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  • Klaus Scarmeloto

Stálin e a Luta contra o “Culto à Personalidade”

Atualizado: 2 de mai.


O Texto Abaixo é um complemento do capitulo 1 da obra de Grover Furr "Khrushchev Mentiu". A maior parte das evidências de Furr não são trabalhadas no texto. Por isto, pedimos a todos que colaborem com o Catarse da obra, pois nosso esforço tem sido imensurável para servir vossos camaradas com munições contra o anticomunismo. O link do catarse é este: https://www.catarse.me/furr Texto em Formato PDF:

Stalin e a luta contra o culto a personalidade e farsa do Testamento de Lênin
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Por Klaus Scarmeloto




A denúncia do culto à personalidade foi um dos principais argumentos de Khrushchev. No entanto, em seu relatório secreto apresentado no XX congresso do PCUS, não existem vestígios de uma indagação fundamental para este debate e que deveria ser obrigatória: estamos diante da vaidade ou do narcisismo de um único líder político, ou de um fenômeno de caráter mais geral e social que se instala em um contexto determinado e objetivo?[1]


Assim, pode-se dizer que “Em situações de crise aguda, a personalização do poder é muitas vezes combinada com a veneração do líder que detém o poder”[2]. Um exemplo evidente disto ocorreu na França quando chega aos filhos de Napoleão em dezembro de 1918, o vitorioso presidente americano, que é saudado como o salvador e seu discurso dos Quatorze Pontos é comparado ao Sermão da Montanha. Convenhamos, não há culto maior a personalidade de qualquer ser humano do que ter próprio o discurso comparado a gigantesca fala de cristo aos oprimidos e vítimas do império romano[3].


No entanto, até que ponto Stálin se beneficiou disto ou procurou engendrar situações como estas?


Algumas referências aqui elencadas, negam categoricamente esta visão do relatório Khrushchev tão divulgada pelo imperialismo no ocidente.


Comecemos por memorialistas:


Um correspondente de Viena na URSS do começo dos anos 1950, tinha uma visão muito distinta de Khrushchev sobre Stálin e o culto à personalidade. Segundo Bessaches:


“O que distinguiu Stálin ... foi a forma como ele veio perante o público. Seria difícil ou impossível encontrar, em qualquer discurso de Stálin, a pequena palavra ”EU". Quando ele falava, fazia sempre em nome do partido, em nome da União Soviética, ou, nos últimos anos, como Primeiro-Ministro, em nome do Governo Soviético”[4]. Do mesmo modo funcionava “As suas aparições em público: foram tão modestas como as suas roupas”[5]. Antes da morte de Lênin, Stálin já poderia ser considerado “o homem mais importante no grande governo soviético, mas quando no passado”[6], por exemplo, “assistiu a uma reunião do Comité Executivo Central, cujo Presidium era membro, apareceu invariavelmente quando a reunião já tinha começado, e sentou-se modestamente numa das filas de trás”[7]. Após o início de sua era, ele já era consolidado e disparado o líder mais importante na URSS. Não eram poucas as situações em que “havia para ele longas ovações”[8]. Não apenas isto, mas “Quando os aplausos morriam, alguma mulher saltava e gritava com uma voz estridente: Viva o grande Stálin”[9]! E haveria uma “nova tempestade de aplausos”[10]. Ao ver tudo isto “Stálin sentava-se ali como se tudo isto não tivesse nada a ver com ele”[11]. Posteriormente, “seria frequentemente necessário que ele se sentasse na primeira fila do Presidium; mas ele nunca aparecia sozinho, sempre estava entre umas dezenas de outras pessoas”[12]. Do mesmo modo “Stálin nunca fez a saudação sozinho num desfile militar e nos desfiles da Praça Vermelha, ele ficava sempre no meio de umas dezenas de outras pessoas”[13]. Evitando clamores exacerbados “Quando aparece no Conselho Supremo ou numa festa no palco do Grande Teatro em Moscovo, e o público inicia aclamações selvagens à moda russa, Stálin permanece sentado”[14]. Stálin, “Comporta-se como se a ovação não fosse para ele, e também se junta aos aplausos. Isto tem sido interpretado como aplaudindo a si próprio, mas não é isso; é a atitude que ele adotou para ignorar a ovação”[15]. Sem responder aos anseios “Ele não se levanta nem se curva enquanto se senta; simplesmente junta-se aos aplausos como se a ovação fosse para outra pessoa. Desta forma, ele torna-se indistinguível do resto das pessoas presentes. Ele tenta tornar-se um dos coletivos”[16].


Pode-se dizer que “Este foi também o estilo dos seus discursos. O partido há muito que tinha sido descrito na língua oficial como o partido de Lenin e Stálin, como se Lenin e Stálin o tivessem fundado e tivessem sido os seus únicos organizadores”[17]. Numa ocasião, “numa reunião do Comité Executivo Central, Stálin falava e tinha de ler cartas de jovens comunistas. Numa das cartas, chegou a mencionar o partido de Lênin e Stálin”[18]. Depois dessas palavras, pousou a carta por um momento, dirigiu-se aos seus ouvintes, e acrescentou: “Como as pessoas dizem!” indicando discordância com a frase.


Estando enfastiado com o fato “De tempos a tempos Stálin repete que não aprova a propaganda selvagem em seu favor pessoal”[19]....


Prossegue “Ele advertindo certamente o partido e o Governo, na verdade todo o país, continuamente, contra a extravagância de perspectivas, contra ser conduzido pelos sucessos a uma perda do sentido das proporções”[20]. Assim, “Fica-se com a impressão de que Stálin está a advertir-se contra a presunção. Pode ser que este seja um dos segredos do seu sucesso; esta pode ser a moral que ele retirou da observação dos seus opositores”[21]. Praticamente “todos eles têm tido uma opinião demasiado boa de si próprios, e Stálin não tem nenhuma intenção de cometer esse erro”[22].


A filha de Stálin, que se tornou um algoz da URSS e não se tem evidências de que isso aconteceu por coerção, apesar das inúmeras passagens de sua obra contra seu pai, também afirma que há problemas na tese do culto à personalidade:


“Ela [tia Anna] nunca julga nem condena papai. Ela fica fora de si quando as pessoas falam sobre o culto da personalidade”. Ela fica nervosa e fala sem parar. “Eles estão a exagerar. Exageram sempre neste país”, dirá ela indignadamente”[23]. Por fim, a tia de Stlevana afirma: “Agora estão a culpar tudo a Stálin”. Mas ele também não teve um momento fácil. Sabemos que a sua vida não foi fácil. Não foi tão simples tudo isso”. Segundo Anna era necessário “Pensar em todo o tempo que ele passou na Sibéria. Não devemos esquecer isso. E não devemos esquecer as coisas boas que ele fez”[24]!

Volkogonov, conhecido por sua ampla antipatia por Stálin, também se vê obrigado a assumir os problemas em resumir Stálin como um adulador e aponta a contragosto algumas evidências de que Stálin não era estúpido o suficiente de bem-dizer toda a adulação sofrida[25]. Ele cita o próprio Stálin em uma situação peculiar:


Você fala sobre sua ‘devoção’ para mim. Talvez a frase tenha escapado. Pode ser…. Mas se não simplesmente escapar, eu o aconselharia a descartar o “princípio” da devoção aos indivíduos. Não é a maneira bolchevique. Dedique-se à classe trabalhadora, ao seu partido, ao seu estado. Isso é o que é necessário e o que é bom. Mas não confunda com devoção às pessoas, que é apenas uma moda vazia e supérflua dos intelectuais.[26]

Stalin, mostrava-se muito mais grato a “ouvir outros comentarem sobre sua modéstia. No plenário de fevereiro-março de 1937, Mekhlis disse que “já em 1930, o camarada Stalin me enviou a seguinte carta para o Pravda”[27]. Assim disse:


Permito-me ler sem sua permissão:”
“Camarada Mekhlis. Há um pedido para publicar o trabalho instrutivo anexo de um kolkhoz. Apaguei o que diz sobre 'Stalin' como o 'líder do partido' e assim por diante. Acho que esses enfeites laudatórios só podem fazer mal. A carta deve ser impressa sem esses epítetos.

J. Stalin”[28].

Apesar da oposição de Stálin ao culto à personalidade, “nada seria permitido para pôr em perigo a fachada” que alguns militantes usavam para encobrir suas ações de Stálin o cultuando. “Quando em 1938 Stálin criticou o culto à personalidade, foi necessário suprimir as suas observações”[29]. Assim, “Numa carta a uma editora menor, Stálin desaconselhou a publicação de uma história hagiográfica sobre a Infância de Stálin”. Assim ele afirmou: O livro abunda numa massa de improbabilidades factuais, alterações, e elogios não merecidos. O autor é desviado pelos amantes das fábulas, pelos impostores (mesmo pelos impostores “de boa fé”), pelos bajuladores… o livro tende a instilar… o culto das personalidades, dos líderes, dos heróis infalíveis. Isto é perigoso e prejudicial”[30]. Para Stálin, por consequência, A teoria dos “heróis” e das massas não é uma teoria bolchevique... Recomendo que se queime o livro"[31].


Segundo Getty as denúncias de Stálin ao “culto de personalidades”, no caso acima, podem ser entendidas como simples afirmações da conhecida modéstia do líder, mas não se limitam a isto.


“Se isso fosse tudo o que estava envolvido, é difícil entender por que a carta não foi divulgada ou publicada até depois da morte do ditador. Assim provavelmente, as declarações condenando o culto a Stalin do próprio líder eram muito subversivas aos princípios e normas operacionais do regime para serem publicadas nos anos trinta”[32].

Getty ainda adverte que os estudos da escola do totalitarismo, em geral, pecam na análise do fenômeno e da situação geral que o trazem à tona, e isto infelizmente é amplamente reproduzido pela esquerda:


Os estudiosos ocidentais permaneceram hipnotizados pelo “culto à personalidade” de Stalin, e sua obsessão por ele levou a estudos do período dos Grandes Expurgos que não fornecem nenhuma investigação detalhada do ambiente político, institucional e estrutural do fenômeno. Em vez de colocar os eventos nesses contextos, os estudiosos muitas vezes discutiram os Grandes Expurgos apenas no contexto da personalidade de Stalin e categorizaram o stalinismo simplesmente como o governo indiscutível de um ditador onisciente e onipotente. Contradições e confusão são vistas como manifestações do capricho de Stalin, e muitas vezes a história política do período de Stalin tem sido meramente a história das supostas atividades de Stalin. Uma compreensão dos anos 30 baseada na personalidade de Stalin é tão limitada e incompleta quanto uma explicação do nazismo derivada da psique de Hitler.[33]

Rittersporn sobre a carta acima afirma: “como praticamente todas as missivas de Stalin foram publicadas na imprensa muito rapidamente, é provável que essa carta nunca tenha chegado às editoras de livros infantis a quem foi endereçada”[34]. Ele afirma categoricamente que esta carta não foi escrita com intuito demagógico, porque não fora amplamente divulgada. Se esta carta tivesse sido escrita com o único objetivo demagógico de demonstrar a modéstia exemplar de um “Líder Supremo", que, no entanto, era ritualmente cultuado, parece mais do que provável que já tivesse sido amplamente divulgada em 1938”[35]. Nesta perspectiva, “é improvável que Stalin teria tomado a iniciativa de censurar pessoalmente a enxurrada de panegíricos que cantavam sua glória em todos os cantos e em todas as línguas da terra”. Por isto, “se esta carta atacou o manuscrito de um livro de uma editora pouco importante, foi, sem dúvida, porque foi submetida a Stalin especificamente para expressar sua opinião sobre ele, uma opinião que ele poderia ter dado a qualquer momento em resposta a qualquer edição de qualquer jornal”[36]. A própria dimensão do projeto editorial revela que o ataque visava parte da inteligência do partido. “A insignificância da instituição em questão e o fato de o nome do autor sequer ter sido mencionado indicam que o verdadeiro alvo do ataque não era o editorial, a política editorial, nem o mundo literário”[37]. Todavia “se o "protesto" de Stalin não viu a luz na época, é justamente porque aqueles que o ditaram e julgaram sua publicação inoportuna visavam algo mais do que uma simples demonstração da modéstia do líder supostamente onipotente”[38]. Tudo leva a crer que, já em 1938, “alguns dos defensores da "anistia" procuravam lançar uma campanha contra o "culto antibolchevique de personalidades infalíveis"[39], assim “pode-se descobrir uma tentativa de devolver a esta questão um poucos meses depois em um decreto do Comitê Central que - sem se referir à fonte mais venerável - virtualmente citava as palavras e os argumentos da carta de Stalin de um ataque à "marca" do regime e deve ter reconhecido, em consequência, que afinal não era fácil prescindir da segurança de uma referência legitimadora universal[40].


Mas, não só no meio militante e partidário o culto à personalidade foi atacado por Stálin. No meio militar os exemplos frequentes existem. O Marechal Zukhov é um caso prático, ele se lembra de episódios importantes:


“Então, um certo dia, Stalin me perguntou: “Você não acha que devemos comemorar a derrota da Alemanha fascista com um desfile da vitória em Moscou e convidar os heróis mais ilustres entre os soldados, suboficiais, oficiais e generais?”[41]


Stálin apesar de desejar comemorar a vitória sobre o nazifascismo, não procurou se colocar no centro da expressão dessa derrota. Assim prossegue Zukhov:


“Não consigo lembrar exatamente o dia, mas acho que foi por volta de 18 ou 19 de junho que fui convocado por Stalin para sua dacha. Ele perguntou se eu não tinha esquecido como andar a cavalo. Eu respondi:”
“Não, não esqueci, na verdade ainda ando até hoje.”
“Bom”, disse Stalin, “você terá que fazer a saudação na Parada da Vitória. Rokossovsky vai comandá-lo.”
Eu respondi:
“Obrigado pela honra, mas não seria melhor você fazer a saudação? Você é o Comandante-em-Chefe Supremo e por direito você deve fazer a saudação.”
Stálin rebateu: “Estou velho demais para rever desfiles. Você faz isso, você é mais jovem.”
Em 22 de junho, os jornais publicaram a seguinte ordem do Supremo Comandante-em-Chefe:
“Para marcar a vitória sobre a Alemanha na Primeira Guerra Patriótica, ordeno um desfile de tropas do exército ativo, da marinha e da guarnição de Moscou, uma Parada da Vitória, a ser realizada em 24 de junho de 1945, na Praça Vermelha, Moscou….
A saudação na Parada da Vitória será feita pelo meu adjunto, Marechal da União Soviética Zhukov; o desfile será comandado pelo marechal da União Soviética Rokossovsky.”[42]

Novamente, “Em 16 de julho, um trem especial deveria trazer Stalin, Molotov e outros do partido de Stalin”. No dia anterior, Stalin me ligou e disse: “Não tente trazer nenhum guarda de honra com bandas para nos encontrar. Venha você mesmo à estação e traga aqueles que achar necessário”[43].


Segundo McNeal, historiador britânico amplamente antistalinista, existiu “um imenso esforço especial para ensinar às crianças as histórias benignas de Stálin. No entanto, Stalin determinou pessoalmente que esse mito não enfatizasse um dos artifícios óbvios à disposição dos propagandistas: lendas didáticas sobre o jovem Sossó”[44]. Mcneal também acrescenta que Lênin, conhecendo toda a extensão do poder de partido, proferiu um julgamento, portanto, teve a melhor oportunidade de avaliar Stálin a esse respeito, e proferiu seu julgamento em um debate em 1922[45]. Respondendo a uma questão geral sobre a concentração de poder e, em particular, a responsabilidade de Stálin pelos dois comissariados do povo, Lenin chamou Stalin de “uma pessoa de autoridade”[46]. Mas no que se fundamentava esse poder e essa autoridade? Não em uma imagem heroica já que Stalin no período da guerra civil e da revolução teve as mesmas honrarias dos futuros algozes. “A fama de Trotsky, organizador do Exército Vermelho e orador e escritor eloquente, foi muito maior, e vários outros – como Zinoviev, Kamenev e Bukharin – provavelmente receberam mais atenção da mídia soviética do que Stalin”[47]. Justamente, por “isso, aliás, sugere que ele estava nestes anos, pelo menos, muito mais preocupado em continuar com seu trabalho prático do que em se exibir em público”[48]. Uma luta por fama não foi o que Stálin pessoalmente buscou. “Uma sede desequilibrada de glória popular, um 'culto' poderia ser mais facilmente atribuído a alguns de seus camaradas do que a ele”[49].


Em diversas ocasiões houve da parte de Stálin, irritação e desdém sobre as figuras laudatórias, e até deboches de sua versão “desfigurada”, irreal e, pouco humanizada, pela adulação excessiva. Segundo o historiador nada simpático a Stálin, Robert Service, “Às vezes, porém, Stálin apontava o dedo para si mesmo. Escrevendo para Voroshilov em março de 1929, ele zombou de sua própria imagem grandiosa: “Líder Mundial ? Vá se foder!”[50]


Como já se ressaltou em outras oportunidades, o método de Stálin se seu governo consistem em decisões coletivas. A Noção ocidental de ditadura, não se aplica ao camarada Georgiano[51], isto a própria cia já reconheceu. Por isto Stálin dizia:


“Não, pessoas individuais não podem decidir. As decisões dos indivíduos são sempre, ou quase sempre, decisões unilaterais. Em cada colegiado, em cada corpo coletivo, há pessoas cuja opinião deve ser levada em conta. Em todos os colegiados, nos coletivos, há pessoas que podem exprimir opiniões erradas. Pela experiência de três revoluções, sabemos que de cada 100 decisões tomadas por pessoas individuais sem serem testadas e corrigidas coletivamente, aproximadamente 90 são unilaterais”[52].

Em certa ocasião Bazhanov, cedeu suas honrarias a Stálin, que as devolveu em uma carta resposta, rejeitando todo o culto que Bazhanov realizou na ocasião:


“Caro camarada Bazhanov, recebi sua carta me cedendo sua segunda Ordem como recompensa pelo meu trabalho. Muito obrigado por suas calorosas palavras e camaradagem presente. Eu sei do que você está se privando a meu favor e aprecio seus sentimentos. No entanto, não posso aceitar sua segunda ordem. Não posso e não devo aceitá-lo, não só porque pode pertencer apenas a você, pois só você o mereceu, mas também porque fui amplamente recompensado pela atenção e respeito dos camaradas e, consequentemente, não tenho direito de roubá-lo.
As ordens foram instituídas não para aqueles que são conhecidos como é, mas principalmente para pessoas heroicas que são pouco conhecidas e que precisam ser conhecidas de todos.
Além disso, devo dizer-lhe que já tenho duas Ordens. Isso é mais do que se precisa, eu lhe asseguro. Peço desculpas pela demora em responder.”[53]

Não é incomum que os memorialistas se recordem da quantidade de vezes que Stálin recusou qualquer elogio demasiado e desnecessário. Arvo “Poika” Tuominen foi um revolucionário comunista finlandês e mais tarde um jornalista, político e escritor social-democrata que se tornou um crítico do comunismo. Segundo ele, já em sua fase crítica ao comunismo, numa ocasião, “Stalin sentou-se à cabeceira da mesa do banquete, e o resto de nós tomou nossos lugares na ordem determinada pela cotação de troca de prestígio daquele momento”[54]. Todos que estavam ali aguardavam ansiosamente. “Tensamente esperamos para ver o que aconteceria a seguir. Cuidadosos preparativos haviam sido feitos no Politburo e no Presidium do Comintern para longos e completos discursos exaltando as virtudes do grande Stalin, que então se aproximava do apogeu de seu poder”[55]. Assim, “Consideramos natural que essas festividades tivessem sido organizadas para a glorificação de Stalin”[56]. Logo em seguida, “Quatro ou cinco homens do Politburo tinham discursos guardados em seus bolsos, enquanto no Presidium do Comintern havíamos concordado que Dimitrov e Manuilsky expressariam nossos sentimentos mais sinceros”[57]. No decorrer da ocasião “Assim que nos sentamos, Stalin, para nossa surpresa, brindou seu copo pedindo silêncio, levantou-se e falou cerimoniosamente, irônica e sarcasticamente assim”[58]:“Camaradas! Quero propor um brinde ao nosso patriarca, vida e sol, libertador das nações, arquiteto do socialismo, gênio onisciente (ele pronunciou todas as denominações aplicadas a ele naqueles dias) e grande líder de nossos povos, Joseph Vissarionovich Stalin e eu espero que este seja o primeiro e último discurso feito a esse gênio está noite.”[59]


Após a rodada de saudações, um dos presentes a ocasião teve a coragem de fazer a pergunta que todos tinham possivelmente receio. “Depois que as saudações foram trocadas, ele [Leon Feuchtwanger] perguntou se Stalin não estava desgostoso com a fenomenal adoração a Stalin que era praticada em toda a União Soviética”[60].


A pergunta tinha seu sentido lógico. “Os retratos de Stalin estavam por toda parte, e seus elogios eram cantados, mas o auge de tudo era ver, em meio à grande arte antiga da Galeria Tretiakov, a versão de algum pintor de propaganda de Stalin olhando de quase todas as paredes”[61]. Segundo o relato do Finlandês “Stalin ficou absolutamente pasmo e perguntou se era realmente verdade mesmo no Tretiakov”[62]. E o interlocutor disse: “Sim.


Você pode enviar seus homens para dar uma olhada.”[63]


“Isso é estranho”, disse Stalin. “Isso é pura sabotagem.”[64] Sobre essa questão Stálin mostra-se incomodado. “E anotou algo no papel à sua frente, obviamente uma anotação ordenando a remoção de seus retratos daquela galeria”. Não só o incomodo era visível como o ultraje. Assim “Feuchtwanger relatou que Stalin se declarou tão enojado quanto qualquer estrangeiro com as imagens onipresentes e sua adoração. Mas, havia uma explicação para eles: ao longo dos séculos, o povo russo se acostumou a pensar concretamente”. Ao início do texto dissemos que o culto à personalidade é um fenômeno social e objetivo, este relato confirma nossa hipótese. “Coisas como o Estado Soviético, o Partido Comunista e tudo o que lhe diz respeito eram uma abstração para o camponês e o trabalhador, um conceito puramente obscuro, enquanto o camarada Stálin era concreto, um fato tangível”[65]. No passado “continuou Stalin, o povo russo tinha Deus e o czar. Ambos eram concretos, pois até o casebre mais miserável tinha um quadro da Virgem Santa, e um quadro do Czar em um canto e, se os meios permitissem, uma vela acesa diante deles, pelo menos nos feriados”[66]. Assim, “Quando Deus e o Czar foram retirados da esquina, o povo teve que ter algo para substituir, e por isso é preciso ter cuidado com o fato de que o quadro de Stalin foi colocado lá e que uma vela é acesa diante dele se os meios permitirem que tal pessoa existe”[67]. Logo, “ouviram sua voz e o rádio, talvez alguns até o tenham visto com seus próprios olhos e possam atestar sua existência”. Assim, “a idolatria é uma necessidade do ponto de vista do governo e da construção socialista do poder soviético, e por uma causa tão grande deve ser superada a antipatia pessoal”[68]. Não se pode descartar “esta explicação que parece bastante lógica e natural e faz duvidar se ele realmente acreditava em sua semidivindade como seus colegas e amigos mais próximos alegaram posteriormente”[69]. Mas, certamente, não era do agrado pessoal de Stálin de acordo com as evidências.


Outras evidências sugerem que Stálin testava as informações e também os elogios. Em situações mais complexas Stálin conseguia auferir a verdade advinda de Espiões. Stalin levou a sério o memorando alemão vazado por Vasilii M. Zarubin, um mestre espião soviético que de 1934 a 1937 havia trabalhado em Berlim como um infiltrado (ou seja, como um cidadão comum disfarçado). Quando Vasilii retornou temporariamente da Alemanha a Moscou em março de 1937, foi convocado ao Kremlin. A NKVD perguntou-lhe se o memorando de Hitler, que ele havia enviado anteriormente a Moscou, era genuíno: Hitler realmente pretendia lutar contra a União Soviética? Quando Zarubin afirmou que as informações adquiridas eram verdadeiras todos a testaram. A NKVD questionou Zarubin se a informação não era para desorientar, enganar e provocar Moscou. Zarubin afirmou que informações eram autênticas. Zarubin fora lembrado que os ingleses queriam colocar Moscou contra Berlim e que espiões soviéticos descuidados haviam sido enganados por informações falsas. Zarubin se manteve firme e forte[70] na sua convicção.


No dia seguinte, Zarubin foi chamado ao escritório de Stalin. Stalin perguntou-lhe de onde ele havia adquirido o memorando. Quando Zarubin respondeu: “De fontes confiáveis”, Stalin novamente perguntou:


“Você não supõe que esta é uma provocação especificamente preparada para nós?” Zarubin confiava em suas fontes: “Tal pressuposição está excluída, camarada Stalin”. “Você tem certeza disso?” “Sim, camarada Stalin, certamente.” Stalin cogitou outra possibilidade: “Você não pode assumir outra possibilidade – toda essa história relacionada ao memorando de Hitler foi organizada pelos ingleses e chegou até nós por seu trabalho de inteligência”. Zarubin: “Não, camarada Stalin, tal versão também está excluída.” Quando perguntado por Stalin por que ele estava tão confiante, Zarubin explicou-lhe que suas fontes haviam sido testadas e comprovadas não uma ou duas vezes, mas muitas vezes: ele trabalhava com eles há vários anos e nenhuma vez eles tentaram enganá-lo. Zarubin acrescentou que, em sua vida, era uma lei não escrita que antes de enviar uma informação tão importante era preciso testá-la contra outras fontes.23 Stalin elogiou o trabalho de Zarubin e depois falou com Ezhov: Nós não temos inteligência, inteligência real! Digo no sentido amplo da palavra, no sentido de vigilância e também no sentido estrito, no sentido de uma boa organização de inteligência. Nossa inteligência é pobre, fraca, está infestada de espiões. Acontece que, em nosso órgão de inteligência, há todo um grupo de mestres desse negócio, trabalhando para a Alemanha, Japão e Polônia. A inteligência está onde pela primeira vez em vinte anos fomos derrotados.24 Stalin disse a Zarubin que, embora fosse completamente incrível que Hitler arriscasse uma guerra com a União Soviética antes de resolver seus conflitos com os ingleses, a garantia de Zarubin o convenceu de que o memorando de fato existe. Ainda assim, Stalin lembrou a Zarubin que o propósito do memorando era questionável: Hitler poderia perseguir objetivos diferentes. Portanto, foi necessário seguir o ditado popular: “Meça sete vezes e corte uma vez.”25 Parece que Stalin estava bem informado da intenção de Hitler. Stalin entendeu corretamente que, embora não houvesse invasão imediata, a guerra viria e que em 1937 a perspectiva de guerra certamente se tornara muito mais evidente do que antes. Stalin estava pesando todas as possibilidades. É difícil caracterizar a percepção de Stalin como uma “percepção errônea impressionante”. O que impressiona não é sua “percepção errônea”, pelo menos neste caso, mas sua solução para o problema que ele viu (uma guerra iminente que era inevitável). Sua solução foi o Grande Terror, no qual quase um milhão de pessoas foram propositalmente mortas como espiões estrangeiros, derrotistas, elementos antissoviéticos e afins. [71]


Na situação simples, na bajulação excessiva, e na situação complexa, na alta espionagem, Stálin detinha um bom domínio do que era ou não verdade.


“…Stalin era rápido em detectar elogios falsos e o que era genuíno. Ninguém se entregava a lisonjas mais extravagantes do que Zinoviev e Kamenev. Cada vez que eram pegos em traição, explodiam em hinos de louvor para (como disse Zinoviev) “rastejar de volta para o partido de barriga para baixo”[72].


Não se pode ter dúvidas de que Kamenev e Zinoviev “foram até tolos o suficiente para imaginar que, porque Stalin os perdoou vez após vez, eles o estavam enganando com sucesso. Foram necessários os Julgamentos de Traição de 1936 a 1938 para lhes mostrar a verdade real”[73].


Conquest, sem muitas escolhas, vê-se forçado a reconhecer que Stalin não acreditava nessa adulação nem a gerava. “Stálin acreditou (e se sim, em que sentido) em toda essa adulação? Sua filha assim se expressa: 'Ele percebeu a hipocrisia que estava por trás de uma '‘homenagem’' desse tipo?”[74] Certamente que sim, “pois ele era incrivelmente sensível à hipocrisia e impossível de mentir”[75]. Neste ínterim, “Um veterano diplomata e soldado soviético escreveu: '‘qualquer um que imagine que Stalin acredita neste elogio ou o engole em uma disposição egoísta de ser enganado, está redondamente enganado. Stalin não se ilude com isso”[76].


Assim, não devemos duvidar de que Stalin “não podia ser enganado por lisonjas nem ameaças, nem favores nem trapaças”[77].


O Verdadeiro Stálin: o Paradoxo da Luta contra a sabotagem da bajulação


Mas uma questão surge, se o próprio Stálin não gostava desse processo por que ele ocorria e por que Stálin em algumas instâncias o permitia?


A razão principal é que Stálin não era apenas um indivíduo, ele era alguém que veio do povo trabalhador, da classe oprimida, do campesinato, de origem proletário camponesa. E, portanto, ele era um símbolo do sistema soviético.


Paradoxalmente, em vista de sua verdadeira modéstia e natureza despretensiosa, Stalin permite que sua estátua e seu quadro sejam rebocados de um extremo ao outro do país. Abertamente afirmou ele “que a razão pela qual ele não se opõe a todas as fotos, memoriais em sua homenagem e afins, é porque as pessoas estão apenas usando-o como um símbolo do estado soviético, neste sentido, ele não desencorajava tais iniciativas e nem que o mesmo acontecesse com outros bravos revolucionários do proletariado. É sabido por todos, que todas as estátuas do czar foram derrubadas e no lugar delas foram levantados monumentos a líderes comunistas em todo o mundo, ou ainda, foram batizados com nome de revolucionários invenções: Clara Zetkins, revolucionária alemã, por exemplo, foi homenageada com navios a motor na URSS[78].


As questões não se resumiam a Stálin só a honrarias, ele também se ofendia com frequência quando as pessoas argumentavam que ele próprio deveria se proclamar como membro da nova fase do leninismo: o Estalinismo. “Houve uma época em que houve sugestões persistentes de que Moscou fosse renomeada como a cidade de Stalin. Muito persistente! Eu me opus. Kaganovich propôs. Ele disse: Não existe apenas o leninismo, existe o stalinismo também! Stalin ficou indignado”.[79]


Sua filha se lembra que “Ele [Stalin] odiava a homenagem fútil que os georgianos lhe prestavam. Ele só pensava na Geórgia quando era velho”.[80]


Ela afirma no mesmo sentido que Stálin tinha grande mal estar com essa adulação excessiva principalmente quando vinha de uma enorme quantidade de pessoas simultaneamente:


Meu pai tinha lembranças desagradáveis de sua viagem até aqui [estação ferroviária de Kutaisi] porque não suportava ver uma multidão o aplaudindo e gritando “Viva!” Seu rosto se contorcia de aborrecimento cada vez que isso acontecia. Ali, na estação ferroviária de Kutaisi, seus compatriotas georgianos o receberam de tal maneira que ele não conseguiu sair do trem e entrar no carro. As pessoas literalmente se jogaram sob as rodas. Eles rastejaram e gritaram e jogaram flores e carregaram seus filhos nos ombros. Aqui, se em nenhum outro lugar, era de sangue quente, não fingido e sincero. Aqui se em qualquer lugar foi direto do coração, mas meu pai estava com raiva de qualquer maneira. A esta altura, ele estava acostumado a ter as estações vazias e liberadas para sua chegada e as estradas que percorreu estando vazias. Ele não estava acostumado com pessoas gritando e se atirando em seu carro. Ele havia esquecido completamente que sentimentos desse tipo podiam ser sinceros e não fingidos. Fiquei terrivelmente constrangido até pela “homenagem” mais modesta que nos foi prestada quando fomos ao Teatro Bolshoi em Moscou e nos banquetes em homenagem aos 70 anos de meu pai. Sempre tive medo de que meu pai pudesse a qualquer momento dizer algo que jogasse água fria em todos, e também podia ver seu rosto se contorcendo de aborrecimento. “Eles abrem a boca e gritam como tolos”, dizia em tom de desprezo raivoso.[81]


Mesmo o traidor que desertou para o Exterior e tudo tinha para apenas difamar Stálin, nega que sua vida tenha o resumido a um dependente de adulação excessiva. “Embora ele [Stalin] tivesse sido presidente na recente reunião do Partido que resolvera encorajar o culto de sua grandeza, ele agora observava como era errado atribuir os sucessos do país a um único líder!”[82]


Na verdade, Stalin não era um homem vaidoso e obcecado por si mesmo, que precisava ser cercado de bajulação e bajulação. Ele detestava essa adulação em massa de sua pessoa e, ao longo de sua vida, fez grandes esforços para evitar manifestações em sua homenagem. Na verdade, ele só era visto em público nos congressos do partido e em ocasiões cerimoniais na Praça Vermelha, quando era uma figura remota no mausoléu de Lenin. Ele mesmo em certa ocasião disse:


Para Stálin todos estes elogios eram fantasiosos e perfeitamente desmedidos, por isto, inúteis.


Em contradição, Medvedv se vê obrigado a reconhecer: Stalin chegou a denunciar o culto à personalidade. Em 1932, quando a Sociedade dos Antigos Bolcheviques pediu permissão para abrir uma exposição de documentos sobre sua vida e atividade, ele recusou. “Sou contra porque tal empreendimento leva ao estabelecimento de um '‘culto da personalidade’, que é prejudicial e incompatível com o espírito do partido.”… de devoção a Stalin ou a qualquer indivíduo. “Isso não é um princípio bolchevique. Tenha devoção à classe trabalhadora, ao seu partido, ao seu estado, mas não confunda isso com devoção aos indivíduos, que é um brinquedo fútil e desnecessário da intelectualidade.”…Em um discurso de 1928, Stalin pronunciou as seguintes palavras…


“O fato de que os chefes que chegam ao topo se separam das massas, enquanto as massas começam a olhar para eles de baixo, sem ousar criticá-los – esse fato não pode deixar de criar um certo perigo de isolamento e estranhamento entre os chefes e as massas. Esse perigo pode chegar ao ponto em que os chefes se convençam e se considerem infalíveis. E de que adianta os líderes no topo se tornarem vaidosos e começarem a desprezar as massas de cima? Claramente, nada além de desastre para o partido pode vir disso.”[83]

Uma testemunha interessante que viu Stálin se opor ao culto a sua personalidade foi Lion Feuchtwanger, já citado em outro relato memorialista. De novembro de 1936 a fevereiro de 1937, ele viajou para a União Soviética. Em seu livro Moscou em 1937, ele elogiou a vida sob a era Joseph Stalin. Feuchtwanger também defendeu o Grande Expurgo e os julgamentos de moscou que então estavam ocorrendo contra trotskistas reais e imaginários e inimigos do Estado. A atitude amigável de Feuchtwanger em relação a Stalin mais tarde atrasou sua naturalização nos Estados Unidos. Segundo Lion. “É manifestamente cansativo para Stalin ser idolatrado como ele é, e de vez em quando ele zomba disso.”[84] Segundo Lion conta em seu livro:


“Reza a história que, num pequeno jantar que ofereceu no dia de Ano Novo a um círculo de amigos íntimos, ergueu o copo e disse: Bebo à saúde do incomparável líder do povo, do grande gênio camarada Stalin. Aí, amigos; e essa é a última vez que serei brindado aqui este ano.”[85]


De todos os homens que conheço que têm poder, Stalin é o mais despretensioso. Falei-lhe francamente sobre o culto vulgar e excessivo que se lhe fazia, e ele respondeu com igual franqueza. Ele lamentava, disse ele, o tempo que tinha que gastar em uma capacidade representativa, e isso é fácil de acreditar, pois Stalin é, como muitos exemplos bem documentados me provaram, prodigiosamente diligente e atento a todos os detalhes, de modo que ele realmente não tem tempo para as coisas e bobagens de elogios e adoração supérfluos. Em média, ele não permite que seja respondido mais do que um em cada cem telegramas de homenagem que recebe. Ele mesmo é extremamente objetivo, quase ao ponto de incivilidade, e recebe uma objetividade semelhante da pessoa com quem está falando.


Ele encolhe os ombros diante da vulgaridade da adoração imoderada de sua pessoa. Ele desculpa seus camponeses e operários alegando que eles tiveram muito que fazer para poder adquirir bom gosto também, e ri um pouco das centenas de milhares de retratos enormemente ampliados de um homem de bigode que dançam diante de seus olhos nas manifestações.


Ele acha possível até que os “destruidores” estejam por trás disso na tentativa de desacreditá-lo. “Um tolo servil”, disse ele irritado, “faz mais mal do que 100 inimigos.” Se tolera todos os aplausos, explicou, é porque conhece a alegria ingênua que o alvoroço das festas proporciona a quem as organiza, e está consciente de que não se destina a ele pessoalmente, mas ao representante do princípio de que o estabelecimento da economia socialista na União Soviética é mais importante do que a revolução permanente.”[86]



Segundo Getty, o próprio Stálin se recusou associar amplamente com Yezhov, principalmente após o início de 1936, quando o chamado “grande terror” sequer havia começado. Stálin demonstrou ao longo do tempo estar insatisfeito com os rumos da NKVD. Getty não exime Stálin de problemas na Ezhovscina[87], no entanto, ele deixa claro que


Embora as fontes sobre esse período sejam fracas e vagas, há sinais de que Stalin pode não ter ficado inteiramente satisfeito com outros eventos em meados de 1937. Ele certamente favoreceu uma ofensiva contra membros desobedientes, suspeitos e corruptos da burocracia, mas não é certo que ele se sentisse confortável com os excessos que o acompanhavam. Por alguma razão, ele parece ter tentado reduzir o culto do NKVD, colocando uma certa distância entre ele e os esforços radicais da polícia.41


De fato, a segunda metade de 1937 viu o crescimento de um culto a Ezhov NKVD na imprensa. Um aumento dramático na publicidade do NKVD que inundou a imprensa nacional incluiu poemas sobre Ezhov e a polícia, artigos sobre técnicas de espionagem e fotografias de policiais. Essa onda de glorificação incluiu relatos frequentes de cerimônias em homenagem aos funcionários do NKVD. Somente no mês de julho, oficiais do NKVD receberam pelo menos 40 Ordens de Lenin e mais de 63 outras condecorações, e uma cidade foi renomeada para Ezhov (Sulimov tornou-se Ezhovo-Cherkessk). Os “serviços” de Ezhov em desmascarar as tramas de Tukhachevski e outros funcionários. Em outubro, Ezhov tornou-se candidato a membro do Politburo.4 Nas duas primeiras semanas de dezembro, no entanto, membros do Politburo fizeram discursos altamente divulgados em conexão com suas nomeações ao Soviete Supremo. Esses discursos são particularmente interessantes por suas atitudes em relação à polícia. Dos treze discursos publicados, apenas sete mencionaram as realizações do NKVD.44 Discursos de líderes de alto escalão Stalin, Molotov, Zhdanov, Voroshilov, Mikoian e Kalinin não fizeram nenhuma menção à polícia.45[88]


O Combate ao culto da NKVD foi real. O chefe da NKVD tentou reverter as coisas e “com o mesmo objetivo de se proteger, iniciou o plano de renomear Moscou para Stalinodar no início de 1938. Esse objetivo inspirou um apelo de todas as categorias de trabalhadores para mudar o nome de Moscou. A questão foi levantada em uma sessão do Presidium do Soviete Supremo da URSS. Stalin, no entanto, reagiu totalmente negativamente a essa ideia e, por esse motivo, a cidade permaneceu Moscou”[89]. Glorificar Stálin fazia parte de um processo prático de se esconder na realidade a má relação com ele.


Mesmo após a quebra de inúmeros recordes positivos, Stálin não admitia bajulações e demonstrações exageradas de apoio e idolatria.


Israel Maurice Edelman um político e romancista do Partido Trabalhista britânico nascido no País de Gales que representou os distritos eleitorais de Coventry na Câmara dos Comuns por mais de 30 anos, que escreveu entre outras coisas mais sobre a vida de Stálin, ele também tinha uma visão de que Stálin era áspero ao culto à personalidade.


O entusiasmo por um líder é um efeito característico da liderança bem-sucedida. A liderança de Stalin durante os últimos nove anos produziu nele uma onda de entusiasmo porque seus triunfos foram espetaculares ao criar, por exemplo, uma indústria pesada recorde e elevar progressivamente o padrão de vida, superou em força acumulada até mesmo aquela sentida para Lênin. Os parasitas da Revolução, os candidatos a lugares e os burocratas às vezes, por sua lisonja motivada, excederam a razão e a justificação. Por essa razão, é ainda mais importante distinguir entre tais lisonjas espúrias, que muitos confundiram com moeda entre as massas e Stalin, e os elogios genuínos que as massas prodigalizam a ele. Se um crítico de jornal pode se referir a um jogador de tênis, boxeador, ator ou bufão como ótimo, não é razoável que milhões de pessoas que apoiam e se beneficiam da política de Stalin se refiram a ele como “Bolshoi Stalin” – o grande Stalin? O próprio Stalin tem repetidamente depreciado o elogio complacente de si mesmo e insistido em uma abordagem crítica de todas as questões de política e administração.[90]



Volkogonov foi obrigado a reconhecer também: “Em agosto de 1931,… houve tentativas de imortalizar Stalin em obras de biografia política. Há uma carta no arquivo de Stalin de Yaroslavski [para Stalin], que inclui o seguinte: Quando ele estava saindo hoje, Ordjonikidze ligou para dizer que havia falado com você [Stalin] sobre o livro chamado Stalin que eu [Yaroslavski] quero escrever…” O costumeiro comentário a lápis de Stalin na nota diz: “Camarada Yaroslavski, sou contra. Acho que ainda não chegou a hora das biografias.”[91]


Stálin também foi reconhecido não apenas como um recusador de prêmios, e por algozes, neste sentido, Losurdo e Volkogonov concordam:


Ele [Stalin] era em geral meticuloso com prêmios. Por exemplo, em 1949, ele não concordou com a sugestão de Malenkov de que seu 70º aniversário fosse marcado com a concessão de seu segundo Herói Estrela Dourada da União Soviética. Ele decidiu que bastava depois de receber a Ordem da Vitória e parou o fluxo de condecorações… Ao todo, Stalin tinha tantas condecorações quanto, digamos, Mekhlis, e quatro ou cinco vezes menos que Brezhnev. Ele era igualmente meticuloso com a concessão indiscriminada de medalhas a outros e cancelaria as condecorações se as considerasse imerecidas. “As medalhas são para os combatentes que se destacam na batalha com os agressores alemães, e não devem ser distribuídas a quem vier”, escreveu ele ao comandante-chefe da 1ª frente do Báltico em 16 de novembro de 1943.[92]

No decorrer do aniversário de 70 anos de Stalin um mesmo incidente aconteceu. Ele sabia que do Politburo para baixo, todo mundo estava fazendo arranjos dos mais arrojados. Ele, compreendendo a extensão do culto que se prostava em sua frente, antecipou-se e chamou a atenção de Malenkov e disse:


“'Nem pense em me presentear com outra estrela!'


Mas, camarada Stálin', protestou Malenkov, '‘para um jubileu como este, o povo não vai entender…'


— Deixe o povo fora disso. Não tenho intenção de discutir sobre isso. Não insista!'


A menção à '‘estrela’' não foi acidental. Após a Parada da Vitória e a recepção em homenagem aos comandantes da frente em junho de 1945, um grupo de marechais sugeriu a Molotov e Malenkov que assinalassem a '‘extraordinária contribuição do líder’' conferindo-lhe a mais alta condecoração do país, o título de Herói da União Soviética. Referiam-se ao fato de que, em seu aniversário de 60 anos, Stalin recebeu o título de Herói do Trabalho Socialista e que durante a guerra recebeu três condecorações, a Ordem da Vitória nº 3 – números um e dois, tendo ido para Jukov e Tolbukhin. – o Suvorov 1ª Classe, e a Bandeira Vermelha, que lhe foi dada '‘para o serviço no Exército Vermelho'.


Durante o dia e meio seguinte, Molotov e Malenkov debateram o assunto com seus colegas e em 26 de junho dois decretos foram emitidos pelo Supremo Soviete ordenando que o título de Herói da União Soviética e uma segunda Ordem da Vitória fossem conferidos ao Marechal do Exército. União Soviética, Stálin. No mesmo dia, foi criado o título de Generalíssimo da União Soviética e no dia 27 foi conferido a Stalin. Esta foi provavelmente a única ocasião em que eles desobedeceram seu líder. Naquela manhã, antes do café da manhã, Stalin desdobrou seu exemplar do Pravda como de costume e ficou furioso. Eles não o haviam consultado! Eles não tinham perguntado a ele!


— Diga o que quiser — disse Stalin conclusivamente —, não aceitarei a condecoração. Você está me ouvindo, eu não vou!'


Os camaradas tentaram mais duas ou três vezes convencê-lo, até recrutando Poskrebyshev e Vlasik em sua causa. Mas em vão…. Finalmente, às vésperas das comemorações do 1º de maio de 1950, Shvernik conseguiu entregar a Stalin as medalhas que recebera em 1945, mais uma Ordem de Lenin por seu 70º aniversário em 1949.


“Você está se entregando a um velho”, Stalin murmurou. — Não vai fazer nada pela minha saúde.[93]


O Politburo resolveu comemorar o aniversário de Stalin mesmo diante de todo o processo de repulsa que ele tinha com a ocasião.


Shvernik foi nomeado para cuidar das festividades, e Stálin não estava nem um pouco animado para tal ocasião….


Os organizadores também prepararam uma surpresa na forma do Prêmio Stalin, cujo custo foi calculado em 7 rublos 64 copeques por medalha, enquanto a quantidade total de metal para um milhão de medalhas foi calculada em 24 toneladas de bronze e seis toneladas de níquel. Também haveria um Prêmio Internacional da Paz Stalin. Treze versões da medalha foram submetidas à aprovação de Stalin pelos artistas. Tudo estava pronto para a apresentação desta condecoração tão prestigiosa, quando no último momento Stalin se firmou, apesar de ter dado sua aprovação preliminar da ideia. Tendo examinado todos os projetos e lido todos os projetos de decretos (enquanto seus camaradas de armas esperavam na esperança de ser o primeiro a receber o novo prêmio), Stalin de repente declarou: '‘eu só aprovarei o decreto sobre o prêmio internacional.' Depois de uma pausa, acrescentou: “E ordens desse tipo só devem ser dadas postumamente.”


Quase uma hora antes do início da cerimônia, o público cuidadosamente selecionado e exibido lotou o Teatro Bolshoi. Meia hora depois, Stalin entrou na sala reservada para o Presidium (como o Politburo agora era chamado), onde trocou saudações com luminares do mundo comunista como Togliatti, Mao Tse-tung, Walter Ulbricht, Dolores Ibarruri e Rakosi, entre outros. outras.


Quando o Presidium subiu ao palco, o público não se conteve. No dia anterior, Stalin havia alterado o plano de assentos de Malenkov, que o colocou [Stalin] no centro, mas ele comprometeu seu costume de sentar-se “modestamente” na segunda fila em todas essas reuniões e colocou-se bem à direita de o presidente, colocando Mao à sua direita e Khrushchev à sua esquerda.[94]


Houve também um momento próximo a morte de Stálin em que ele se incomodou com os Georgianos. No decorrer de uma visita em 1952, sua filha descreve o incidente que também tinha suas relações com oferendas e cultos.


A dureza aberta e a confiança dos georgianos irritam meu pai... quando durante sua viagem pela Geórgia em 1952 ele foi encontrado nas estradas por aldeias inteiras. Ele não conseguia ter uma boa conversa com aqueles camponeses sinceros – talvez já estivesse com medo de tudo. Ele se recusava a aceitar suas oferendas, seus cumprimentos e, dando meia-volta, os deixaria para trás....Nele tudo era ao contrário, e o cálculo frio, a dissimulação, um realismo sóbrio e cínico se tornaram mais fortes nele com os anos.[95] Só meu pai [em comparação com outros membros do Politburo] tinha o hábito de dar aos museus os inúmeros presentes enviados pelos trabalhadores aos seus líderes[96].


Sabemos que Walter Laqueur nada tem de defensor de Stálin, ao contrário, deste que vos comunica. Ele diz que “Em algumas ocasiões, o próprio Stalin criticou levemente os elogios excessivos que lhe eram feitos como impróprios para a tradição bolchevique”[[97]. Com base em memórias do guarda costas de Stálin e dos que serviam a sua segurança, ele continua:


“Pelas histórias de seus guardas, Stalin parece ter sido uma pessoa discreta e paternal. Em várias ocasiões, ele protestou com raiva por ter assistido a documentários que o mostravam em situações que nunca haviam ocorrido. Quando Beria e Malenkov argumentaram que as cenas eram necessárias para a história”, ele se opôs a elas, dizendo: “Deixe-me em paz com essa história”.... O livro de Beria sobre a história do bolchevismo no Cáucaso, que elogiava Stalin, não foi escrito (como geralmente se acredita) a pedido de Stalin; em vez disso, foi escrito por iniciativa de Beria, porque Beria queria agradar Stalin.”[98]

Para quem não sabe, o próprio segurança de Stálin escreveu um livro de memórias bastante interessante sobre o período em que esteve com Stálin. E o fez justamente na era da abertura de arquivos soviéticos. O Relato dele é bastante verossímil aos arquivos abertos a partir dos anos 1990. Sobre a questão do Culto por exemplo, há várias passagens que são úteis.


O Comitê Central decidiu conceder a Stalin a medalha de Herói Socialista. Stalin apreciou essa honra, pois estava tão envolvido em todos os planos de cinco anos. O Politburo também queria dar a ele a medalha de Herói da União Soviética por seu papel na Grande Guerra Patriótica. Quando Stalin ouviu isso de Tukov, ele chamou isso de vergonhoso:


Isso é bajulação de bobos! Um prêmio tão alto deve ser dado apenas aos soldados que mostraram heroísmo no campo de batalha! Nunca estive na linha de frente com um rifle nas mãos e não demonstrei nenhum heroísmo!
Ao descobrir os sentimentos pouco cerimoniosos de Stalin em relação a isso, Malenkov foi eleito para abordar Stalin sobre isso ... mas sendo muito cauteloso, pediu a Poskrebyshev que fizesse isso. Poskrebyshev também estava com medo, pois sabia que Stalin não aprovava tal “glorificação cerimoniosa”. Ele atribuiu essa tarefa a Orlov, o comandante dos guarda-costas pessoais de Stalin... deixe-o fazer isso. Orlov sabia melhor do que isso... a medalha nunca foi dada e Stalin nunca a aceitou.[99]

Uma ocasião no decorrer da Guerra, para além daquelas já citadas aqui por Zukhov, tem lugar pelo relato de Aleksei, o antigo guarda-costas de Stálin, sobre os trajes de Stálin no decorrer da comemoração da vitória sobre o nazifascismo.


Antes da Parada da Vitória em 1945, o Comitê Central decidiu fazer Stalin feliz, projetando-lhe um novo uniforme orientado para o desfile como Generalíssimo. Khalev, agora chefe dos guarda-costas, recebeu a tarefa de desenhar e costurar três uniformes diferentes. Ele conseguiu um soldado jovem e bem constituído para modelar o uniforme e o mostrou ao Comitê Central reunido. Stalin, vindo de seu escritório, vendo esse jovem atlético em uniforme de general com faixas, dragonas, galões dourados e botões dourados perguntou:
O que esse pavão está fazendo aqui?
Camarada Stálin, estes são três desenhos propostos para o seu uniforme para o Desfile da Vitória, que você usará.
Stalin recusou todos eles, mandou-os embora. Ele recebeu o desfile em seu uniforme habitual.[100]

Até em uma ocasião mais simples, num momento de lazer com seu guarda-costas, Aleksei afirmou que Stálin nunca quis brindar a si próprio ou a sua saúde, mas sim a saúde do trabalhador que mais pescava no rio em que estavam: “Stalin adorava pescar e havia muitos rios lá [o lago de Ritsa], então em algum tempo livre, conseguimos pescar e cozinhar, juntos, como uma família, não como chefe da URSS e seus guarda-costas. Ele nunca quis que levássemos uma taça de vinho para sua saúde. Neste caso, ele propôs que deveríamos fazer um brinde à saúde de Elizarov, aquele que mais pescava”[101].


Assim, não é impossível dizer que, “em particular, por exemplo, ele [Stalin] repetidamente demonstrou desdém pela adulação. Em 1930, por exemplo, ele terminou uma carta a Shatunovsky, um velho bolchevique, dizendo: Você fala de sua '‘devoção’' para mim. Talvez essa frase tenha escapado acidentalmente. Talvez. Mas se não for uma frase acidental, aconselho-o a deixar de lado o '‘princípio’' da devoção às pessoas. Não é a maneira bolchevique. Tenha devoção à classe trabalhadora, seu partido, seu estado. Isso é necessário e bom. Mas não misture com devoção às pessoas, essa ninharia de intelectuais vazia e desnecessária.”[102] [103].


Era natural “escritores e artistas competirem em idolatrá-lo sem reservas. Mas a admiração da multidão o irritava”[104].


Pouco tempo depois, parece que irritar Stálin com esta questão se tornou uma constante. “Três dias depois do desfile [em junho de 1945], o Pravda anunciou a nova patente e as medalhas de Stalin. Ele ficou furioso e convocou Molotov, Malenkov, Beria, Zhdanov e o velho Kalinin, que já estava extremamente doente com câncer de estômago. Eu não liderei regimentos no campo…. Estou recusando a estrela como imerecida.” Eles discutiram, mas ele insistiu. “Diga o que quiser. Eu não vou aceitar as decorações.”[105]


A questão foi tão longe que, segundo o relato que pode não ser muito creditável de Montefiore, até conspirações para aceitar o culto era feito em torno de Stálin. Por alguma razão que ainda não está evidente, o partido e seus membros faziam isso mesmo sabendo que o resultado seria ineficiente. O que sugere de algum modo em se tratar de uma atividade “jocosa”.…Malenkov e Beria ficaram com a estrela dourada do Herói da União Soviética: como fazê-lo aceitar? Aqui, a corte de Stalin se dissolve em uma farsa de ópera bufê na qual o rabugento Generalíssimo foi virtualmente perseguido em Moscou por cortesãos que tentavam colocar a medalha nele. Primeiro Malenkov concordou em tentar, mas Stalin não quis ouvir. Em seguida, ele recrutou Poskrebyshev, que aceitou a missão, mas desistiu quando Stalin resistiu energicamente. Beria e Malenkov tentaram Vlasik, mas ele também falhou. Eles decidiram que era melhor emboscar Stalin quando ele estava fazendo jardinagem porque ele amava suas rosas e limoeiros, então eles persuadiram Orlov, o comandante de Kuntsevo, a apresentá-lo. Quando Stalin pediu que as tesouras de podar suas amadas rosas, Orlov trouxe as tesouras de podar, mas manteve a estrela atrás das costas, imaginando o que fazer com ela.


“O que você está escondendo?” perguntou Stálin. “Deixe-me ver.” Orlov cautelosamente trouxe a estrela. Stalin o amaldiçoou: “Devolva para aqueles que inventaram esse absurdo!”[106]


No entanto, a bajulação não se ligava apenas ao partido, no âmbito militar era corriqueira essa prática. E com o povo já mencionamos que também. Duranty é bastante claro:


Há pouca dúvida de que essa adoração de Stalin – pois é isso que significa – poderia ser interrompida por ele se assim o desejasse, mas isso não significa necessariamente que ele goste disso. Na verdade, em mais de uma ocasião, ele mostrou desagrado com a bajulação excessiva. O bolchevique (o mensal oficial do Partido) em março de 1947, noticiou o comentário de Stalin sobre uma história militar escrita por um certo coronel Razin, na qual o líder soviético disse que “os panegíricos” (de si mesmo) ” irritam os ouvidos” e “é realmente desconfortável lê-los.” O New York Times, 9 de março de 1947, relata que Stalin havia usado recentemente um lápis azul em uma biografia de Lenin na qual ele (Stalin) foi excessivamente elogiado. Ele deixou apenas uma frase sobre si mesmo, que “ele foi e continua sendo um leal discípulo de Lenin”[107].


A obra de Stálin não parece estar em deformidade com os arquivos soviéticos abertos recentemente. A expressão de Stálin neste ponto era sincera.


[Em resposta aos ferroviários de Tíflis, em 8 de junho de 1926, Stalin declarou] Devo dizer em plena consciência, camaradas, que não mereço a metade das lisonjas que aqui foram ditas a meu respeito. Sou, ao que parece, um herói da Revolução de Outubro, o líder do Partido Comunista da União Soviética, o líder da Internacional Comunista, um lendário cavaleiro guerreiro e tudo o mais. Isso é um absurdo, camaradas, e um exagero totalmente desnecessário. É o tipo de coisa que geralmente é dita ao lado do túmulo de um revolucionário falecido. Mas ainda não tenho intenção de morrer.[108]
…Eu realmente era, e ainda sou, um dos alunos dos operários avançados das oficinas ferroviárias de Tíflis. [109] [110]
E quem é Stálin? Stalin é apenas uma figura menor.[111]
“Há indicações, no entanto, de que ele acha as homenagens a ele, que são floreios oratórios regulamentares na Rússia, um tanto desagradáveis”[112]. Em um discurso aos trabalhadores de Tíflis acima, ele aludiu a isso de maneira meio zombeteira”[113]
“Suas felicitações e saudações eu atribuo ao grande partido da classe trabalhadora que me gerou e me criou à sua própria imagem e semelhança.”[114]

Em uma carta de 30 de dezembro de 1926 a Ksenofontov Stalin disse:


Eu me oponho a você se chamar de “um discípulo de Lenin e Stalin”. Eu não tenho discípulos. Chame-se um discípulo de Lenin; você tem o direito de fazê-lo, apesar das críticas de Shatskin. Mas você não tem motivos para se chamar discípulo de um discípulo de Lênin. Não é verdade. Está fora do lugar.[115]

Sobre a publicação oficial das obras de Stálin é interessante observar que ele “pediu limites para os elogios [sendo amontoados sobre ele] e murmurou para seus propagandistas que eles os estavam ultrapassando. Em 1945, discutindo planos para o primeiro volume de suas obras, ele propôs restringir a tiragem a 30.000 exemplares por causa da escassez de papel. Outros participantes da reunião conseguiram que ele concordasse com 300.000 exemplares, argumentando que a demanda do público seria enorme”.[116]


Ele tanto amava quanto detestava excessos de lisonja. Por tais razões, ele optou por colocar limites técnicos em sua iconografia em maior medida do que a maioria dos governantes estrangeiros contemporâneos.[117]


Da posse de todas essas fontes, citações e historiografia que envolve declarações da historiografia revisionista da sovietologia, das contradições entre os autores da escola totalitária, confrontados com memorialistas e testemunhas da era Stálin, podemos dizer, sem medo algum, a ideia de que Stálin realizava um culto a sua pessoa é completamente falsa. E podemos dizer que a conclusão de Hohxa sobre este assunto permanece integralmente válida:


Os Khrushchevistas, liderados pelo vosso mestre, condenaram o culto de Stalin para encobrir seus crimes subsequentes contra a União Soviética e o socialismo elevaram o culto de Khrushchev às alturas. Esses altos funcionários do partido e do estado soviético atribuíam a Stalin a brutalidade, a perfídia astuta e a baixeza de caráter, as prisões e assassinatos que eles mesmos praticavam e que eram uma segunda natureza para eles. Enquanto Stalin estava vivo, eram precisamente eles que cantavam hinos de louvor a ele para encobrir seu carreirismo e seus objetivos e ações dissimulados.[118]

[1] Losurdo, D. Stálin: história crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro, Revan. Capitulo 1. [2] Idem. Ibidem. [3] Idem. IbIdem. [4] Basseches, Nikolaus. Stálin . Londres, Nova Iorque: Staples Press, 1952, p. 237 [5] Idem. Ibidem. [6] Idem. Ibidem. [7] Idem. Ibidem. [8] Idem. Ibidem. [9] Idem. Ibidem. [10] Idem. Ibidem [11] Idem. Ibidem. [12] Idem. Ibidem. [13] Idem. Ibidem. [14] Idem. Ibidem. [15] Idem. Ibidem. [16] Idem. Ibidem. [17] Idem. Ibidem. [18] Idem. Ibidem. [19] Idem. Ibidem. [20] Idem. Ibidem. [21] Idem. Ibidem. [22] Idem. Ibidem. [23] Alliluyeva, Svetlana. Vinte Cartas a um Amigo. Nova Iorque: Harper & Row, 1967, p. 63 [24] Idem. Ibidem. [25] Volkogonov, Dmitri. Stalin: Triunfo e Tragédia. Nova York: Grove Weidenfeld, 1991, p. 201 [26] Idem. Ibidem. [27] IDEM. IBIDEM. [28] Idem. Pag 241. [29] Idem. Ibidem. [30] Getty, J, A. A Origem dos Grandes expurgos. Cambridge, N. Y..: Cambridge Univ. Press, 1985, p. 205. https://leftypol.org/edu/src/1632393420879-4.pdf. [31] Idem. Ibidem. Cabe lembrar que mesmo membros da escola do Totalitarismo entendem essa situação de modo semelhante, embora entrem em contradição em seus estudos. Em 1937, quando a Editora Infantil (Detgiz) produziu um livro de “Histórias sobre a infância de Stalin” e o enviou a Stalin para aprovação, ele enviou a Detgiz a seguinte carta: “16 de fevereiro de 1938. Sou fortemente contra a publicação de “Histórias sobre a infância de Stalin”. O livro está repleto de distorções factuais, inverdades, exageros e elogios imerecidos. O autor foi enganado por amantes de contos de fadas – por mentirosos (talvez “mentirosos honestos”) e servidores do tempo. Uma pena para o autor, mas os fatos continuam sendo fatos. Mas isso não é o principal. O principal é que o livro tem a tendência de inculcar no povo soviético (e no povo em geral) o culto da personalidade de chefes e heróis infalíveis. Isso é perigoso, prejudicial. A teoria dos “heróis e da multidão” não é bolchevique, mas socialista-revolucionária. Os socialistas-revolucionários dizem que “os heróis fazem um povo, transformam-no de uma multidão em um povo”. “As pessoas fazem heróis”, respondem os bolcheviques. O livro é matéria-prima para o moinho dos socialistas-revolucionários; prejudicará nossa causa geral bolchevique. Meu conselho é queimar o livro. Assinado J. Stalin. Ver: Medvedev, Roy. Let the History Judge. Nova York: Columbia University Press, 1989, p. 818 [32] Idem. Ibidem. [33] Idem. PAG. 205-206 [34] Rittersporn, Gabor. Stalinist Simplifications and Soviet Complications, 1933-1953. New York: Harwood Academic Publishers, c1991, p. 208-209. [35] Idem. Ibidem. [36] Idem. Ibidem. [37] Idem. Ibidem. [38] Idem. Ibidem. [39] Idem. Ibidem. [40] Idem. Ibidem. [41] Zhukov, Georgii. Memórias do Marechal Zhukov. Londres: Cape, 1971, p. 652-653. [42] Idem, Ibidem. [43] Idem. Pag. 668. [44] McNeal, Robert, Stalin: Man and Governament. Nova York: New York University Press, 1988, p. 227 [45] Idem. Pag. 45. [46] Idem. Ibidem. [47] Idem. Ibidem. [48] Idem. Ibidem. [49] Idem. Ibidem. [50] Service, Robert. Stálin. Cambridge, Massachusetts: Belknap Press Harvard Univ. 2005, pág. 280 [51] Stálin, Josef. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Casa, 1952, Vol. 13, pág. 109 [52] “Mesmo no período de Stálin havia liderança coletiva. A ideia ocidental de um ditador dentro da configuração comunista é exagerada”. Ver Importante relatório da cia em: <https://traduagindo.com/2021/04/25/comentarios-da-cia-sobre-a-mudanca-na-lideranca-sovietica/?fbclid=IwAR3ZWoHbDPjVVmKFoHUHTOPoGQM0KllP8Cee422WddaaE-DXJ1agpqTGQsw> [53] Stálin, Josef. works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Casa, 1952, Vol. 13, pág. 241 [54] Tuominen, Arvo, The Bells of the Kremlin: Hanover: University Press of New England, 1983, p. 162 [55] Idem. Ibidem. [56] Idem. Ibidem. [57] Idem. Ibidem. [58] Idem. Ibidem. [59] Idem. Ibidem. [60] Tuominen, Arvo, The Bells of the Kremlin: Hanover: University Press of New England, 1983, p. 164. [61] Idem. Ibidem. [62] Idem. Ibidem. [63] Idem. Ibidem. [64] Idem. Ibidem. [65] Idem. Ibidem. [66] Idem. Ibidem. [67] Idem. Ibidem. [68] Idem. Ibidem. [69] Idem. Ibidem. [70] KURAMYA, H. STALIN’S GREAT TERROR AND ESPIONAGE. Disponível em:< https://www.ucis.pitt.edu/nceeer/2009_824-09_Kuromiya.pdf>. Acesso 1 de dezembro de 2021. Pag. 11-12. Ou 15 do PDF. [71] Idem. Ibidem. [72] Cole, David M. Josef Stalin; Man of Steel. Londres, Nova York: Rich & Cowan, 1942, p. 92 [73] Conquest, Robert. Stalin: Breaker of Nations. Nova York, Nova York: Viking, 1991, p. 213. [74] Idem. Ibidem. [75] Idem. Ibidem. [76] Idem. Ibidem. [77] Lyons, Eugene. Attribution in Utopia. New York: Harcourt, Brace and Company, c1937, p. 263. [78] ZUKHOV, Y. UM OUTRO STALIN. Disponível em: < https://stalinism.ru/elektronnaya-biblioteka/inoy-stalin.html?start=4>. Acesso em 20 de novembro de 2020. [79] Idem. P. 166. [80] Alliluyeva, Svetlana. Vinte Cartas a um Amigo. Nova York: Harper & Row, 1967, p. 67. [81] Idem. 201. [82] Tokaev, Grigori. Camarada X. Londres: Harvill Press, 1956, p. 34 [83] Medvedev, Roy. Let The history judge. Nova York: Columbia University Press, 1989, p. 850 [84] Feuchtwanger, Lion. Moscou, 1937. Nova York: The Viking Press, 1937, p. 75 [85] Idem. Ibidem. [86] Idem. Pag. 76-77. [87] Getty, J, A. A Origem dos Grandes expurgos. Cambridge, N. Y..: Cambridge Univ. Press, 1985, p. 172. Acesso em: https://leftypol.org/edu/src/1632393420879-4.pdf. [88] Idem. Pag. 182. [89] Getty e Manning. Stalinist Terror. Cambridge, NY: Cambridge University Press, 1993, p. 37. Outra versão desta mesma história: Algum título que você [Koniev sugeriu a Molotov e Malenkov que Stalin fosse chamado de Generalíssimo] inventou! Chiang Kai-shek é um Generalíssimo. Franco é um Generalíssimo – encontre a instituição em que me encontro!” Kaganovich, orgulhoso inventor do "stalinismo", também sugeriu renomear Moscou como Stalinodar, uma ideia que havia sido sugerida pela primeira vez por Yezhov em 1938. Beria o apoiou. Este simplesmente “indignado” Stalin: “Para que eu preciso disso?” Montefiore, Sebag. Stalin: A Corte do Czar Vermelho. Nova York: Knopf, 2004, p. 494 [90] Edelman, Maurice. Justice GPU. Londres: G. Allen & Unwin, ltd., 1938, p. 135 [91] Volkogonov, Dmitri. Stalin: Triunfo e Tragédia. Nova York: Grove Weidenfeld, 1991, p. 191 [92] Idem. 477. [93] Idem. Pag. 525-526. [94] Idem. Pag. 527-528. [95] Alliluyeva, Svetlana. Apenas um ano. Nova York: Harper & Row, 1969, p. 360. [96] Alliluyeva, Svetlana. Apenas um ano. Nova York: Harper & Row, 1969, p. 401. [97] LAQUEUR, Walter. Stalin: As Revelações da Glasnost. Nova York: Scribner's, c1990, p. 16 [98] LAQUEUR, Walter. Stalin: As Revelações da Glasnost. Nova York: Scribner's, c1990, p. 149 [99] Rybin, Aleksei. Ao lado de Stalin: notas de um guarda-costas. Toronto: Northstar Compass Journal, 1996, p. 48. [100] Idem. 49 [101] Idem. 53. [102] Tucker, Roberto. Stalin no poder: 1929-1941. Nova York: Norton, 1990, p. 146 [103] Stálin, Josef. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Home, 1952, Vol. 13, pág. 20. [104] Béria, S. Beria, meu pai: dentro do Kremlin de Stalin. Londres: Duckworth, 2001, p. 148. [105] Montefiore, Sebag. Stalin: A Corte do Czar Vermelho. Nova York: Knopf, 2004, p. 495 [106] Idem. Ibidem. [107] Duranty, Walter. Stalin & Co. Nova York: W. Sloane Associates, 1949, p. 50 [108] Stálin, Josef. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Casa, 1952, Vol. 13, pág. 241. Davis, Jerônimo. Atrás do poder soviético. Nova York, NY: The Readers' Press, Inc., c1946, p. 12. Stálin, Josef. Stálin Kampf. Nova York: Howell, Soskin & Company, c1940, p. 3. [109] Stálin, Josef. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. home, 1952, Vol. 8, pág. 182 [110] Ulam, Adam. Stálin The Man and His Era. Nova York: Viking Press, 1973, p. 288 [111] Stálin, Josef. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Casa, 1952, Vol. 10, pág. 176 [112] Davis, Jerônimo. Atrás do poder soviético. Nova York, NY: The Readers' Press, Inc., c1946, p. 12. [113] Idem. Ibidem. [114] Stálin, José. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Casa, 1952, Vol. 12, pág. 146 [115] Stálin, José. Works. Moscou: Pub de Línguas Estrangeiras. Casa, 1952, Vol. 9, pág. 156 [116] Service, Robert. Stálin. Cambridge, Massachusetts: Belknap Press de Harvard Univ. Imprensa, 2005, pág. 541 [117] Service, Robert. Stálin. Cambridge, Massachusetts: Belknap Press de Harvard Univ. Imprensa, 2005, pág. 545 [118] Hoxha, Enver. Com Stalin: Memórias. Tirana: 8 N'ntori Pub. Casa, 1979.

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