáridas da URSS, no Baixo Volga e no Norte do Cáucaso; e Makeyevka, localizado próximo à junção dessas três regiões, sentiu todo o impacto disso. Muitos camponeses de lá vieram para a cidade; a siderúrgica tentou empregar alguns deles, mas a maioria saiu, achando o trabalho muito difícil. Alguns já estavam muito danificados, com membros inchados.
Também houve muitas crianças perdidas, que foram levadas para instituições infantis ou, muito frequentemente, adotadas por famílias urbanas; dois de meus velhos amigos, trabalhadores da construção de Viena que na época trabalhavam em Makeyevka, cada um adotou uma dessas crianças. Só uma vez vi uma criança com pernas finas e barriga inchada; estava no jardim de uma creche pelas mãos de uma enfermeira que esperava o médico.
Não há dúvida de que a fome fez muitas vítimas. Não tenho base para estimar o número e duvido que alguém tenha. Quais foram as razões e o que poderia ter sido feito para evitar esta terrível calamidade?
Houve uma conjunção de vários fatores. Primeiro, o verão quente e seco de 1932, que experimentei no norte de Vyatka, resultou na quebra de safra nas regiões semiáridas do sul. Em segundo lugar, a luta pela coletivização interrompeu a agricultura. A coletivização não foi um processo ordenado, seguindo regras burocráticas. Consistia em ações dos camponeses pobres, incentivados pelo Partido. Os camponeses pobres estavam ansiosos para expropriar os “kulaks”, mas menos ansiosos para organizar uma economia cooperativa. Em 1930, o Partido já havia enviado quadros para conter e corrigir os excessos. Um dos quadros envolvidos neste trabalho relatou posteriormente sua experiência: os comunistas locais lhe disseram: “Estamos construindo o socialismo na aldeia, e você e seu Stalin estão nos apunhalando pelas costas”. Depois de ter exercitado a contenção em 1930, o Partido impulsionou novamente em 1932. Como resultado, naquele ano a economia kulak deixou de produzir, e a nova economia coletiva ainda não produzia plenamente. A primeira reclamação sobre o produto inadequado foi para a indústria urbana e as forças armadas; como o futuro de toda a nação, incluindo os camponeses, dependia deles, dificilmente poderia ser diferente. Além disso, a depressão no Ocidente destruiu o mercado de petróleo e madeira, com os quais os soviéticos esperavam pagar as dívidas contraídas durante o primeiro plano quinquenal. Então, em vez de importar grãos, a União Soviética realmente exportou alguns. Que alternativas eles tinham? Posso ver apenas dois: usar sua reserva de ouro ou obter um empréstimo. A primeira reclamação sobre o produto inadequado foi para a indústria urbana e as forças armadas; como o futuro de toda a nação, incluindo os camponeses, dependia deles, dificilmente poderia ser diferente. Além disso, a depressão no Ocidente destruiu o mercado de petróleo e madeira, com os quais os soviéticos esperavam pagar as dívidas contraídas durante o primeiro plano quinquenal. Então, em vez de importar grãos, a União Soviética realmente exportou alguns. Que alternativas eles tinham? Posso ver apenas dois: usar sua reserva de ouro ou obter um empréstimo no oeste. Eles tentaram fazer o último, mas só o obtiveram em 1934, quando não precisaram mais dele. Se a culpa pelo terrível sofrimento de 1932 deve ser atribuída, ela recai em partes iguais sobre o governo soviético, por se recusar a ceder sua reserva de ouro, e sobre o Ocidente, por se recusar a emprestar quando necessário.… Provavelmente, a maioria das mortes em 1933 foi devido a epidemias de tifo, febre tifóide e disenteria.
As doenças de veiculação hídrica eram frequentes em Makeyevka; Eu sobrevivi por pouco a um ataque de febre tifóide….
Em 1933, as chuvas eram adequadas. O Partido enviou seus melhores quadros para ajudar a organizar o trabalho nos kolkhozes. Eles conseguiram; depois da colheita de 1933, a situação melhorou radicalmente e com velocidade surpreendente. Tive a sensação de que estávamos puxando uma carroça pesada colina acima, sem saber se teríamos sucesso; mas, no outono de 1933, havíamos ultrapassado o topo e, a partir de então, podíamos avançar em um ritmo acelerado. Certamente, a estupidez e a insensibilidade infligiram muito sofrimento evitável durante o processo de coletivização, e muitos kolkhozes soviéticos continuaram a sofrer com o fato de terem começado com o pé errado — em contraste com aqueles em outros países como Alemanha Oriental e Hungria, que aprenderam dos erros cometidos na União Soviética. Mas, a agricultura soviética não é o fracasso monumental que muitas vezes é considerada no Ocidente.
Blumenfeld, Hans. Life Begins at 65. Montreal, Canadá: Harvest House, c1987, p. 152-154


CAUSAS NATURAIS REAIS SÃO IGNORADAS PELOS CRÍTICOS


A conclusão que se defende neste artigo é de que, as causas naturais foram as principais razões da fome, e que, o restante das razões humanas, podem ser consideradas mais agravantes do que propriamente dados de origem do problema. No entanto, a atuação dos Kulaks são agravantes de natureza muito mais grave do que o confisco de grãos.


Uma parte da política de confisco de certa existia porque os grandes latifundiários eram especuladores também.

Determinados tipos de confiscos legais, eram pré-determinados com anuência majoritária dos camponeses soviéticos que apoiaram basicamente três políticas em maior ou menor medida: a coletivização, a deskulaquização e a industrialização. Ou seja, aqui se expõe uma política “esperada” pelo povo. Além do mais, já provamos em outra oportunidade o quanto os soviéticos apoiaram de maneira geral essas políticas.


Sobre a questão ambiental como origem da fome Tauger afirma:


No entanto, dois estudos discutem as safras desses anos. Robert Davies e Stephen Wheatcroft argumentam que as colheitas de 1931 e 1932 foram pequenas devido à seca e às dificuldades de trabalho e capital, especialmente o declínio dos animais de tração….
Neste ensaio, eu reexamino as colheitas de 1931 e especialmente de 1932 com base em documentos de arquivo recentemente disponíveis e fontes publicadas, incluindo alguns que os estudiosos nunca utilizaram. Mostro que o contexto ambiental dessas fomes merece muito mais ênfase do que recebeu anteriormente: desastres ambientais reduziram substancialmente a colheita de grãos soviética em 1932 e devem ser considerados uma das principais causas da fome. Eu argumento que as dificuldades de capital e trabalho foram significativas, mas não tão importantes quanto esses fatores ambientais, e foram em parte resultado deles. Também demonstro que a liderança soviética não entendeu totalmente a crise e por ignorância agiu de forma inconsistente em resposta a ela. Concluo que é, portanto, incorreto descrever a fome soviética de 1932-1933 simplesmente como uma fome artificial ou produzida pelo homem, ou então reduzi-la a uma única causa. No geral, a baixa safra e, portanto, a fome, resultaram de um complexo de fatores humanos e ambientais, uma interação do homem e da natureza, assim como a maioria das fomes anteriores da história.
Tauger, Mark. Natural Disaster and Human Actions in the Soviet Famine of 1931-1933. Pittsburgh: University of Pittsburgh, 2001, p.6.

A tese de Tauger é aqui fundamental para nossa, embora ele defenda que as razões humanas tenham interferido, ele não coloca entre elas uma possível hierarquia, e é desse ponto que aqui difere-se fundamentalmente. A Resposta dos Kulaks a coletivização em queimar as colheitas, em abater o gado, ou antes disso, em rete-lo para o uso especulativo, não pode ser vista como equivalente aos confiscos. Não havia outro meio de lidar com a atitude dos Kulaks que não fosse por meio da coletivização da terra, dos bens agrários e dos animais, tendo em vista que se permitido as leis do capital trariam uma fome ainda maior. Um relato interessante pode provar o que estamos aqui a dizer:


“A oposição (dos kulaks) manifestou-se de início pelo abate do gado bovino e cavalar, que consideravam preferível a vê-los coletivizados. Dado que a maioria das vacas e dos cavalos pertencia aos kulaks, o resultado foi terrível para a agricultura soviética. Entre 1928 e 1933, o número de cavalos passou de cerca de 30 milhões para menos de 15 milhões; de 70 milhões de cabeças de gado bovino, das quais 31 milhões vacas, passou-se para 38 milhões, das quais 20 milhões de vacas; o número de carneiros e cabras diminuiu de 147 milhões para 50 milhões e o de porcos, de 20 milhões para 12 milhões. Em 1941, a economia rural soviética ainda não tinha recuperado completamente destas perdas terríveis (...) Alguns (kulaks) assassinaram funcionários, incendiaram propriedades coletivas e chegaram a queimar as suas próprias colheitas e sementes. Um número ainda maior recusou-se a semear e a colher, talvez na convicção de que as autoridades lhes fariam concessões e lhes assegurariam de qualquer forma a alimentação. O que se seguiu foi a “fome” de 1932-1933. (...) Relatos macabros, fictícios na sua maior parte, apareceram na imprensa nazi e na imprensa de Hearst nos Estados Unidos (...). A fome, nas suas fases ulteriores, não foi o resultado de um défice de alimentação, apesar da redução importante das sementes e das colheitas, consequência das requisições especiais na Primavera de 1932, motivadas aparentemente pelo receio de uma guerra com o Japão.
A maior parte das vítimas foram kulaks que se haviam recusado a semear os seus campos ou que tinham destruído a sua colheita.”
Tottle, Douglas. Fraud, Famine, and Fascism. Toronto: Progress Books,1987,. Pag. 94

Em suma, as ameaças constantes de guerras nas fronteiras podem ser consideradas um dos fatores de agravamento da fome.


A necessidade de uma industrialização acelerada para lidar com a guerra, pode ser considerada uma das questões que invariavelmente atrapalhariam o combate imediato a fome, mas que, infelizmente, não comportava uma alternativa.


Por não haver essa opção “perfeita”, é importante que se perceba a dinâmica dos paradoxos que a URSS sofria, onde todos os caminhos do fluxograma levariam a algum resultado “negativo”.


Aqui, portanto, defende-se a tese que a dinâmica imperialista naquele período histórico não poderia dar ao socialismo soviético qualquer outra opção além da industrialização e coletivização em caráter acelerado.

Apesar de tudo que já citamos para desmistificar a questão da fome como genocídio e até mesmo outros mitos soviéticos combatidos em outras ocasiões, é fundamental verificar que a maioria esmagadora das críticas a URSS que avaliamos: seja a coletivização, seja a industrialização, a democracia, a pedagogia, as leis, costuma em algum momento por evaporar a necessidade histórica de uma industrialização acelerada que se devia a uma imposição do sistema imperialista.


Como diria Lênin: “no terreno do capitalismo, que outro meio poderia haver, a não ser a guerra, para eliminar a desproporção existente entre o desenvolvimento das forças produtivas e a acumulação de capital, por um lado, e, por outro lado, a partilha das colônias e das esferas de influência- do capital financeiro?”.
LÊNIN, V, I. Imperialismo fase superior do capitalismo. Pag. 230. Disponível em: < https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/imperialismo.pdf>. Acesso em 26 de novembro de 2021.

Boa parte dos historiadores burgueses, e mesmo na escola revisionista, apesar de apresentarem uma noção da interligação dos problemas, costumam isola-los nos campos em que se situam e não compreendem a que sistemática global pertencem a sua determinação múltipla como diria Marx. Quando falam da industrialização acelerada, a criticam como se houvesse na ordem do dia uma outra opção; quando falam da coletivização a criticam como se não tivesse nenhuma importância no processo de modernização, quando falam dos expurgos criticam todo e qualquer excesso como se a prática não tivesse permitido a vitória na guerra. Muito possivelmente, por não haver mais a dinâmica da guerra mundial no cotidiano, a noção do preparo para ela pode ter sido afetada, embora não se possa reduzir o problema a uma questão experiência direta, é inegável que a falta do problema gera insensibilidade sobre ele.


Não sendo possíveis evitar os problemas que disso decorrem — da chamada guerra de tipo mundial — a URSS saiu numa escalada ininterrupta de desenvolvimento. Quando finalmente se tornariam plausíveis as condições que colocaram a industrialização acelerada como uma possibilidade e não uma necessidade, o partido e a URSS nos principais polos estava infestada de revisionistas.


Mas, se as guerras imperialistas, as guerras de fronteira, as provocações cotidianas, que geravam a necessidade de uma industrialização acelerada e coletivização aceleradas, podem ser um fator que agrava a fome qual seria o segundo fator? Aí sim, pode-se considerar a atividade dos Kulaks a segunda causa agravante da fome. Como se verificou anteriormente eles não foram irrelevantes na equação, só não foram a causa da fome.


E por fim, a última causa de agravantes são os possíveis erros dos funcionários do partido e etc. Por vezes, como se pode ver na obra de Diane P Koenker, os chamados de atenção para o problema da fome não foram atendidos pelo partido quando os camponeses pediram ajuda diretamente aos representantes, muitas vezes eles tiveram de recorrer a Stálin pessoalmente. Aqui segue um caso em que o próprio Stálin reconhece a fome e atende os anseios do povo. O Documento em si contradiz bastante a leitura que a própria historiadora fez dele, quando ela afirma que Stalin respondeu ao anseio de quem estava com fome com as seguintes palavras: “Você inventou uma fábula sobre a fome, pensando nos assustar, mas não vai funcionar. Mikhail Sholokhov também apelou a Stalin para que ordenasse o fim dos métodos arbitrários de coleta de grãos. A resposta de Stalin (Documento 177)”. Neste documento em si, não se vê a posição acusada em Stálin. Assim, temos prova direta contra a boa-fé de uma parte da escola revisionista. Que será que descobriríamos lendo os documentos originais? Há muito o que se criticar mesmo na melhor historiografia vigente.


Koenker e Bachman, Revelations from the Russian archives. Washington: Library of Congress, 1997, p. 401.
DOCUMENTO 177 Carta de Stalin para Mikhail Sholokhov, 3 de maio de 1933, sobre sabotagem pelos produtores de grãos do Veshenskii raion
Caro camarada Sholokhov: Como você já sabe, todas as suas cartas foram recebidas. A ajuda para a qual você está pedindo foi aprovada. Para investigar o assunto, estou enviando o Sr. Shkiriatov ao Mião Veshenskii para vê-lo. Peço sinceramente que você preste assistência a ele. Então é isso. Mas não tudo, camarada Sholokhov. O problema é que suas cartas criam uma impressão um tanto unilateral. Eu gostaria de escrever algumas palavras sobre isso. Agradeço suas cartas, pois revelam as feridas abertas no partido e no trabalho soviético; eles revelam como nossos funcionários, em seu desejo ardente de conter o inimigo, às vezes, inadvertidamente, espancam seus amigos e afundam ao ponto do sadismo.
Mas isso não significa que concordo totalmente com você em tudo. Você vê um lado da situação e não o vê muito mal. Mas, este é apenas um lado da questão. Para não cometer erros políticos (suas cartas não são ficção, mas política absoluta), você deve observar amplamente; você deve ser capaz de ver as coisas de ambos os lados. O outro lado é que os estimados produtores de grãos de sua região (e não apenas de sua região) fizeram uma "greve sentados!" (sabotagem!) E não eram contra deixar os trabalhadores e o Exército Vermelho sem pão. O fato de que essa sabotagem foi pacífica e aparentemente inofensiva (sem sangue) não muda o fato de que os estimados produtores de grãos realmente travaram uma guerra "silenciosa" contra a autoridade soviética. Uma guerra de fome, caro camarada Sholokhov. É claro que esta circunstância não pode, em nenhum grau, justificar aqueles atos terríveis que foram permitidos acontecer, como você está convencido, por nossos funcionários. Os culpados desses atos terríveis devem ser punidos em conformidade. Mas está claro como o dia que esses estimados produtores de grãos não são tão inocentes quanto parecem à distância. Bem, até logo, apertando sua mão.
Seu J. Stalin, 5 de maio de 1933
Koenker e Bachman, Revelations from the Russian archives. Washington: Library of Congress, 1997, p. 397.

Acima vemos que a paciência de Stálin não parecia caber na descrição de Diane P. Koenker. Sendo, portanto, os possíveis erros descritos acima por Stálin como erros válidos a se pensar na política da época e uma terceira e última agravante humana, junto dos erros confisco ilegais praticados pelos corruptos já apontados por Zemskov.


As causas naturais evidentemente devem ganhar mais destaque, são elas:


1) Doenças:

Já abordamos as epidemias nas citações trazidas por Elena Prudnikova, e acreditamos que aquela é a abordagem mais correta em relação as causas da fome de 1932.


2) Pragas nas Plantações: ferrugem, fungos e etc. A ferrugem é um fungo que ataca plantas. De início, não é possível perceber nenhuma alteração aparente na planta, o que vai ocorrer algum tempo após a infestação, quando o fungo se reproduzir e esporular. Nesse momento, as manchas começam a surgir e a doença já causou danos à plantação.


A literatura agronômica soviética e outras fontes publicadas e arquivadas da década de 1930, entretanto, que nenhum estudo anterior sobre a fome discutiu, indicam que em 1932 as safras soviéticas sofreram de uma combinação extraordinariamente severa de infestações de doenças e pragas nas plantações.
A infestação mais importante em 1932 veio de diversas variedades de ferrugem, uma categoria de fungos que podem infestar grãos e muitas outras plantas.
Tauger, Mark. Tauger, Mark. Natural Disaster and Human Actions in the Soviet Famine of 1931-1933. Pittsburgh: University of Pittsburgh, 2001, p. 13

Os números causados de perdas por desastrais naturais não são pequenos em se tratando da URSS. “Embora as infestações de ferrugem não fossem um problema novo na Rússia, o surto extremo em 1932 pegou agrônomos de surpresa, e eles não entenderam totalmente”. São substanciais as perdas:


… As perdas com ferrugem em 1932 atingiram aproximadamente 9 milhões de toneladas, 13% do valor da colheita oficial e quase 20% da estimativa de colheita de arquivo mais baixa. Também deve ser observado que, embora essas estimativas sejam aproximadas, elas também são as únicas estimativas concretas, com base em qualquer evidência científica, mesmo remotamente, das perdas gerais da colheita de grãos de 1932 de quaisquer fatores ambientais ou humanos disponíveis em quaisquer fontes publicadas ou arquivadas que eu tenha sido capaz de encontrar.
Tauger, Mark. Tauger, Mark. Natural Disaster and Human Actions in the Soviet Famine of 1931-1933. Pittsburgh: University of Pittsburgh, 2001, p. 16, 17

3) Infestações de Insetos como gafanhotos sempre levaram pecuaristas e agricultores a se defender de uma praga secular de proporções históricas. Esses insetos estão são capazes de devorar plantações inteiras em poucas horas.