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  • Klaus Scarmeloto

Quem venceu a Segunda Guerra Mundial?




Por Vinícius da Silva Ramos, doutorando em História pela UERJ

  • Há pouco mais de dois anos, a Rádio França Internacional publicou uma reportagem na qual citava uma pesquisa feita por um instituto francês, mostrando como a percepção do desfecho da Segunda Guerra Mundial se modificou sensivelmente[i]. Enquanto nos anos que se seguiram logo após o conflito existia a clara percepção da sociedade francesa de que a Segunda Guerra Mundial havia sido vencida pelos soviéticos, já no século XXI, os estadunidenses passam a ter a preferência dos votantes em relação à mesma pergunta. Ao observamos superficialmente a questão, geralmente esbarramos em uma explicação até certo ponto razoável: o predomínio de Hollywood nos cinemas mundiais. Entretanto, afirmar que somente esse aspecto é responsável por uma mudança tão profunda no sentimento que existe sobre o maior massacre da história da humanidade nos parece fácil demais.

  • O resgate do soldado Ryan, Bastardos inglórios, Pearl Harbor, entre tantos outros sucessos de bilheteria podem sim modificar impressões de uma parcela da sociedade, mas para nós, não é possível explicar a impressão da vitória estadunidense somente pelo cinema. Em uma pesquisa empírica que desenvolvemos no Brasil, ficou claro que a visão da Segunda Guerra Mundial possuía o mesmo viés da congênere francesa, guardadas as devidas proporções, é claro[ii]. Portanto nos parece ser exagerado crer somente na força das telonas para tal comportamento. É sobre o aspecto da dominação cultural estadunidense no Brasil que pontuaremos algumas questões.

  • A barreira imposta pelas línguas eslavas pode ser considerada mais um ponto a favor da versão estadunidense da história, o que indicaria as já conhecidas dificuldades de tradução e publicação de obras que tragam o universo soviético para a discussão dentro de nosso país. Não podemos esquecer, entretanto, que a maior barreira encontrada sempre foi a censura, imposta tanto em momentos autoritários clássicos – como a Ditadura militar que assolou o Brasil de 1964 a 1985 -, quanto em momentos considerados democráticos, como o período que vai desde o fim do Estado Novo até o golpe civil-militar em 31 de março. Ou seja, durante mais de 40 anos foi baixíssima a produção de bibliografia sobre o conflito a partir do prisma soviético, se compararmos com a profusão de obras que exaltavam os EUA.

  • Mesmo após o fim da ditadura, com as garantias constitucionais da Carta de 1988, não tivemos um aumento significativo dessa produção. A autocensura existente dentro das editoras e mesmo entre pesquisadoras impedia que o lado soviético fosse contado entre nós. A ideia de se mostrar como uma empresa que optou pelo “lado errado” da Guerra Fria afasta ainda recursos para a vinda de novas obras sobre o tema. Uma prova disso foi a demora na produção de um livro brasileiro que utilizasse fontes soviéticas para tratar do conflito, tendo esse enorme hiato sendo preenchido somente em 2014 (quase 70 anos depois do fim da guerra!) com a publicação de Aço Vermelho.[iii] Soma-se a isso os milhões de dólares investidos na produção de material cultural favorável aos EUA, como revistas semanais e DVDs que podem ser adquiridos facilmente em bancas de jornais, um claro indicativo da produção em massa que é dirigida para nosso público.

  • Como se não bastasse tamanha influência em todos os aspectos culturais da vida do brasileiro, ainda temos que contar com a constante glamourização do nazismo empreendida pelos canais estadunidenses que projetam conteúdo em operadoras de televisão pagas. A quantidade prodigiosa de programas que enaltecem as capacidades militares dos líderes nazistas poderia levar a crer para um desavisado que o Eixo, e não os Aliados teriam vencido a guerra. Das centenas de histórias de fuga do líder nazista para a América do Sul, até um programa que pretende provar que o mesmo possuía apenas um testículo, podemos contar às dezenas os documentários que tratam do nazismo como um fenômeno glorioso[iv]. Tudo isso para nós se enquadra no esforço de esquecimento do lado soviético no conflito, colocando dois polos como os principais atores da guerra: EUA e Alemanha.

  • Por fim, colocamos como o principal fator para o predomínio da versão estadunidense para a Segunda Guerra Mundial, o financiamento de projetos de pesquisa e às vezes de todo um grupo de pesquisadores para a manutenção desse quadro hegemônico, o que já vem sendo discutido há algum tempo[v]. As tantas fundações de apoio à pesquisa que jorram recursos – como a Ford e a Rockfeller – em países considerados “colônias culturais” têm um papel fundamental na construção desse imaginário e não dispõem do seu dinheiro sem que haja uma seleção criteriosa dos assuntos a tratar. No caso da guerra, um lado tem sido privilegiado há décadas. Novas pesquisas[vi] indicam que esse tipo de financiamento se espalha para outros segmentos, mas isso é assunto para outro momento.

  • [i] http://br.rfi.fr/geral/20150508-afinal-quem-ganhou-segunda-guerra-mundial

  • [ii] TEIXEIRA, Francisco Carlos; NETO, Paulo Gomes; PLATENIK PITILLO, João Claudio; SANTOS, Roberto Santana. A Segunda Guerra Mundial 70 Anos Depois - Coletânea de Artigos. Rio de Janeiro: Multifoco, 2016. 252 páginas.

  • [iii] PITILLO, Joao Claudio Platenik. Aço Vermelho: os segredos da vitória soviética na segunda guerra. Rio de Janeiro: Multifoco, 2014.

  • [iv] Uma rápida consulta do material pode ser feito no próprio site de um dos canais pagos: https://seuhistory.com/etiquetas/nazismo.

  • [v] https://jornalggn.com.br/noticia/como-a-cia-influenciou-producao-cultural-na-guerra-fria

  • [vi] https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-de-influencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/

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